Mundo Negro

25 de julho: a luta das mulheres negras latino-americanas e caribenhas e o futuro do trabalho

Shirley Serafim (Foto: Divugação)

Por Rachel Maia

O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, nasceu da necessidade de tornar visíveis mulheres que, historicamente, permaneceram invisibilizadas nas estatísticas, nos espaços de poder e nos processos de tomada de decisão.

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Instituída em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, realizado em Santo Domingo, na República Dominicana, a data reuniu lideranças de diversos países para denunciar o racismo, o sexismo e as desigualdades sociais que atravessam a vida das mulheres negras há séculos. No Brasil, desde 2014, o dia também homenageia Tereza de Benguela, símbolo da resistência quilombola e da liderança feminina negra.

Essa data também me leva a refletir sobre o quanto seguimos engajadas em fomentar oportunidades para outras mulheres e sobre a importância de homenagear aquelas que estão tão próximas de nós. 

Neste artigo, Shirley Serafim, consultora de Relações Públicas, que atua em uma multinacional sediada em Singapura, que opera em toda a região da Ásia-Pacífico representará todas as mulheres negras que tive a honra de alcançar com a minha trajetória pautada pela diversidade de talentos e humanização social. É uma troca que fortalece ambas as partes e nos permite crescer mutuamente.

“Sou formada em Relações Internacionais, formação que ampliou minha visão sobre geopolítica, diversidade cultural e cooperação entre os povos. Essa experiência acadêmica, somada à vivência profissional, consolidou em mim a certeza de que a inclusão não deve ser tratada apenas como um valor institucional, mas como uma estratégia indispensável para o desenvolvimento sustentável das empresas e das sociedades”, ressalta Shirley Serafim, que já soma quase 30 anos de carreira.

Três décadas depois daquele encontro histórico, os desafios permanecem. Houve avanços na ocupação das universidades, na presença em cargos públicos, no empreendedorismo e na produção intelectual. No entanto, o mercado de trabalho continua reproduzindo desigualdades estruturais, tornando a trajetória das mulheres negras muito mais desafiadora e, consequentemente, mais exaustiva.

Interseccionalidade

Mulheres negras enfrentam barreiras que não atingem da mesma forma homens negros e brancos ou mulheres brancas. Isso significa menor acesso às posições de liderança e maior concentração em atividades precarizadas. É impossível discutir produtividade, inovação ou competitividade sem enfrentar as desigualdades que limitam o desenvolvimento de milhões de mulheres. O acesso às oportunidades de crescimento profissional e à remuneração ainda está aquém do ideal para a maioria dessas trabalhadoras, especialmente quando comparado ao de profissionais de outras etnias. 

“Na Ásia, onde atualmente desenvolvo minha carreira, essa transformação é particularmente evidente. Países da região ampliaram significativamente a presença feminina em setores estratégicos, como tecnologia, comércio internacional, finanças, relações governamentais e diplomacia. Mesmo em áreas tradicionalmente masculinas, observa-se um crescimento consistente da participação feminina em posições de liderança e representação internacional. Entretanto, quando analisamos essa evolução sob uma perspectiva interseccional, percebemos que os avanços não alcançam todas as mulheres da mesma forma. Falar sobre equidade exige reconhecer que nós, mulheres negras, enfrentamos desafios específicos decorrentes da combinação entre desigualdades raciais e de gênero”, contextualiza a consultora de Relações Públicas.

Os dados de 2025 do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), evidenciam essa realidade. As mulheres negras representam cerca de 30% dos lares brasileiros como principais responsáveis pelo sustento familiar. Apesar disso, recebem, em média, 53% menos que os homens brancos. Quase metade delas vive com rendimento de até um salário mínimo, 39% estão na informalidade e apenas uma em cada 46 ocupa cargos de direção ou gerência. A taxa de desocupação entre mulheres negras também permanece superior à média nacional, alcançando 8%, o dobro da observada entre homens brancos.

Esses números revelam que, enquanto cresce o discurso empresarial sobre inovação e sustentabilidade, a realidade demonstra que o talento das mulheres negras continua sendo subaproveitado. A ausência de oportunidades equitativas de contratação, promoção e desenvolvimento mantém inúmeras profissionais — altamente qualificadas — afastadas dos espaços onde poderiam exercer plenamente seu potencial.

As que já estão no mercado seguem com maestria sustentando setores essenciais da economia. Como exemplo, temos Dione Assis no jurídico, Helen Moraes na construção civil, Carolina Prates na administração empresarial, Márcia Maia e Silvana Maia na educação. Entre tantas outras que estão presentes, na saúde, nos serviços, no comércio, na ciência, na cultura, e também no empreendedorismo, transformando a escassez de oportunidades formais, muitas vezes, em negócios próprios.

Celebrar o 25 de julho, para nós, tem um significado que vai muito além da homenagem: representa resistência, memória e luta. É mais um momento para reconhecer que a democracia econômica e o desenvolvimento sustentável dependem da superação das desigualdades raciais e de gênero. Enquanto mulheres negras continuarem sendo maioria entre as responsáveis pelo sustento das famílias e minoria nos espaços de decisão, o mercado de trabalho continuará refletindo estruturas de exclusão construídas ao longo da história.

A história das mulheres negras latino-americanas e caribenhas é marcada pelo trabalho, pela resistência e pela capacidade de transformar adversidades em oportunidades. Nosso desafio permanente é garantir que todas as mulheres sejam respeitadas, tenham sua dignidade preservada e possam ocupar os espaços com igualdade de condições, reconhecimento e remuneração. A luta iniciada em Santo Domingo, em 1992, nos trouxe até aqui e permanece atual porque ainda há um longo caminho a percorrer.

“Trabalhar diariamente em um ambiente multicultural, ao lado de profissionais de diferentes nacionalidades e culturas, fortaleceu minha compreensão sobre os desafios globais e confirmou algo que considero inquestionável: organizações diversas tomam melhores decisões, inovam mais e alcançam resultados mais consistentes”, ressalta Shirley Serafim.

Entre a representatividade e a verdadeira igualdade existe um caminho que exige compromisso coletivo, políticas consistentes e mudanças estruturais. Sigo por aqui porque acredito que nem uma mulher deve ficar de fora!

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