Por Ivair Augusto Alves dos Santos
As cenas de atuação da atriz Sheron Menezzes como Isabela Miranda (Bela), protagonista médica obstetra, são impactantes pela beleza e delicadeza, mas ocultam problemas sobre os quais precisamos conversar quando tratamos da saúde das mulheres negras.
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É necessário promover reflexões e muito debate em nossas famílias sobre a importância do Sistema Único de Saúde (SUS), uma das maiores conquistas da sociedade brasileira e de enorme importância para a população negra.
Quem acessa a saúde no Brasil? Dados do Ministério da Saúde revelam que 70% das pessoas dependem da saúde pública. Dados do IBGE mostram ainda que, entre essa maioria que recorre ao SUS, 76% dos atendimentos e 81% das internações são da população negra.
As cenas da saúde na novela “Por Você” não dialogam com o SUS. Elas ocorrem em um hospital particular de referência, de alto padrão, próximo à comunidade. O atendimento médico é de excelência e atua de forma beneficente, pro bono, para a população carente — o que, no fundo, também pode significar isenção de impostos para o hospital. Em todas as situações em que a comunidade precisou de atendimento médico, as pessoas recorreram a Bela.
Isso nos leva a perguntar: por que a população não recorre ao SUS, mas a uma amiga? Bela sempre atua de forma emergencial na assistência aos mais necessitados. Mas como as mulheres negras são atendidas no nosso cotidiano? O que acontece com seu acesso à saúde pública?
Os dados mostram que as mulheres negras tendem a ser mães mais jovens, com concentração na faixa entre 20 e 24 anos. Apesar disso, segundo o Ministério da Saúde, recebem menos consultas pré-natais, iniciam o pré-natal em estágio mais avançado da gravidez e recebem menos informações sobre os riscos da gestação quando comparadas às mulheres brancas.
A mortalidade materna também é mais grave nesse grupo. As mulheres negras são, ainda, as maiores vítimas de violência obstétrica, passando por abusos, desrespeito e maus-tratos durante o trabalho de parto. Recebem menos analgesia em razão da ideia preconceituosa de que “são mais fortes”.
Uma tragédia que se tornou referência é a de Alyne Pimentel, jovem negra que morreu grávida de seis meses, em 2002, vítima de negligência médica em Belford Roxo (RJ), e que hoje dá nome à Rede Alyne. Sua morte tornou-se um marco internacional: o Brasil foi condenado pela Organização das Nações Unidas (ONU) por falhar em garantir atendimento adequado, tornando-se o primeiro país responsabilizado internacionalmente por uma morte materna evitável reconhecida como violação dos direitos humanos das mulheres a uma maternidade segura.
Muitas mulheres relatam abusos, desrespeito, ofensas e maus-tratos durante a assistência ao parto e pós-parto em instituições públicas e privadas. A violência obstétrica é mais uma forma de violência de gênero, vivenciada pelas mulheres negras com maior frequência e intensidade.
O estudo “Nascer no Brasil 2”, realizado pela Fiocruz em 465 maternidades brasileiras, mostrou que mulheres negras e pobres têm maiores chances de enfrentar as dores do parto sem suporte adequado e de ouvir comentários constrangedores e humilhantes no nascimento de seus filhos:
“O médico nem examinou a gestante negra.”
“No pré-natal, só mandavam emagrecer. Eu nem sabia o que era eclampsia, quase morri.”
“Escutei a recepcionista (pré-natal) falar: negra é como coelho, só dá cria.”
“No parto do meu último filho não me deram anestesia.”
As mulheres negras, jovens e adultas, têm na personagem da médica Bela uma referência e inspiração de vida e carreira profissional: uma conselheira e amiga que as socorre em momentos de dificuldades e tragédias.
Ao assistir à novela “Por Você”, veio-me à lembrança um artigo do médico Adib Jatene (1929–2014), “O problema do pobre”, publicado na Folha de S.Paulo em 3 de dezembro de 2007. Compartilho uma de suas intervenções, que teve grande repercussão:
«“O grande problema do pobre não é ele ser pobre, é que o amigo dele também é pobre!”. Ele não tem amigo que fale com quem decide, que marque uma audiência, que o ajude a elaborar um projeto, que negocie financiamento. Ele está confinado em áreas pobres, com deficiência de saneamento básico, problemas de segurança, transporte, educação, saúde, lazer etc. (…)
A realidade é perversa -menos de 20% da população tem todos os recursos mais modernos, enquanto 80% sofrem todo tipo de restrições- é difícil de ser aceita como razoável. Por isso venho, há muito tempo, tentando convencer os que vivem com conforto e com os mais modernos recursos de saúde à sua disposição de que a distribuição dos recursos é injusta e não pode ser perpetuada.”»
As cenas de Bela, médica obstetra, mostram com nitidez que ter uma amiga respeitada e presidente do hospital faz toda a diferença na vida das pessoas da comunidade. Mas, como usuários do SUS, temos que nos unir, lutar e participar ativamente dos conselhos municipais de saúde para melhorar o financiamento e as condições de acesso das comunidades e valorizar a política pública de saúde no país.
A população negra é a que mais utiliza o SUS e também a que enfrenta maiores dificuldades de acesso. Pessoas negras são mais vulneráveis a atendimentos em que suas queixas são desvalorizadas, há negligência dos profissionais e pouca atenção aos sintomas e ao quadro de saúde. Em razão do racismo, estão também mais expostas ao diagnóstico e ao tratamento tardios.
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