Conheça a trajetória de Kylian Mbappé, craque que une performance dentro de campo a posicionamentos raciais e políticos fora dele.
Kylian Mbappé concedeu, em maio deste ano, uma entrevista à revista Vanity Fair na qual resumiu a lógica que orienta seus posicionamentos públicos há mais de uma década. “Antes de tudo, você é um cidadão. Não estamos desconectados do mundo”, disse o atacante do Real Madrid, ao explicar por que não separa sua carreira esportiva das disputas políticas e sociais que atravessam o futebol francês. Na mesma conversa, tratou da ascensão da extrema direita no país com a mesma franqueza que costuma reservar para assuntos dentro de campo, classificando o cenário político francês como catastrófico. A frase não nasceu naquela entrevista. Ela resume um padrão de comportamento que remonta à infância do jogador e segue ativo em cada temporada, dos protestos contra patrocinadores de apostas às respostas diretas a episódios de racismo dentro e fora de campo.
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Nascido em Bondy, periferia de Paris, filho de um técnico de futebol camaronês com uma ex-jogadora de handebol de origem argelina, Mbappé cresceu num bairro que descreveu, anos depois, em um artigo de próprio punho publicado no Player’s Tribune. “Nosso bairro é um caldeirão incrível de culturas diferentes, francesa, africana, asiática, árabe”, escreveu, ao rebater a forma como a periferia parisiense costuma ser retratada pela imprensa, associada quase sempre à criminalidade e nunca à diversidade que, segundo ele, moldou seu próprio caráter. Ainda aos 12 anos, em uma entrevista concedida em 2011, o garoto que sonhava em jogar pela seleção principal já enunciava a leitura que faria da própria trajetória: “na história, os melhores jogadores foram negros e árabes, além de Platini e Cantona”. A frase, resgatada nos últimos anos e amplamente compartilhada nas redes sociais, antecipa em mais de uma década o debate que o próprio Mbappé enfrentaria como titular da seleção, quando sua nacionalidade francesa passou a ser publicamente questionada por setores da extrema direita europeia, entre eles a própria Marine Le Pen.
O primeiro momento de exposição pública mais dura veio ainda jovem, na Eurocopa de 2020, quando Mbappé desperdiçou um pênalti decisivo diante da Suíça, nas oitavas de final, e se tornou alvo de uma onda de ataques racistas nas redes sociais. Chegou a cogitar deixar a seleção francesa naquele período, decisão da qual recuou pelo apego que sente à camisa do país, mas o episódio marcou o início de uma relação mais desconfiada entre o jogador e parte da torcida que o acompanha.
A partir de 2022, a resistência do atacante passou a ganhar contornos mais organizados e coletivos. Às vésperas da Copa do Catar, ele se recusou a participar de uma sessão de fotos promocionais da Federação Francesa de Futebol, recusa que envolvia diretamente patrocinadores ligados a redes de fast-food e casas de apostas esportivas, sob a justificativa de que certas marcas não deveriam estar associadas à imagem dos jogadores. O impasse resultou, em 2023, em um acordo coletivo entre elenco e federação para revisar os termos de uso de imagem, negociação que Mbappé liderou ao lado de companheiros de seleção. A pauta voltou à tona no fim de 2024, quando o atacante detalhou, em entrevista ao Canal+, a origem da sua resistência ao setor de apostas: “Alguns de nós vêm de bairros onde isso destrói inúmeras pessoas”, disse, relacionando a posição pessoal às experiências que presenciou na própria comunidade onde cresceu. Em junho de 2026, já durante a preparação para a Copa do Mundo, o atrito se repetiu quando a Federação Francesa reutilizou imagens de Mbappé e de outros jogadores em uma campanha publicitária de apostas sem autorização prévia, reacendendo a tensão entre o elenco e a entidade.
Em 2024, com a ascensão eleitoral da Reunião Nacional, partido de extrema direita liderado por Marine Le Pen, que chegou a despontar como favorito nas pesquisas antes de perder a maioria no segundo turno das eleições legislativas, Mbappé se posicionou publicamente contra o avanço do partido, pedindo que a população francesa votasse no lado correto da disputa. Le Pen respondeu dizendo que o jogador não representaria os franceses com histórico de imigração e que parte do eleitorado estaria cansada de ouvir sermões de milionários. A crítica não fez Mbappé recuar do posicionamento.
Em fevereiro deste ano, o atacante saiu publicamente em defesa do companheiro de time Vinicius Júnior, depois de o brasileiro denunciar ter sido chamado de macaco pelo menos cinco vezes pelo jogador do Benfica Gianluca Prestianni, durante partida de Champions League. Em entrevista à TNT Sports, Mbappé descreveu o que havia presenciado em campo com precisão: “no momento de tensão, o camisa 25 do Benfica usou palavras inaceitáveis”. Meses depois, em julho de 2026, já durante a Copa do Mundo, o próprio Mbappé foi alvo de ataques racistas feitos pela senadora paraguaia Celeste Amarilla, após a eliminação do Paraguai para a França no torneio, e respondeu classificando a parlamentar como “uma mulher desprezível e indigna do seu cargo”.
O conjunto desses episódios, que atravessa mais de uma década de carreira, do menino que aos 12 anos já refletia sobre raça e nacionalidade dentro do futebol francês ao homem que hoje enfrenta publicamente senadoras, federações e líderes de extrema direita, desenha o perfil de um atleta que raramente separa o desempenho em campo da forma como se posiciona fora dele. Enquanto boa parte dos grandes nomes do futebol evita comentar temas sensíveis por receio de desgaste comercial, Mbappé segue optando, repetidamente, pelo caminho contrário.
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