Entre os diversos perrengues e as aventuras da maternidade solo, Niny Magalhães transformou as próprias vivências em gargalhadas em grandes palcos de stand-up. Mãe de três filhos, a comediante nascida em Ceilândia (DF) encontrou na própria trajetória uma comédia que produz identificação e reivindica espaço.
Em apenas três anos de carreira, Niny reuniu dezenas de milhares de espectadores, passou por grandes palcos, como o Teatro Municipal de São Paulo, o Museu Nacional e o Teatro Goldoni, em Brasília, e conquistou mais de 750 mil seguidores, que acompanham conteúdos criativos relacionados à experiência de ser mãe solo e mulher negra. Ela também participou de produções do Comedy Central Brasil e da TNT, além do programa “Humor Negro”, do Multishow.
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A artista lançou, em 2025, o aclamado especial “Uma Mãe Vida Loka”, disponível no YouTube, que já conta com mais de 200 mil visualizações. “Queria conseguir pôr em palavras a sensação de orgulho e, ao mesmo tempo, a inquietação de saber que sou a primeira comediante negra a ter um especial gravado no Brasil e, pela primeira vez na história, para uma plateia só de mulheres”, conta, em entrevista ao Mundo Negro.
Antes da gravação, Niny realizou 11 apresentações pelo país. Ao fim de cada show, era procurada por mães que compartilhavam relatos sobre partos, dores, alegrias, conquistas, relacionamentos e a criação dos filhos. “O ‘Mãe Vida Loka’ é a história da minha maternidade solo, que começou aos 18 anos. Tantas camadas, né?”, diz.
Para a artista, o especial é também uma homenagem às mulheres que criam seus filhos sozinhas e enfrentam a expectativa social de que sejam sempre fortes. “É um registro da homenagem que fiz às mais de 11 milhões de mulheres que criam seus filhos sozinhas no Brasil e que todo mundo acha que dão conta, afinal, somos guerreiras.”
Ao abordar assuntos que costumam ser silenciados, Niny percebeu que o espetáculo produzia um efeito coletivo. “Tocar no assunto que ninguém toca foi importante, pois as mulheres ao meu redor se sentiram representadas.” A partir daí, o show deixou de ser apenas uma apresentação de humor e passou a ser compreendido por ela como “um movimento social de mulheres que não desistem — todas, sem exceção — e, por que não, dos homens aliados também, que hoje são bem-vindos ao meu show”.
Maternidade como posicionamento
A maternidade, para a comediante, não aparece apenas como tema de seus textos. Ela organiza sua maneira de enxergar a vida e a própria carreira. “Como em todos os trabalhos que fiz na vida, sempre deixo muito claro que tudo o que faço é pelos meus filhos”, afirma.
Niny conta que seu texto mais viralizado também aborda a maternidade e as prioridades que orientam suas escolhas. “Minha postura diante do mundo é uma só: antes de ser comediante, eu sou mãe; antes de ser o amor de alguém, antes de tudo, está a minha maternidade.”
Essa perspectiva se soma à sua identidade como mulher negra, mãe solo e artista independente. “Eu sou um posicionamento político somente por existir”, declara.
Entre suas referências mencionadas na entrevista estão as comediantes norte-americanas Wanda Sykes e Tiffany Haddish. Ao construir o próprio caminho, Niny transforma a experiência cotidiana de uma mãe em narrativa e riso.
Para ela, ocupar o palco e falar das próprias experiências é uma forma de enfrentar a invisibilidade atribuída a mulheres como ela. “Para o mundo, a minha figura é invisível. Tenho conquistado meu espaço, pois o que tenho para oferecer é uma comédia verdadeira sobre vivências reais. Essa é a essência do stand-up, e foi isso que me abriu muitas portas.”
Ocupação e pertencimento
Cada palco também representa uma ruptura com a ideia de que determinados espaços não seriam destinados a mulheres negras. O Teatro Goldoni, em Brasília, foi o primeiro teatro em que Niny se apresentou. “Até choro quando lembro”, revela.
Entre as conquistas, ela destaca a participação no primeiro elenco de comédia negro a subir ao palco do Theatro Municipal de São Paulo. “Olha o peso disso! É uma honra para mim ser pioneira em lugares em que antes diziam que não eram para nós.”
A passagem pelo Museu Nacional, em sua cidade natal, também adquiriu um significado especial. “Nem nos meus mais lindos sonhos eu imaginava viver o que vivi”, afirma.
“Ser uma mãe solo preta em um palco me permitiu sonhar e fez com que as minhas também se vissem lá comigo”, resume.
“Não vamos parar”
Para Niny, o aumento do número de comediantes negras no país ainda não significou uma transformação profunda nas estruturas da cena. “As barreiras são as mesmas”, afirma.
A comediante destaca que ser mulher e negra já impõe dificuldades adicionais em uma cultura que continua majoritariamente masculina e branca. Por isso, defende a presença do público negro em seus shows e a criação de uma cena que reconheça artistas negras sem exigir que elas provem constantemente seu valor.
“Não quero fazer parte de uma cena em que uma artista mulher, negra e mãe solo tenha que provar que é o que já é”, declara. “Tenho trabalhado duro, dia após dia, para acender um holofote sobre nós e dizer que tem mulher preta fazendo comédia, sim, e que não vamos parar”, conclui.
Atualmente com o espetáculo “Anjos”, Niny Magalhães segue com uma série de apresentações pelo país. Um show de humor autobiográfico onde Niny divide o palco com suas memórias mais profundas. Entre risos e lágrimas, ela aborda a maternidade solo, a vida na periferia e a resiliência de quem nunca desistiu dos sonhos. No dia 24 de setembro, a comediante realizará um show de stand-up em Barueri (SP). Para mais informações sobre a agenda de shows, o público pode acompanhar o perfil @ninymagalhaes.
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