João Diamante fala sobre o Prêmio Black Chefs e gastronomia negra

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João Diamante fala sobre o Prêmio Black Chefs e gastronomia negra
Foto: divulgação

Consultor do prêmio no Rio, o chef conta como reconhecimento e visibilidade mudaram sua carreira e chama negócios de comida a se inscreverem até 15 de outubro.

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O chef João Diamante, consultor do Prêmio Black Chefs 2026 no Rio de Janeiro, defende que reconhecimento e visibilidade são decisivos para negócios de comida comandados por pessoas negras e convoca desde restaurantes de chef até barracas de feira a participarem da premiação, que recebe inscrições até esta quinta-feira (15). À frente da cozinha do Dois de Fevereiro, no Largo da Prainha, na Pequena África, e fundador do projeto social Diamantes na Cozinha, ele falou ao Mundo Negro sobre as oportunidades que moldaram sua carreira, o peso das redes sociais e a forma como parte da imprensa ainda avalia a gastronomia negra.

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Realizado pelo Guia Black Chefs, vertical de gastronomia do Mundo Negro, com patrocínio do iFood, o prêmio de voto popular reconhece negócios de comida e bebida em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. João divide a consultoria com Aline Chermoula, em São Paulo, e Solange Borges, em Salvador, e chega à função com uma trajetória construída a partir de oportunidades que ele soube transformar em carreira.

Lições da Marinha, do Fies e de Paris

Nascido na Bahia e criado na Nova Divineia, no Complexo do Andaraí, Zona Norte do Rio, João entrou na Marinha aos 17 anos e escolheu trabalhar na cozinha, onde passou a cuidar das refeições de um almirante que o incentivou a estudar gastronomia. Ele se formou com apoio do Fies entre os melhores da turma e ganhou uma bolsa para a escola de Alain Ducasse, em Paris, onde trabalhou no Le Jules Verne, na Torre Eiffel. Ao ser perguntado sobre o que cada uma dessas experiências ensinou e que deveria ser conhecido por quem está começando um negócio de comida, o chef voltou ao início do caminho.

“Cada etapa me deu uma lição diferente. A Marinha me deu disciplina, e cozinha sem rotina não se sustenta. Cozinhando para o almirante, aprendi a tratar cada cliente como o mais importante da casa e entendi o valor de ter alguém que aposta em você antes de você mesmo”, conta.

A faculdade e a temporada na França também deixaram recados para quem empreende, principalmente sobre o acesso a políticas públicas e o valor da cozinha brasileira. “O Fies me mostrou que política pública muda destinos. Quem está começando precisa conhecer os programas de crédito e capacitação que existem, porque eles são direito, não favor. Paris completou o ciclo. Na escola do Alain Ducasse e no Le Jules Verne vi o nível de excelência que o mundo cobra e voltei com uma certeza: a técnica francesa não vale mais que o nosso feijão. Ela só foi mais bem contada.”

O primeiro dia no Diamantes na Cozinha

Foi durante a temporada em Paris que João desenvolveu a ideia do Diamantes na Cozinha, criado em 2016 para oferecer cursos de cozinha, nutrição e hospitalidade a jovens de favelas e periferias. O projeto já atendeu mais de 3 mil pessoas e recebe estudantes que chegam de territórios como aquele em que o chef cresceu, onde começou a trabalhar aos 6 anos e perdeu mais de 50 amigos para a violência. Questionado sobre o que diz no primeiro dia a quem chega ao projeto vindo de uma realidade parecida com a dele, João conta que começa pela própria história.

“Eu começo dizendo que já estive exatamente onde eles estão. Cresci na Nova Divineia, comecei a trabalhar aos 6 anos e perdi mais de 50 amigos para a violência, então não falo de fora. Depois sou honesto: a cozinha vai exigir horário, compromisso e humildade para errar e recomeçar. Mas é um lugar onde o esforço vira prato, e o prato vira oportunidade. E termino com o que mais importa: o CEP não define o futuro de ninguém. Na favela sobra talento. O que faltou foi oportunidade, e ela começa naquele dia.”

O trabalho com esses jovens levou o projeto a um palco internacional em 2024, quando o Diamantes na Cozinha recebeu o Champions of Change, do The World’s 50 Best Restaurants, que reconhece iniciativas de impacto social na gastronomia. Ao falar sobre o que mudou depois do prêmio, João destaca o alcance que o projeto ganhou. “O Champions of Change, em 2024, colocou o Diamantes na Cozinha numa vitrine internacional. A essência do projeto continua a mesma, mas a conversa ganhou outra escala: vieram novos parceiros, chefs de fora querendo colaborar, empresas apostando na formação dos nossos jovens”, diz.

A experiência, segundo ele, mostra o peso que um reconhecimento tem para qualquer negócio de comida. “Um reconhecimento desse tamanho funciona como selo de confiança, e quem nunca ouviu falar de você passa a escutar. Ele não paga as contas sozinho, mas coloca você na mesa onde as decisões são tomadas.”

Visibilidade começa pelas redes

Se o prêmio internacional ampliou o alcance do projeto, as redes sociais já vinham abrindo caminho antes disso. Hoje muitos clientes e parcerias chegam pelo perfil de um negócio antes de alguém provar a comida, e João conta que foi assim com ele. “As redes abriram caminho para mim. Muita gente conheceu minha história antes de provar minha comida, e foi assim que chegaram parcerias e convites”, relata.

Perguntado sobre o que um pequeno negócio comandado por uma pessoa negra pode fazer para ser encontrado, o chef recomenda unir história e organização. “O melhor conselho é mostrar o rosto e o processo, contar de onde vem a receita, quem ensinou, de que bairro você é. Isso é o seu diferencial. Junto com isso vem o básico bem feito: perfil no Google atualizado, cardápio fácil de achar, mensagem respondida rápido e clientes incentivados a avaliar e marcar a casa. Estar perto de redes de afroempreendedores também ajuda a ser visto.”

Dendê e a régua de outra cozinha

Ser encontrado também depende de quem escolhe para onde olhar. Questionado se os guias de gastronomia valorizam os negócios de pessoas negras, João responde que o cenário avança, mas em ritmo lento. “Ainda não, pelo menos não como deveriam. Os guias olharam por muito tempo para um único tipo de restaurante, com referência quase sempre europeia, e os negócios negros, principalmente os de rua e de bairro, ficaram fora do radar. Tem melhorado, mas devagar.”

A conversa chegou ao caso de um grande jornal que, recentemente, afirmou que um restaurante de comida afro usava dendê demais, e o chef rebateu com uma comparação direta. “Reclamar que comida afro tem dendê demais é como reclamar do azeite na cozinha italiana. O dendê é identidade, ancestralidade e técnica que atravessou o Atlântico. Uma crítica assim mostra que parte da imprensa ainda mede a nossa comida com a régua de outra cozinha. Para mudar isso, as redações precisam de mais jornalistas e críticos negros e precisam vir aos nossos territórios com curiosidade, não com julgamento.”

Prêmio quer chegar à quentinha do bairro

É justamente para ampliar esse olhar que o Prêmio Black Chefs reúne sete categorias, Comida afro, Almoço de todo dia, Comida de rua, Mesa de bar, Ocasião especial, Doce e Lanche, e passou a aceitar também delivery, feira, evento e bufê. Como consultor no Rio, João foi perguntado sobre os negócios que gostaria de ver inscritos nesta edição.

“Quero ver todo mundo: o restaurante de chef, mas também a tia do angu, o lanche da esquina, a barraca da feira, a quentinha que alimenta o bairro. É nesses lugares que a nossa gastronomia vive no dia a dia, e muitas vezes é ali que está a comida mais honesta da cidade”, afirma. Para quem ainda não inscreveu a própria casa, o recado é direto. “Não espere ficar pronto, porque ninguém fica. Se você alimenta pessoas com respeito e qualidade, o seu lugar é ali. Se a gente não se coloca, outras pessoas continuam decidindo por nós o que é bom.”

Depois das inscrições, o público escolhe os finalistas e os vencedores em duas fases de votação, e cada voto só é contabilizado após confirmação por e-mail. Os vencedores recebem a placa Black Chefs 2026 no próprio estabelecimento, além de reportagem e vídeo para divulgar o negócio.

SERVIÇO

Prêmio Black Chefs 2026
Inscrições: até 15 de outubro, pelo site do Guia Black Chefs
Fase I de votação: de 21 de outubro a 6 de novembro
Fase II de votação, entre os finalistas: de 9 a 22 de novembro
Premiação: 25 de novembro
Inscrição e voto: gratuitos (clique aqui)

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