Irmãs pretas Sexagenárias desmontam estereótipos ao falarem sobre quadrinhos, filmes e séries sob uma perspectiva pouco vista

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Foto: Divulgação/Canal Dona Geêk

A produção de conteúdo voltada para o público nerd/Geek é composta em sua maioria por homens brancos, entre 20 e 40 anos mas as irmãs Genilda Maria Gama e Genilza Maria Gama, ou as duas Gês, como também gostam de ser chamadas, tem passado por cima de todos esses paradigmas de uma vez só.

Genilda (65 anos) e Genilza (62 anos) são duas mulheres pretas, sexagenárias, apresentadoras do canal sobre cultura pop ‘Dona Gêek’. Um espaço onde elas opinam e indicam séries, animações, quadrinhos e filmes.

A professora Janaína Monteiro, filha de Genilda , queria produzir um documentário para falar sobre a mãe. “Eu tenho muita admiração pela minha mãe e queria fazer um documentário sobre ela”, declarou. Janaína não queria mostrar a mãe ao mundo explorando o estereótipo de mulher preta sofrendo com o racismo. “Pra mim minha mãe é essa mulher preta da periferia, mas eu queria contar esse lado nerd da minha mãe. Sempre admirei essa coisa da minha mãe ler os livros, assistir os filmes, lembro dela lendo muito mesmo as condições sendo precárias”, explicou a filha orgulhosa.

Durante as conversas para o documentário, onde papo sobre nerdices aconteciam, surgiu a ideia de criar um canal no YouTube com as senhoras nerds capitaneando as pautas.

Em 2019 gravaram o primeiro piloto do canal com as “duas Gês” apresentando e falando sobre suas impressões a respeito de cultura pop e o canal permanece prolífico até hoje.

As apresentadoras esbanjam simpatia e perspicácia nas observações que fazem no canal, com uma energia sempre bem-vinda a canais do gênero. Em um dos vídeos deixam claro que se divertem nas gravações: “Se virar trabalho a gente abandona”.

Se afastando ainda mais de qualquer estereótipo, Genilda e Genilza não fizeram do canal um espaço para simples nostalgia Geek, mas apontam defeitos e qualidades de aventuras recentes como “Avatar – A lenda de Korra” e o curta da Netflix sobre violência policial, “Dois Estranhos”.

Ambas as irmãs compartilham o gosto por séries policiais como “Lei e Ordem” e ““Criminal Mind”.

 O Batman também é o gosto em comum entre Genilda e Genilza, sendo o personagem da DC Comics figurinha carimbada nos vídeos do Dona Gêek. “Eu troco um filme por uma boa animação”, diz Genilda.As duas nerds de carteirinha é que decidem quais serão os temas abordados no vídeo, ficando a cargo de Janaína e seu marido, Guilherme, apenas a parte técnica, como gravação e edição.

O gosto por leitura de ambas iniciou com os quadrinhos da Disney, passando pelos livros da série Bianca e Sabrina até chegarem ao Superman e posteriormente o Batman.

Genilza, a irmã mais nova acompanha vídeos de artesanato, que também é sua paixão, enquanto Genilda não segue com fidelidade nenhum Youtuber. “Como sou artesã, ponto, bordo, eu acompanho Youtubers de diferentes segmentos. Na maioria das vezes estou vendo aula de pintura ou uma série coreana”, diz a Gê mais velha.

 A troca de figurinha é constante, com as informações sobre séries sendo repassadas entre os membros da equipe do canal, composto também pelo genro de Genilda, o produtor musical Guilherme Lopes.

Atualmente, acompanhando a série do Arqueiro Verde, “Arrow”, um parceiro do Batman nos quadrinhos. Sobre futuras produções  Genilda diz estar ansiosa para ver Robert Pattinson encarnando a nova versão do Batman, enquanto faz crítica à versão dos anos 90 com Val Kimer.

A maior diferença entre as duas Gês é a aptidão para trabalhos manuais de Genilza e seu gosto por sair, mas tem cumprido o isolamento á risca.

Quando questionadas como elas se enxergavam em uma plataforma tão dominada por determinados perfis, não faltou lucidez na análise: “A gente fugiu do estereótipo de que mulheres acima de 60 anos só servem para fazer tricô, crochê e cuidar de netos”, declara Genilza com firmeza.

As donas do canal Dona Geek têm energia e simpatia e soam mais espontâneas e joviais que muito influenciador de longa data. São articuladas e entendem que podem estar sendo exemplo para alguém que venha a se identificar com essa necessidade de compartilhar conhecimento.

“Eu falo todos os dias: o que está envelhecendo é o meu corpo. Minha mente continua aqui, muito bem, obrigado e saudável”, dispara a Genilda com sorriso na voz

Após a entrevista elas convidam para um bolo após a pandemia e a garantia de que muita indicação de filme pode rolar, principalmente os lançamentos recentes, já que rapidez nas tendências parece ser a regra com as Donas Gês que fecham deixando um recado importante a quem se preocupa com rótulos. “Acho legal a gente ter começado isso na cozinha da casa da minha irmã e tem sido uma coisa bacana para as pessoas perceberem que idade não impede a gente de fazer nada”, reflete Genilza.

O canal Dona Gêek é um respiro no meio a tantas histórias de tragédia que abatem mulheres negras. Se sabe que esse recorte da população brasileira precisa enfrentar dezenas de barreiras físicas e simbólicas, mas a própria presença de duas idosas negras cavando espaço num nicho dominado pela branquitude é luta, sem se deixar cair na obrigatoriedade de trajetórias trágicas. 

“Eu não vejo ninguém na nossa faixa de idade falando sobre esse assunto. Se formos as primeiras vamos abrir caminho para outras senhoras. Não só falar de tricô e crochê porque ninguém merece.”

Que mais Genildas e Genilzas surjam por aí indo além do crochê.

Link do canal: Dona Geek

Perfil do Instagram @canaldonageekoficial

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