Por: Letícia Sotero
Minha família sempre foi grande e apaixonada por celebrações, tenho lembranças de estarmos sempre reunidos, comemorando alguma coisa, muitas vezes, nem existia uma data especial, eram os momentos mais ordinários que acabavam se transformando em memórias extraordinárias. Aos domingos, ir para a Penha na casa do vovô, era compromisso. Era o dia em que a família se reunia, para almoços fartos que começavam às 11h da manhã e ia além do horário do Faustão.
Os cinco filhos chegavam com suas esposas e maridos, os onze netos apareciam junto com seus namorados e namoradas, e a casa enchia. Sobrava espaço também para agregados e tudo virava uma grande festa, a nossa família se tornava ainda maior.
A cozinha lotava, a sala lotava, o quintal ficava tomado de gente conversando, rindo, comendo e contando histórias. Os aniversários nunca eram apenas “um bolinho”, a casa se transformava em um evento.
Além da casa do meu avô, as casas dos meus tios e tias também foram palco de inúmeros encontros: finais de ano, chás de bebê, almoços especiais de sábado e comemorações improvisadas que acabavam virando tradição familiar. O fim do ano era o meu momento favorito, não apenas pelos presentes que esperávamos do Papai Noel, mas porque significava, dormir tarde, encontrar e reunir toda a família, além de comer as melhores receitas preparadas pelas minhas tias, que sempre tiveram um tempero irresistível.
Quase todos esses momentos foram registrados e guardados como memórias. Talvez por isso eu goste tanto de fotografia.
A fotografia sempre esteve presente na história da minha família, e não apenas na minha geração, temos registros fotográficos que atravessam décadas: fotografias dos anos 1960, 1950 e até mesmo da década de 1940. Existem imagens das férias dos meus tios em Ribeirão Preto, da juventude dos meus avós em Minas, dos casamentos da família, da minha mãe ainda criança…
Para uma família negra, isso tem um significado ainda maior. Sabemos que, durante boa parte do século passado, fotografar era caro, possuir uma câmera era um privilégio distante da realidade de muitas famílias brasileiras, e por isso, cada uma dessas imagens se transformou em um documento precioso da história da nossa família. Algumas fotos resistiram muito bem ao tempo, outras nem tanto.
Existem fotografias que perderam cor, contraste e definição, algumas estão manchadas e outras já apresentam sinais claros do desgaste causado pelo tempo, mas, mesmo quando a qualidade da imagem desaparece, a memória continua ali, talvez seja por isso que, sempre que podemos voltamos naqueles álbuns antigos mantidos por minha tia e observamos foto a foto com cuidado, quase como quem tenta atravessar o tempo e retornar àquele instante congelado.
Recentemente, minha mãe decidiu recuperar uma fotografia antiga da minha avó, era uma imagem já bastante desgastada. O rosto estava pouco nítido e vários detalhes haviam se perdido com o passar das décadas, mas na tentativa de restaurar essa fotografia, minha mãe, aos 64 anos, decidiu experimentar uma ferramenta de inteligência artificial. O resultado foi muito além do que imaginávamos, a tecnologia conseguiu recuperar detalhes da imagem, reconstruir traços do rosto da minha avó e devolver nitidez a uma fotografia que já parecia quase indecifrável. Pela primeira vez, vi minha avó como nas memórias da minha mãe, e com uma qualidade próxima dos registros atuais. Foi emocionante, não apenas porque a fotografia estava mais bonita, foi emocionante porque, de alguma forma, parecia que uma parte da nossa história estava voltando para perto de nós, além da proximidade quase que real da imagem de como minha avó era, segundo minha mãe.
O uso da inteligência artificial ainda desperta muitas dúvidas, em alguns momentos é difícil distinguir o que é um registro fiel daquilo que foi reconstruído por algoritmos. Existem debates importantes sobre autenticidade, privacidade e sobre os limites éticos dessas ferramentas, mas existe também uma outra conversa que merece atenção: a possibilidade de usar a tecnologia para preservar memórias.
Ao longo dos últimos meses, começamos a restaurar fotografias antigas da nossa família, algumas foram recuperadas em cores, outras ganharam definição, rostos que estavam desaparecendo voltaram a ser reconhecidos, expressões, roupas e cenários reapareceram depois de décadas escondidos sob os efeitos do tempo. Ver uma fotografia em preto e branco ganhar cores não muda a história, mas aproxima aquela história do presente e permite que novas gerações se conectem de maneira diferente com pessoas que vieram antes delas, e talvez esse seja um dos usos mais bonitos da inteligência artificial.
Não para criar algo novo, mas para preservar aquilo que já existe.
Hoje, mais de 50 fotografias da nossa família já passaram por algum processo de restauração com o auxílio da inteligência artificial, mas ainda temos um longo caminho pela frente. São mais de 200 imagens guardadas em álbuns que atravessaram gerações, algumas delas estão sendo recuperadas pela primeira vez, outras estão nos ajudando a redescobrir histórias que já estavam sendo esquecidas.
Existe algo particularmente bonito em acompanhar esse processo, ver minha mãe, uma mulher de 64 anos, explorando uma tecnologia que costuma ser associada aos mais jovens para proteger aquilo que ela tem de mais valioso, as memórias da nossa família.
Para mim ainda existem muitas perguntas sem resposta sobre inteligência artificial: Para onde vão essas imagens? Como garantir a segurança dos nossos dados? Como distinguir o que é um registro histórico do que foi reconstruído digitalmente? São questionamentos necessários, mas, enquanto essas respostas continuam sendo debatidas, uma certeza permanece dentro da minha família: nossas fotografias seguem vivas. E, graças à tecnologia, muitas delas terão a chance de atravessar mais algumas gerações.
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