Neste 25 de julho, celebramos o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, data que no país também homenageia a liderança quilombola Tereza de Benguela. Mais do que uma celebração, o marco é um chamado à reflexão sobre a urgência de democratizar os espaços, inclusive na política. Embora representem 28% da população brasileira — o maior grupo demográfico do país —, as mulheres negras ainda ocupam apenas 5,6% das cadeiras na Câmara dos Deputados (29 das 513 vagas), pouco mais de 1% no Senado Federal e menos de 6% das Assembleias Legislativas estaduais.
Apesar da luta por mais espaço na política, diversas lideranças negras e femininas que furam o bloqueio de uma estrutura historicamente patriarcal e racista transformam a agenda pública. Da defesa dos direitos humanos e do combate à fome às pautas ambientais e de diversidade, a presença dessas mulheres no poder não é apenas um ato de representatividade, mas um projeto de reparação histórica e futuro para o país.
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Abaixo, relembramos trajetórias pioneiras e contemporâneas que moldaram e seguem redefinindo a política brasileira de Norte a Sul.
Antonieta de Barros

Professora, jornalista e política catarinense, Antonieta de Barros fez história ao se tornar a primeira mulher negra a assumir um mandato parlamentar no Brasil e a primeira deputada estadual de Santa Catarina. Eleita nas urnas em 1934 pelo Partido Liberal Catarinense — no histórico primeiro pleito em que as mulheres brasileiras puderam votar e ser votadas —, assumiu a titularidade da vaga na 1ª legislatura (1935-1937). Antes de seu mandato ser interrompido pelo Estado Novo, tornou-se a primeira mulher a presidir uma sessão legislativa no país. Com a redemocratização, retornou à Assembleia Legislativa em 1948, utilizando a política, a imprensa e a sala de aula no combate ao analfabetismo, ao racismo e à discriminação de gênero.
Entre seus maiores legados, está a autoria da lei estadual que instituiu o Dia do Professor e o feriado escolar em Santa Catarina em 15 de outubro — pioneirismo que serviu de base para a oficialização da data em todo o país, em 1963. Assim, Antonieta de Barros consolidou uma trajetória atemporal de liderança, cidadania e emancipação social.
Benedita da Silva

Referência histórica da política brasileira, Benedita da Silva acumula pioneirismos como a primeira mulher negra a ocupar os cargos de vereadora do Rio de Janeiro, deputada constituinte, senadora e governadora do estado — sendo a única ex-governante viva do RJ que não foi presa nem cassada por corrupção. Criada na favela do Chapéu Mangueira, foi aprovada nas urnas em 1982 para seu primeiro mandato com o marcante slogan “Negra, mulher e favelada”, participou ativamente da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) e atualmente segue no exercício do mandato como deputada federal.
Entre suas principais realizações, destacam-se o projeto que inscreveu Zumbi dos Palmares no Panteão dos Heróis da Pátria, as propostas pioneiras para a instituição do Dia da Consciência Negra, a cota para inclusão de negros nas produções audiovisuais e a exigência do quesito etnia em documentos oficiais. Como governadora, criou delegacias para apurar crimes raciais e regulamentou cotas no ensino superior fluminense, além de ter sido a relatora da histórica PEC das Domésticas no Congresso Nacional, garantindo direitos trabalhistas e no combate ao assédio para a categoria.
Erika Hilton

Ativista dos direitos humanos, Erika Hilton fez história ao se tornar a primeira mulher trans e negra eleita para a Câmara Municipal de São Paulo, sendo a vereadora mais votada do país em 2020. Em 2022, alcançou projeção nacional ao se eleger deputada federal por São Paulo. Sua atuação parlamentar combina firmeza na defesa da igualdade de gênero e raça, direitos da comunidade LGBTQIAPN+, articulação no combate à fome e liderança em pautas voltadas à dignidade das periferias e à garantia dos direitos da classe trabalhadora.
Recentemente a parlamentar protagonizou um marco histórico ao articular e aprovar na Câmara dos Deputados a PEC que estabelece o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. Construída em parceria com o vereador carioca Rick Azevedo, idealizador do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) —, a proposta representa a primeira grande alteração constitucional em direitos trabalhistas no país desde a promulgação da Carta Magna de 1988. O texto ainda aguarda votação no Senado Federal, mas reflete a capacidade de mobilização social e articulação política de Erika Hilton na intersecção de pautas da população brasileira.
Leci Brandão

Além de artista fundamental da cultura brasileira, especialmente no samba, Leci Brandão construiu uma carreira política marcada pela defesa da igualdade racial, dos direitos das mulheres, das religiões de matriz africana e da população LGBTQIA+. Filiada ao PCdoB desde 2010, tornou-se a segunda deputada negra da história da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) e fez história como a primeira mulher negra a cumprir quatro mandatos consecutivos na casa, sendo eleita e reeleita nos pleitos de 2010, 2014, 2018 e 2022. Sua atuação parlamentar é voltada ao fomento do patrimônio cultural, ao fortalecimento da juventude e à proteção de populações vulnerabilizadas, incluindo comunidades indígenas e quilombolas.
Entre suas principais iniciativas legislativas, destaca-se a coautoria no Projeto de Lei “Menstruação Sem Tabu”, articulação pioneira para combater a pobreza menstrual com a distribuição gratuita de absorventes a estudantes e pessoas em vulnerabilidade. Assina também projetos voltados à valorização da cultura popular, como a criação do Dia Estadual do Samba e do Dia da Favela, somando mais de 37 leis aprovadas ao longo de sua trajetória parlamentar.
Lívia Duarte

A psicóloga Lívia Duarte fez história ao se tornar a primeira mulher preta eleita deputada estadual no Pará em 2022. Anteriormente, a ativista que nasceu no Guajará I, na periferia de Belém, foi eleita vereadora da capital paraense em 2020. Em seu mandato municipal, bateu o recorde na elaboração legislativa em um ano e meio, sendo autora do Estatuto da Igualdade Racial de Belém e de projetos de lei como a distribuição gratuita de absorventes e a criação de creches noturnas.
A parlamentar expandiu sua liderança para o cenário estadual e internacional. Sua atuação política fundamenta-se no combate ao racismo, na defesa dos direitos das mulheres, das mães, da população LGBTQIAP+ e das pessoas com deficiência. Mestranda pela UFPA, Lívia projeta a voz dos povos da Amazônia em fóruns globais, acumulando participações na Comission on the Status of Women- CSW a convite da ONU e no movimento internacional de parlamentares por um futuro livre de combustíveis fósseis, articulando a justiça ambiental e social.
Marielle Franco

Cria da Maré, socióloga e defensora dos direitos humanos, Marielle Franco foi a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro em 2016. Sua atuação na Câmara Municipal pautou-se no combate à violência policial, na defesa das mulheres periféricas, dos jovens negros e da população LGBTQIA+. No parlamento, presidiu a Comissão de Defesa da Mulher e atuou como relatora da comissão que monitorava a intervenção federal no estado, denunciando abusos e violações de direitos. Seu assassinato brutal em 2018 tentou calar a sua luta, mas transformou sua memória em um símbolo global de resistência, impulsionando o “Efeito Marielle” – uma onda de candidaturas de mulheres negras na eleição em todo o país.
Em pouco mais de um ano de mandato, a vereadora articulou projetos voltados à coleta de dados sobre a violência de gênero, à garantia do aborto legal e à ampliação do acesso à saúde pública e à mobilidade urbana. Entre suas propostas aprovadas estão a Lei das Casas de Parto, criada para humanizar o atendimento ao parto normal na rede pública, e a regulamentação do serviço de mototáxi na capital fluminense. Marielle construiu um legado atemporal de ocupação de espaços de poder, cidadania e transformação social no Brasil e no mundo.
Marina Silva

Historiadora, ambientalista e uma das vozes políticas mais influentes do Brasil no mundo, Marina Silva é referência na articulação entre sustentabilidade, combate à emergência climática e justiça socioambiental. Nascida em um seringal no Acre, alfabetizou-se na adolescência e iniciou sua trajetória no movimento sindical e comunitário ao lado de Chico Mendes, com quem fundou a CUT no estado em 1985. Eleita a vereadora mais votada de Rio Branco em 1988 e deputada estadual em 1990, notabilizou-se pelo combate aos privilégios políticos. Em 1994, fez história ao se tornar a pessoa mais jovem a ser eleita senadora da República no país, aos 36 anos.
Como ministra do Meio Ambiente nos governos do Lula, liderou a implementação de metas históricas de redução de emissões e o fortalecimento do Plano Nacional de Mudanças Climáticas. Em 2010, tornou-se a primeira mulher negra a se candidatar à Presidência da República no Brasil, alcançando o terceiro lugar com quase 20 milhões de votos no pleito inicial e superando 22 milhões de votos na eleição de 2014. Eleita deputada federal por São Paulo em 2022 pela Rede Sustentabilidade, retornou ao comando do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, consolidando o restabelecimento do Fundo Amazônia, a recriação do Conama e a instituição de órgãos focados no combate ao desmatamento e na defesa do clima. Sua trajetória une a vivência dos seringais ao protagonismo global na preservação dos biomas e na garantia de direitos aos povos tradicionais.
Olívia Santana

A pedagoga Olívia Santana fez história ao se tornar a primeira mulher negra a ser diretamente eleita pelo voto popular para o cargo de deputada estadual na Bahia. Foi vereadora de Salvador por uma década, titular das secretarias municipais de Educação e estaduais de Políticas para as Mulheres e do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte. Sua liderança é marcada pela implementação da lei que inspirou a criação do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, pela criação da Ronda Maria da Penha no estado.
Filiada ao PCdoB, foi reeleita deputada estadual em 2022, consolidando-se como a candidata de esquerda mais votada na Bahia. Sua atuação no parlamento combina a defesa da educação pública com o combate ao racismo e à violência de gênero, sendo autora da lei de salvaguarda da capoeira e da norma que garante prioridade em programas de emprego para mulheres vítimas de violência doméstica. Em 2023, lançou o livro “Mulher Preta na Política”, registrando sua trajetória como documento histórico.
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