Tainã Dorea e Denise Valencio unem saberes afrodiaspóricos e memórias das avós em jardim que volta à Expoflora de Natal entre 14 de novembro e 20 de dezembro.
A arquiteta paisagista Tainã Dorea, do escritório arq.uilombo, e Denise Valencio, do perfil Terapiando com Plantas e Flores, criaram o projeto Jardim da Memória Afro-Brasileira, que resgata os saberes e a ancestralidade das mulheres negras ao unir o paisagismo afrorreferenciado de Tainã ao paisagismo de memória e afeto de Denise. Apresentado na 43ª edição da Expoflora, realizada entre 28 de agosto e 27 de setembro em Holambra (SP), o jardim homenageia avós, mães, benzedeiras, quitandeiras, quituteiras e outras mulheres que preservaram e transmitiram conhecimentos sobre plantas, alimentação, cuidado e proteção. O projeto volta ao público na edição de Natal da Expoflora, que acontece de 14 de novembro a 20 de dezembro, na mesma cidade.
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A ideia, segundo Tainã, nasceu da experiência dessas mulheres e da vontade de levá-la para o desenho da paisagem. “O jardim foi criado por mim e pela Denise Valencio a partir dos saberes de mulheres negras, avós, mães, quitandeiras, quituteiras e benzedeiras, para pensar como essas vivências também podem ser inscritas na paisagem por meio das plantas”, afirma a paisagista. Para isso, a dupla recorreu ao conceito de escrevivência, criado pela escritora Conceição Evaristo para nomear a escrita construída a partir da experiência vivida por mulheres negras, e o aplicou ao paisagismo, fazendo com que plantas, objetos e obras de arte funcionem como registros de memória.
Plantas, arte e memória
Uma frase de Conceição Evaristo, disposta em uma das paredes, abre o núcleo dedicado às escrevivências das mulheres negras nas paisagens, onde obras de Gabriel Guedes, Claudiane Guedes, Erika Nascimento, Alexandre Pedro Ferreira, Mabson Ferreira e da própria Tainã Dorea tratam da ancestralidade feminina em linguagens como pintura, pintura em cabaça, colagem digital, fitotipia, técnica que fixa imagens sobre folhas com a exposição à luz do sol, e secagem de plantas. No mesmo espaço, cestos e macramês com PANCs, as plantas alimentícias não convencionais, fazem referência às quitandeiras, mulheres negras que tiveram papel de destaque na comercialização de frutas e alimentos e que, no período colonial e após a abolição, ocuparam ruas e mercados de cidades como Salvador e Rio de Janeiro garantindo com esse comércio o sustento de muitas famílias.
Os conhecimentos passados de geração em geração pela oralidade ganham forma no jardim medicinal e de PANCs, instalado na parte frontal. Alecrim, hortelã e lavanda remetem ao uso tradicional de plantas em chás e emplastros, e espécies como o trevo lembram que muitos desses saberes também passavam pela alimentação. Ao fundo, junto à parede de tijolos, o Jardim Sagrado das Ewés/Makaia reúne plantas associadas à proteção, como dracena-peregun, espada-de-são-jorge e pimentas, e leva no nome as palavras ewé, do iorubá, e makaia, de origem banto, ambas ligadas à folha e aos povos africanos que contribuíram para a formação cultural brasileira.
A memória familiar aparece de forma mais direta no trecho que recria as antigas varandas das avós, espaços de convivência e de transmissão de histórias, com portões de ferro, cadeira de balanço, vasos, flores, ervas, mobiliário e objetos de decoração. Fotografias das avós de Denise Valencio completam a homenagem e aproximam a narrativa coletiva da história pessoal de quem idealizou o projeto.
Paisagismo afrorreferenciado e de memória
Tainã Dorea é mestre pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), atua como docente e está à frente do arq.uilombo, escritório-laboratório de paisagismo afrorreferenciado que desenvolve projetos, consultorias e oficinas educativas. “Meu trabalho parte do paisagismo afrorreferenciado, buscando trazer para a paisagem os saberes afrodiaspóricos, olhando para a história da comunidade negra e materializando através do projeto”, explica. Denise Valencio trabalha com o paisagismo de memória e afeto, que leva para os espaços elementos ligados às histórias familiares, em especial às memórias das avós, e faz a curadoria de objetos e outros elementos afetivos que ganham novo sentido na composição da paisagem, como a varanda recriada no jardim.
O Jardim da Memória Afro-Brasileira chegou ao público em um dos principais eventos de floricultura do país, realizado desde 1981 em Holambra, cidade de colonização holandesa que concentra a maior produção de flores do Brasil.
Quem não visitou o projeto na edição de setembro poderá conhecê-lo na edição de Natal da Expoflora, entre 14 de novembro e 20 de dezembro, em Holambra. Os trabalhos de Tainã Dorea podem ser acompanhados no perfil @arq.uilombo, e os de Denise Valencio em @terapiando.com.plantaseflores, ambos no Instagram.
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