“O Livro de Eli” traz metáfora religiosa em meio a cenas de ação e elegância de Denzel Washington

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O mundo foi dizimado por uma guerra e os humanos sobreviventes se matam em busca dos parcos recursos naturais que sobraram, incluindo água. O guerreiro Eli caminha solitário nesse mundo inóspito enquanto carrega o único exemplar de um livro que promete trazer esperança de volta para humanidade. Fora Eli, apenas um outro homem compreende o poder desse livro e o caminho de ambos se cruzaram e um conflito se instala pelo pelo poder das palavras de salvação do mundo.

O Livro de Eli | Crítica | CinemAqui
Imagem: Reprodução

Quando foi lançado em 2010, “O Livro de Eli”, protagonizado por Denzel Washington teve sucesso modesto nas bilheterias, arrecadando 157,1 milhões USD, mas hoje é só pesquisar o nome do filme no Google que é fácil constatar que angariou fãs e analistas das metáforas religiosas contidas no longa dirigido pelos irmãos Albert e Allen Hughes (‘Do Inferno’).

Uma das qualidades do filme é não mastigar tudo para o público. A fotografia monocromática, acinzentada, deixa claro que estamos sendo imersos em um mundo morto, assim como o cenário com estradas esburacadas e as roupas precárias e sujas dos personagens deixam visível a luta que cada um enfrenta para conseguir ter ao menos uma peça para se proteger do calor incessante e dos raios nocivos do sol que não enfrentam mais a proteção eficaz da atmosfera. 

Denzel Washington com a presença marcante de sempre faz de seu Eli um homem de poucas palavras e pouco sabemos sobre seu passado, o que ajuda e envolver o personagem em uma aura de mistério bem-vinda. Tudo que se sabe é que ele busca o futuro e tem uma fé inabalável no item que carrega.

Em uma das sequências mais empolgantes do filme, ele avisa um bandido que se tentasse atacá-lo ele responderia com uma determinada ação. Subestimando Eli, o ladrão ataca olhando atônito para o protagonista impassível, escuta: “Eu avisei não foi?” A cena informa tudo que preciamos saber sobre a forma objetiva do herói agir, usando poucos cortes, em uma cena inteligível e divertida.

Para fazer frente ao herói, o vilão é Carnegie (Gary Oldman), o chefe de um vilarejo que aparenta ter saído dos antigos westerns, onde tudo pode ser comprado, seja bebida, água ou mulheres. Oldman varia entre momentos de frieza calculada com rompantes canastrões de fúria, mas sem nunca parecer cômico, oferecendo contraponto bem-vindo à elegância de Washington.

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Imagem: Reprodução

Algumas passagens bíblicas ajudam a contextualizar a obstinação de Eli por conseguir entregar o livro a um destino que procura há 30 anos. As palavras bíblicas guiam sua jornada de forma ininterrupta e não há sinal de hesitação na sua crença, ainda que constantemente se depare com a maldade de outros humanos e se envolva em conflitos sanguinários. Eli parece enxergar o que ninguém enxerga e sua cegueira física.

Com apenas dois personagens conhecendo o poder das Escrituras, o poder de moldar a realidade através da religião, pode-se até identificar com a posição do vilão em algum momento, mas se o personagem de Gary Oldman parecesse um pouco mais virtuoso em suas ações do que em seu discurso, o longa ganharia camadas mais interessantes.No entanto isso é compensado com o aspecto messiânico de Eli ganhando contornos práticos e não apenas morando em sua pregação.  A virada acontece com o encontro do personagem com Sora, vivida por Mila Kunis. Além da palavra, Eli começa a ajudar as pessoas em ação, entendendo que para além de andar “nos vales da sombra da morte”, usar suas habilidades para proteger os desamparados também é fazer jus à Palavra.

“O Livro de Eli” reitera o discurso de manter a esperança, mesmo que se ande em um mundo que não ofereça perspectiva. Um thriller que fala de espiritualidade sem mergulhar no proselitismo religioso.

O filme está disponível no catálogo da Netflix.

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