
De Três Pontas ao Grammy, Milton Nascimento conquistou Wayne Shorter, Paul Simon e esperanza spalding com uma voz e uma obra que atravessaram fronteiras.
Milton Nascimento completa 84 anos nesta segunda-feira (26) reconhecido no Brasil como um dos maiores compositores da música popular e, fora do país, como um artista que influenciou nomes do jazz, do pop e da música instrumental. A admiração estrangeira, iniciada no fim dos anos 1960, rendeu a ele em 2016 o título de doutor honoris causa pela Berklee College of Music.
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A história começa na Tijuca, no Rio de Janeiro, onde ele nasceu em 1942, filho de Maria do Carmo do Nascimento, empregada doméstica que morreu quando ele tinha cerca de 2 anos. Adotado por Lília Silva Campos, professora de música, e Josino Brito Campos, Milton foi criado em Três Pontas, no Sul de Minas, cidade que deu a ele o apelido de Bituca. Carioca de nascimento, construiu em Minas a identidade que o país reconhece, e até as iniciais do nome, M e N, parecem soletrar o estado que o adotou.
Mineiro por escolha
Em Belo Horizonte, a partir de 1963, a amizade com os irmãos Lô e Márcio Borges reuniu em torno dele músicos como Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso e o letrista Fernando Brant. Desse encontro surgiu o Clube da Esquina, movimento que misturava a música sacra das igrejas mineiras, as toadas do interior, o rock dos Beatles e as harmonias do jazz. O álbum de 1972, assinado por Milton e Lô Borges, foi eleito em 2022 o melhor disco brasileiro de todos os tempos pelo podcast Discoteca Básica.

A virada nacional veio em 1967, quando “Travessia”, parceria com Fernando Brant, ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção. O resultado não lhe deu o troféu principal, mas chamou a atenção do produtor americano Creed Taylor, que estava na plateia e ofereceu um contrato para três discos nos Estados Unidos.
O encanto dos músicos estrangeiros
Críticos e músicos estrangeiros costumam destacar três elementos para explicar o fascínio por Milton. O primeiro é a voz, capaz de passar do registro grave ao falsete sem perder a afinação nem a intensidade. O segundo são as harmonias, construídas com acordes abertos e caminhos melódicos pouco previsíveis, próximas do jazz sem pertencer a ele. O terceiro é a ligação com o canto religioso, herança das igrejas de Minas que dá às canções um caráter quase litúrgico.

O saxofonista Wayne Shorter foi um dos primeiros a perceber isso e o convidou para “Native Dancer”, de 1975, disco que o apresentou ao público do jazz. Depois vieram parcerias com Paul Simon, em “Spirit Voices”, Sarah Vaughan, Quincy Jones e Mercedes Sosa. Em “Angelus”, de 1994, reuniu Herbie Hancock, Pat Metheny, Peter Gabriel e James Taylor. O Earth, Wind & Fire incorporou “Ponta de Areia” a uma de suas faixas, e o Duran Duran dividiu com ele a composição de “Breath After Breath”. O reconhecimento formal chegou com o Grammy de Melhor Álbum de World Music, em 1998, por “Nascimento”, e o Grammy Latino pelo conjunto da obra, em 2012.

Uma obra que acompanha o país
Dentro do Brasil, a relação do público com Milton passa também pela história recente. “Coração de Estudante”, composta a partir do assassinato do estudante Edson Luís pela polícia, em 1968, virou hino das Diretas Já. Em 1982, a “Missa dos Quilombos” levou a resistência negra e a memória de Zumbi dos Palmares para dentro de uma celebração religiosa.

O documentário “Milton Bituca Nascimento”, de Flavia Moraes, lançado em 2025, registra o homem tímido, de fala mansa e generoso com quem se aproxima. Essa doçura ajuda a explicar a proximidade que o público sente, a mesma que levou cerca de 60 mil pessoas ao Mineirão em novembro de 2022, no último show da turnê de despedida “A Última Sessão de Música”.
A admiração internacional ganhou um novo capítulo em 2024, com o álbum “Milton + esperanza”, gravado ao lado da baixista e cantora esperanza spalding e indicado ao Grammy. Na cerimônia de 2025, quando Milton ficou fora das mesas principais, esperanza exibiu uma placa com a foto dele, gesto que repercutiu no Brasil e nos Estados Unidos. Aos 84 anos, Milton segue celebrado por artistas de várias gerações e por um público que encontra em sua voz parte da própria história.

