Por Dra. Júnia Mamedir, psicóloga (CRP 05/48655), psicoterapeuta, neurocientista das aprendizagens e pesquisadora da Epistemologia do Cuidado.
Quem cuida de quem lidera?
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Essa pergunta tem atravessado a minha prática clínica há alguns anos. Ela não surgiu de um livro nem de uma pesquisa acadêmica. Nasceu da escuta de homens e mulheres negras que ocupam posições de liderança e que, apesar de suas trajetórias de excelência, compartilham um sentimento comum: o cansaço de precisar provar, todos os dias, que são competentes para ocupar o lugar que conquistaram.
São profissionais que lideram equipes, coordenam projetos, ocupam cargos estratégicos e assumem grandes responsabilidades. Ainda assim, descrevem uma sensação persistente de precisar trabalhar mais, explicar mais, repetir mais e controlar as próprias emoções para que sua autoridade seja reconhecida.
Há formas de sofrimento que não aparecem nos indicadores de produtividade nem nas avaliações de desempenho. Elas se revelam no esforço constante para reafirmar a própria competência, justificar decisões, administrar o impacto de estereótipos e sustentar uma vigilância permanente sobre si.
Ao longo das últimas décadas, intelectuais negras têm mostrado que o racismo produz efeitos que ultrapassam as desigualdades materiais. Lélia Gonzalez nos ensinou que a experiência da população negra precisa ser compreendida também em sua dimensão cultural e subjetiva. Sueli Carneiro evidencia que transformar a realidade exige rever estruturas de poder, e não apenas ampliar o acesso a elas. Já bell hooks nos lembra que raramente existem espaços onde possamos ser reconhecidos em nossa inteireza.
Talvez seja justamente esse o desafio vivido por muitas lideranças negras.
Nos últimos anos, avançamos nas discussões sobre representatividade e diversidade. Celebramos, com razão, cada espaço conquistado. Mas ainda falamos pouco sobre o que acontece depois da conquista.
Chegar não significa permanecer.
E permanecer não significa permanecer com saúde.
Na clínica, tenho observado que muitas lideranças negras vivem uma forma silenciosa de hipervigilância. Revisam inúmeras vezes cada decisão, medem cuidadosamente a forma de se comunicar, evitam demonstrar fragilidade e assumem responsabilidades extras para reduzir qualquer possibilidade de questionamento sobre sua competência.
Não é apenas a responsabilidade de liderar que produz desgaste. É o custo emocional de liderar em estruturas onde a autoridade negra ainda precisa ser constantemente legitimada.
Esse esforço contínuo produz exaustão, solidão e sofrimento psíquico. Quanto maior a responsabilidade, menor costuma ser o espaço para reconhecer a própria vulnerabilidade.
Foi diante dessas experiências que comecei a desenvolver uma proposta que venho chamando de Epistemologia do Cuidado. Trata-se de uma linha de reflexão em construção, fundamentada na prática clínica, na escuta ética e no diálogo com o pensamento negro. Sua premissa é simples e profunda: cuidar não é apenas intervir quando alguém adoece, mas criar condições para que as pessoas permaneçam saudáveis enquanto exercem suas responsabilidades.
Essa compreensão também dialoga com as reflexões de Beatriz Nascimento sobre pertencimento e memória coletiva. Ao longo da história afro-diaspórica, a oralidade, a convivência e a circularidade sempre foram formas de preservar saberes, fortalecer vínculos e sustentar a vida em comunidade.
Foi nesse encontro entre a Psicologia, a prática clínica e esses saberes que compreendi que a escuta poderia ultrapassar o modelo tradicional do atendimento individual.
Quando conduzida por profissionais qualificados, dentro de princípios éticos e técnicos, a roda deixa de ser apenas uma conversa coletiva. Ela se transforma em um dispositivo clínico de cuidado. A experiência compartilhada rompe o isolamento, amplia a capacidade de reflexão e transforma vivências individuais em aprendizagem coletiva.
É por isso que considero a circularidade um dos pilares da Epistemologia do Cuidado.
- A palavra circula.
- A escuta circula.
- O conhecimento circula.
E, junto com eles, circula também a possibilidade de reconstruir pertencimento, fortalecer a saúde mental e criar condições para que lideranças negras permaneçam em seus espaços de atuação sem adoecer pelo peso da solidão.
Cuidar da saúde mental das lideranças negras não significa oferecer privilégios. Significa reconhecer que organizações mais justas também precisam cuidar das pessoas que sustentam suas decisões, inspiram equipes e transformam instituições.
A diversidade não se consolida apenas quando pessoas negras chegam aos espaços de poder.
Ela se consolida quando essas pessoas podem permanecer nesses espaços com dignidade, saúde mental e redes de cuidado.
Talvez esse seja um dos próximos passos do debate sobre equidade no Brasil: compreender que a permanência também precisa ser uma política de cuidado.
Dica da autora
Se você ocupa uma posição de liderança, pergunte a si mesmo: quem cuida de quem cuida?
Busque ou ajude a construir espaços permanentes de escuta qualificada, reflexão e apoio entre pares. Rodas de conversa conduzidas por profissionais preparados, supervisões clínicas e práticas de cuidado coletivo não diminuem a autoridade de uma liderança. Ao contrário: fortalecem sua capacidade de tomar decisões, de construir relações saudáveis e de permanecer com equilíbrio diante das exigências do cotidiano.
Cuidar da saúde mental de quem lidera é uma escolha ética, estratégica e humana.
Sobre a autora
Dra. Júnia Mamedir é psicóloga (CRP 05/48655), psicoterapeuta, neurocientista das aprendizagens e pesquisadora da Epistemologia do Cuidado. É fundadora da Mamedir Humanize – Saúde Mental da Inovação e do Instituto Maternize Brasil, onde desenvolve práticas clínicas, comunitárias e organizacionais voltadas ao fortalecimento da saúde mental, da liderança e das redes de cuidado.
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