Ôbigo fala sobre seu primeiro álbum com referências ao samba, orixás e ancestralidade

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Na lua de Jorge quem anuncia um caminho aberto conhece que a fauna de São Paulo é cheia das onças e não dorme no ponto. É assim que Ana Beatriz, conhecida como Aninha dá voz a introdução da primeira música do álbum Pela Honra do cantor Ôbigo.

Ôbigo hoje é rapper morador da zona leste, apaixonado por futebol torcedor do São Paulo e amante de samba, fã do Simonal, Candeia e tem como escola de samba do coração Nenê de vila Matilde e no Rio de Janeiro a Portela.

Conversamos com o candomblecista de Ogan, filho de Ogum e Oxum, que lançou recentemente seu primeiro álbum “Pela Honra”. O álbum reflete tudo o que citamos acima, com referências no samba, na religião e ancestralidade.

Ativista por natureza pelas questões raciais, Erickson Francisco da Silva tem 30 anos e ganhou o apelido “Bigo” ainda na infância, já na vida adulta, prestes a se lançar como cantor seu produtor deu a ideia de acrescentar a letra “O”.
“O veio porque eu tinha acabado de iniciar no candomblé. E sou Ogan filho de Ogum e Oxum”, explica Obigo.
Nascido e criado na zona leste de São Paulo no Jardim Noemia, Ôbigo conta que a construção das músicas e do álbum foi um trabalho junto do tempo, “conheci o Levi Keniata em 2013/14 e em 2015 pedi pra que ele me produzisse, existe uma primeira versão do álbum em que as músicas são completamente diferentes, representava mais o underground do rap gravamos na refugiaudio com base de um Mc que produziu algumas faixas e fazia engenharia de som e gravação, e quando o álbum já estava finalizado em 2016 Levi, o produtor do álbum, e eu ouvimos por dias e achamos que faltava algo, e foram mais 3 anos refazendo todo o conceito do álbum desde o arranjo instrumental, composição das letras e direção vocal então refizemos tudo, gravamos e finalizamos na nebulosa selo a única faixa que teve poucas alterações foi a faixa Pela Honra, todo processo durou entre cinco e seis até o lançamento em 2019. Esse tempo trouxe todo amadurecimento pro álbum ser o que é e contou com 25 pessoas trabalhando nele”. Dentre as 25 pessoas que trabalharam na construção do álbum estão nomes como Daniel Yorubá, Coruja e outros grandes artistas.

Erickson revelou que Andanças, a segunda faixa do álbum que diz ‘não adianta me amar e odiar o meu bairro’ foi escrita na rua: “tentei escrever em casa não conseguia, precisei ir pra rua sentar em um lugar movimentado, mesmo a música sendo sobre a minha história.
Já a faixa nove, ‘na companhia do silêncio’ foi um sonho, “acredito que todo compositor já passou por isso, sonhei com a música acordei na madrugada e escrevi no escuro, iluminava o caderno com a luz da tela do celular não podia fazer barulho nem acender a luz porque dívida quarto com meu irmão mais velho que acordava cedo pra trabalhar. Cada faixa tem uma história única e um sentimento verdadeiro”.

MN: O que você almejou quando pensou em realizar todo esse trabalho?

ÔBIGO: Penso sempre na arte/música como um Deus e sou só um missionário agraciado, eu almejei ser corpo da cultura preta brasileira, mas não como um produto apenas, mas parte do sentimento desse povo, uma restauração ou continuidade e também me apresentar como um artista em potencial queria movimentar as pessoas levar elas a um ponto de reflexão que nunca tiveram ou que já tiveram e sentiram medo, precisam olhar pro seu interior e acreditar no que sentem, buscar o equilíbrio dentro desse caos e a busca do paraíso, precisamos lutar para existir mas estamos aqui pra sambar e sorrir também.

MN: Qual o seu objetivo e o que você faz para que não mora de banzo?

ÔBIGO: Meu objetivo é continuar cantando rap, mas sendo um resistente do samba, é uma das culturas preta brasileira mais importante, que até hoje serve de estrutura para que possamos ser quem somos e o que quisermos, e é exatamente para que não morramos de banzo, a ruptura já foi feita com a escravidão, e toda diáspora tem seu culto de religação, aqui temos o candomblé o samba que fala sobre ancestralidade ainda bem viva, a auto estima que buscamos está nessas culturas entre outras claro mas essas são as que pertenço é onde está a resposta para, e o preenchimento de todo esse vazio que sentimos e buscamos compreender.
É um traço genético quem samba é feliz, quem cultua orixá (ancestral) é forte. O que precisamos para expurgar o banzo força e felicidade juntos chegaremos mais longe.

MN: Um sonho para o futuro?

ÔBIGO: Um sonho que tenho pro futuro e ver uma comunidade preta real, um movimento negro com estrutura para trabalhar, prevenção do racismo e reparação dos danos, isso pra um futuro que não vou ver.
Um futuro ao meu alcance tenho alguns, São Paulo está aí mais de 10 anos sem título, gritar é campeão de novo seria bom, ver a nenê de vila Matilde como foi no seu auge e viver de música que ainda não é uma realidade.

Ouça Pela Honra:

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