Nesta segunda-feira, 4, estreia ‘Garota do Momento’, nova novela das seis, que traz a atriz Duda Santos como protagonista e tem direção de Jeferson De, cineasta reconhecido por trabalhos que foram sucesso de crítica no cinema brasileiro e internacional. A trama, escrita por Alessandra Poggi, traz discussões sobre identidade, rivalidades familiares e a luta contra o machismo e preconceito, em uma produção ambientada no final da década de 1950.
Duda Santos interpreta Beatriz, uma jovem que, após ser deixada com a avó Carmem (Solange Couto), decide viajar do interior do Rio de Janeiro para a capital em busca de sua mãe, Clarice (Carol Castro), que perdeu a memória após um acidente. Beatriz descobre que, na ausência dela, outra menina, Bia (Maisa), foi criada como sua “substituta” e ocupa o papel de filha em uma família rica e influente. Sob a direção de Jeferson De, que também dirigiu os filmes M8 – Quando a Morte Socorre a Vida e Doutor Gama, a novela aborda a vida da influente família Alencar, proprietária da Perfumaria Carioca, uma das principais indústrias de cosméticos do país à época.
A novela também é marcada pela presença de um elenco diverso, com atores como Tatiana Tiburcio e Cridemar Aquino, que interpretam o casal Vera Machado e Sebastião, donos do clube Gente Fina, ponto de encontro de jovens e artistas. Carla Cristina Cardosoe Rebeca Carvalho, serão mãe e filha na trama. E Ícaro Silva, que interpreta o jovem Ulisses, dono do Boliche Bowling Rock e que também dá aulas de capoeira e organiza eventos e aulas para a comunidade.
Arlinda Di Baio, Ana Flávia Cavalcanti, Mariah Penha e Mariana Sena também estão entre os talentos negros que integram o elenco. Com uma narrativa ambientada no auge da bossa nova, do rock e do samba, Garota do Momento explora um Brasil que passa por mudanças culturais e econômicas significativas, enquanto toca em questões sociais que ainda ressoam na contemporaneidade. Maristela Alencar (Lilia Cabral), matriarca do clã, manipula a história de seu filho Juliano (Fabio Assunção) e da própria nora para proteger o legado e a reputação dos Alencar.
A direção de Jeferson De marca um passo importante para a TV aberta, que vem apostando cada vez mais em produções com perspectivas diversas e personagens que refletem a pluralidade do Brasil. Com Garota do Momento, a TV Globo pretende unir o público em torno de uma história cativante e socialmente relevante, que celebra o poder dos sonhos, das lutas e das conquistas no Brasil dos anos 1950.
Nas eleições de 2024, o voto negro nos Estados Unidos se torna um tema decisivo, especialmente com Kamala Harris na disputa, potencialmente se tornando a primeira mulher negra a ocupar a presidência do país, caso a chapa democrata vença o ex-presidente Donald Trump. No entanto, o engajamento desse grupo enfrenta desafios, em grande parte impulsionados pela desinformação e percepções distorcidas sobre a economia e políticas passadas.
O voto negro tem sido um pilar nas eleições americanas, representando cerca de 14% do eleitorado registrado em 2020, segundo estimativas do Pew Research Center e do Census Bureau dos EUA. Durante um comício no Rancho Ochoa, no Arizona, voltado à comunidade latina e em apoio ao candidato democrata Ruben Gallego, a afro-americana Kasiyah Tatem, que trabalha em um programa de Jovens Lideranças em Washington, D.C., falou ao Mundo Negro sobre a mobilização do voto negro. Para Tatem, embora haja uma crescente adesão à candidatura democrata, muitos eleitores ainda se dividem por conta de informações equivocadas. “Há essa desinformação de que Trump proporcionou alguma vantagem econômica para eles durante sua presidência. Eles acreditam que os cheques de estímulo vieram dele, quando, na verdade, vieram dos democratas no Congresso tentando passar essa lei que os republicanos estavam bloqueando”, explica Tatem.
Essa percepção errônea sobre a economia é um dos fatores que, segundo ela, contribui para que alguns eleitores negros considerem o apoio a Trump. “Eles lembram que a economia estava ‘boa’ sob Trump, mas não reconhecem que essas políticas vieram de Obama, da administração anterior. Então, há muita desinformação sobre como o governo funciona e quem realmente está apoiando eles,” observa. Tatem também identifica uma divisão socioeconômica, onde parte da elite negra prioriza interesses individuais em vez de uma visão coletivista. “Há aqueles negros da elite socioeconômica, que são mais interessados em si mesmos do que em serem coletivistas,” afirma.
Além disso, Tatem ressalta o papel das celebridades e influenciadores na conscientização política da comunidade. “Acho importante que nossos artistas favoritos se posicionem e mostrem sua política para que mais pessoas que não prestam atenção fiquem cientes do que está acontecendo,” comenta. Para ela, figuras públicas como artistas e atletas ajudam a aproximar o processo político de um público que, de outra forma, poderia sentir-se alheio às decisões eleitorais.
Empolgação com Kamala Harris mobiliza o voto negro
Outro fator que tem impulsionado o engajamento dos eleitores negros é a candidatura de Kamala Harris. Jordyn Hodges-Wilson, moradora de Phoenix e voluntária na campanha de Kamala, acredita que a possibilidade de eleger a primeira mulher negra e asiática-americana à presidência tem motivado ainda mais a comunidade. “Acho que os eleitores negros estão particularmente engajados nesta eleição porque estão realmente empolgados com Kamala Harris,” afirma Hodges-Wilson. “Historicamente, fomos esquecidos nas urnas quando os candidatos não defendem nossos interesses, seja por meio de políticas que ajudem nossas comunidades ou pelo discurso em torno delas.”
Para Hodges-Wilson, essa eleição representa um momento histórico que pode influenciar futuras gerações. “Acho que eles estão realmente animados com a oportunidade de eleger não apenas a primeira mulher presidente, mas a primeira mulher negra e do Sudeste Asiático. Isso estabelece um padrão para gerações futuras,” enfatiza.
Desafios na disputa com Trump
Quando questionada sobre como abordar uma eleitora negra que cogita votar em Trump, Hodges-Wilson defende que é importante votar com consciência e evitar agir contra os próprios interesses. “Eu diria apenas para não votar contra o próprio interesse,” ela aconselha. “Trump demonstrou historicamente que ele não apenas não se importa com as mulheres, mas especialmente com as mulheres negras. Quando a escolha é entre ele e uma mulher de cor que tem sido uma defensora vitalícia de nossa comunidade, nossa saúde materna e justiça econômica, a escolha é muito clara.”
Ela acrescenta que muitos eleitores podem não compreender completamente o impacto de um voto em Trump. “Acho que, ao conversar com uma eleitora assim, trata-se de entender o que realmente está em jogo e talvez não perceber o que aconteceria se ela votasse em Trump,” conclui.
Esses fatores tornam o voto negro um elemento complexo nas eleições americanas de 2024. Em um cenário polarizado e marcado pela desinformação, a mobilização desse grupo pode ter um peso decisivo nos rumos do país, colocando em jogo questões de representação e influência política no contexto de uma eleição historicamente relevante.
Nossa editora-chefe Silvia Nascimento está nos Estados Unidos a convite do governo americano, por meio do consulado dos EUA em São Paulo, participando do “Reporting Tour” para acompanhar de perto as eleições americanas e suas implicações para a comunidade negra.
O produtor e arranjador Quincy Jones, figura central da música mundial, morreu neste domingo, 3, aos 91 anos em sua casa, em Los Angeles, nos EUA. Cercado pela família, o músico teve sua morte confirmada pelo assessor Arnold Robinson, que informou o falecimento do artista em comunicado à imprensa.
“Com corações cheios, mas partidos, devemos compartilhar a notícia do falecimento de nosso pai e irmão Quincy Jones”, disse a família. “Embora esta seja uma perda incrível para nós, celebramos a grande vida que ele viveu e sabemos que nunca haverá outro como ele.”
Ao longo de sete décadas de carreira, Jones colecionou uma série impressionante de prêmios e reconhecimentos: foram 28 Grammys, dois Oscars honorários e um Emmy. O músico foi responsável por revolucionar a produção musical ao trabalhar com artistas de diferentes estilos e épocas, sendo mais notório por sua colaboração com Michael Jackson. Ele produziu os três primeiros álbuns solo de grande sucesso do “Rei do Pop”: Off The Wall (1979), Thriller (1983) e Bad (1987), que marcaram a fase adulta de Jackson, após deixar o grupo Jackson Five.
Foto: getty
O álbum Thriller, considerado um marco na música pop, vendeu mais de 20 milhões de cópias apenas no ano de lançamento e é até hoje um dos discos mais vendidos da história. Foi de Quincy Jones a ideia de convidar o ator Vincent Price para a introdução da faixa-título, além de Eddie Van Halen para o solo de guitarra em Beat It. “Se um álbum não vai bem, todos dizem ‘foi culpa do produtor’. Então, se vai bem, deve ser sua ‘culpa’ também”, disse Jones em entrevista à Biblioteca do Congresso dos EUA em 2016, refletindo sobre o papel do produtor.
Jones também comandou o projeto We Are The World (1985), uma iniciativa que reuniu dezenas de artistas para arrecadar fundos contra a pobreza na África. A canção, composta por Lionel Richie e Michael Jackson, contou com nomes como Stevie Wonder, Bob Dylan e Bruce Springsteen, além do próprio Jones como produtor. “Ele era o mestre orquestrador”, declarou Richie sobre o impacto do músico na iniciativa.
Além de Jackson e Richie, Jones colaborou com artistas icônicos como Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e Ray Charles. Na televisão, seu talento se fez presente com a trilha de abertura da série Um Maluco no Pedaço.
Nascido em Chicago, Jones foi marcado desde cedo por desafios pessoais. Com a mãe internada por problemas psiquiátricos, ele encontrou na música uma forma de expressão e superação. “A música era o único mundo que me oferecia liberdade”, escreveu ele em sua autobiografia.
Quincy Jones deixa um legado indelével para a música, sendo reverenciado tanto por seu talento quanto por sua capacidade de inovar e guiar sucessos que transformaram o cenário musical global.
“O ensino da História do Brasil levará em conta a contribuição das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro” (Constituição Federal, art. 242, § 1º)
“O ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e europeia” (LDB, art. 26, § 4º)
Um recorte óbvio para o tema da prova do Enem poderia ser: um dos desafios passa por superar a indigência intelectual de especialistas diplomados pelo Google que pretendem reduzir a temática da diversidade e da igualdade racial na educação aos artigos 26-A e 79-B da LDB.
Muito antes de 2003, já na Constituinte de 1988 e na promulgação da LDB, em 1996, lá estava o Movimento Negro lutando pelo direito à memória, pelo direito à história.
O apagamento do protagonismo negro conta com a adesão sorridente do bloco de letradores raciais que não se dão ao trabalho de ler por inteiro a letra da LDB tampouco algumas poucas letras da Constituição da República.
Afirmar que caberia à educação escolar combater o racismo, ser oposição ao racismo, ser antirracista e outras beligerâncias significa empobrecer drasticamente o potencial transformador da escola: à educação formal compete preparar as pessoas para coexistirem harmoniosamente com a diversidade humana. É disso que se trata.
Espancar, esmurrar, marretar o racismo é papel da lei penal, que aliás ainda não fez a lição de casa.
Como diria Chico César, arguto pensador e cantador do Brasil, precisamos de mais ovo e menos galinhagem!!!!
Texto: Hédio Silva Jr., Advogado, Doutor em Direito, fundador do Jusracial e Coordenador do curso “Prática Jurídica em casos de Discriminação Racial e Religiosa”
O diretor e roteirista baiano Elísio Lopes Jr., conhecido por suas contribuições em obras que exploram a identidade brasileira e a ancestralidade negra, vive um momento de reconhecimento profissional. Com a recente estreia de “Torto Arado – o musical”, adaptação do premiado livro de Itamar Vieira Junior, Elísio continua a impactar o cenário cultural ao conduzir a celebração dos 50 anos do bloco afro Ilê Aiyê. Paralelamente, ele trabalha na sinopse de uma nova novela das 18h para a TV Globo, em parceria com os autores Duca Rachid e Júlio Fisher, após o sucesso das 18h, “Amor Perfeito”.
Em “Torto Arado – o musical”, Elísio traz à cena a história de Bibiana e Belonísia, duas irmãs marcadas por um acidente na infância e que enfrentam condições de trabalho análogas à escravidão no sertão baiano. A peça, que estreou em Salvador e teve sessões esgotadas, chega a São Paulo em 20 de novembro. Além do musical, Elísio também comandou o espetáculo comemorativo dos 50 anos do Ilê Aiyê, primeiro bloco afro do Brasil, que aconteceu no dia 1º de novembro na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador. “O Ilê me ensinou a me enxergar no mundo, a ver a força da representatividade. A beleza negra é essencial para a saúde mental da população preta brasileira”, afirmou.
Em entrevista ao Mundo Negro, Elísio destacou a importância de seu trabalho e os desafios enfrentados ao longo de sua carreira. “Eu tomei para mim a missão de avançar, abrir espaços que pareciam que não eram para pessoas como eu. Se o projeto é contar histórias, e entre elas, puder contar a história de quem se parece comigo, é preciso estar preparado para não achar os caminhos abertos”, afirmou. Ele reconheceu que, embora a consciência sobre a representatividade esteja crescendo, ainda há uma longa jornada pela frente. “Estamos no início desse novo processo. Não basta ter atores negros, o conteúdo precisa ser pensado por pessoas que conhecem a realidade de viver no Brasil”, acrescentou.
Confira a entrevista completa:
Mundo Negro – Você está vivendo uma fase de grande reconhecimento, com o sucesso de “Torto Arado – o musical”, o espetáculo dos 50 anos do Bloco Afro Ilê Aiyê e a série “Reencarne” que chega ao Globoplay em 2025. Como você enxerga essa fase e o que ela representa em sua trajetória?
Elísio Lopes Jr.: Eu tomei para mim a missão de avançar, abrir espaços que pareciam que não eram para pessoas como eu. Preto e nordestino, na fotografia que está na cabeça desse país, não tem uma caneta na mão. Tem a pá, tem a enxada, a vassoura, mas a caneta, no imaginário desse país, tem outro dono. Eu me lembro do primeiro festival de teatro que fui com um espetáculo escrito por mim. Foi nos anos 90, em Florianópolis. Eu fui barrado de subir ao palco para participar do debate do meu próprio texto, porque eu não tinha “cara de autor”. Mais de 20 anos depois vivi a mesma coisa já trabalhando na TV. Meus colegas não sabem o que isso significa. É preciso ter serenidade e seriedade nesse caminhar, ou é mais fácil desistir. Mas se o projeto é contar histórias, e entre elas, puder contar a história de quem se parece comigo, é preciso estar preparado para não achar os caminhos abertos. Comecei nos palcos, depois nos livros e na TV e por último no cinema. Todas essas linguagens são plataformas para que sejam contadas histórias que nos façam avançar. Quem ganha com chicotadas? Quem ganha com tiros que derrubam crianças pretas em close? Quem ganha com o reforço de estereótipos que nos vitimizam há décadas? Precisamos alimentar um novo imaginário, e eu estudei para isso, eu trabalho há mais de três décadas para isso, para contar histórias que tragam autoestima, orgulho e novas possibilidades para mim e para os meus.
MN – Seu trabalho tem impacto muito além do palco ou da tela. Como você vê a importância de ter profissionais negros não apenas atuando, mas também liderando e criando histórias nos bastidores da teledramaturgia?
Elísio Lopes Jr.: A consciência da nossa existência e relevância já existe. O problema é que da consciência até o ato de abrir mão dos privilégios existe uma distância enorme. Tenho recebido muitos convites para ser “consultor” ou para ser “parceiro” de autores que desejam contar histórias pretas, mas que não se sentem mais confortáveis de fazê-lo sem um autor preto por perto. Por um lado eu acho isso bom, é a consciência que começa a existir do quão absurdo é estarmos fora desses espaços. Mas de outro lado vem a pergunta: Você que é aliado, não acha que seria melhor passar essa caneta para mim? Aí vem a reserva de espaços, aí vem o “medo” de apostar no novo. Por isso seguimos repetindo fórmulas em nome de uma “segurança” que já faliu. E se não forem revistas essas apostas, afundaremos todos na falta de relevância. As pessoas não sabem o que desejam assistir, o papel do artista é surpreender. Mas todo mundo sabe o que não deseja mais assistir. Essa inteligência ninguém tira do povo. Muitas escolhas são erradas, mas o não é não. Não dá mais para enfiar na nossa garganta o sofrimento dos milionários da Vieira Souto, ou a briga infinita pela herança de papai. Não cola mais!
MN – “Reencarne” promete trazer um protagonismo preto para o Globoplay em 2025. O que o público pode esperar dessa série? Como essa produção contribui para uma nova narrativa dentro da teledramaturgia nacional?
Elísio Lopes Jr.: “Reencarne” é uma série de gênero. Chamamos de Terror Sertanejo. É um projeto escrito por três autores pretos e duas autoras brancas: eu, Igor Verde, Juan Julian, com Amanda Jordão e Flavia Lacerda. É sobre a liberdade de criar e contar histórias que não sejam apenas sobre o nosso umbigo. Tem uma coisa de ficção espiritual que é maravilhoso poder exercitar, nos ver em papéis diferentes, debatendo a matéria, a existência para além da vida. “Reencarne” entra nessa caminhada como parte do exercício de poder contar histórias realmente diversas. Sem deixar de ser honesto, brasileiro e consciente do que precisamos debater.
MN – Como pai de três filhas e profissional que busca deixar um legado positivo, o que você gostaria de ver mudando no cenário cultural e artístico para as próximas gerações?
Elísio Lopes Jr.: Eu estava conversando essa semana com a diretoria do Bloco Ilê Aiyê, aqueles que há 50 anos criaram o primeiro bloco só de pretos no carnaval de Salvador. Eles saíram às ruas em 1975, pós-ditadura, vigiados, discriminados, mas saíram. A imprensa da época disse que o Ilê era um “bloco racista”. E durante o primeiro desfile, diante do olhar da elite branca baiana, totalmente espantada, eles cantaram: “Branco, se você soubesse o poder que o preto tem.” Nessa conversa com os mais velhos do Ilê, Vovô do Ilê me disse uma coisa muito bonita: “Elisio, nós tivemos coragem de fazer! Agora é com vocês.” Eu sinto essa mão, esse bastão de responsabilidade. Meu papel é mostrar que é possível ampliar a nossa presença, é caminhar em direção a uma sala onde sejamos muitos na mesa e as escolhas passem por nós. Se no final, eu olhar para o lado e enxergar outros como eu sentados à mesa de decisão, eu terei feito a minha parte.
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2024 trouxe como tema de redação os “Desafios para a valorização da herança africana no Brasil”. A informação foi divulgada neste domingo, 3, pelo ministro da Educação, Camilo Santana, em uma publicação nas redes sociais: “Na redação do Enem 2024, milhões de estudantes vão escrever sobre o tema: ‘Desafios para a valorização da herança africana no Brasil'”.
Na prova, os candidatos devem elaborar um texto dissertativo-argumentativo, que também deve apresentar uma proposta de intervenção. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo exame, reforçou que a redação deve seguir a norma culta da língua portuguesa e será avaliada com base na Matriz de Referência do Enem, com notas variando de 0 a 1000 pontos.
Este tema chega em um ano simbólico, marcado pela oficialização do Dia da Consciência Negra como feriado nacional, em 20 de novembro. A medida foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a promulgação da Lei 14.759/2023, que destaca a importância do reconhecimento e da valorização da cultura e das contribuições dos afrodescendentes para a formação do Brasil.
A escolha do tema também ocorre em um contexto de crescente debate sobre questões raciais e culturais no país. Em 2023, o tema da redação do Enem abordou os “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”, sinalizando uma linha de abordagem social e histórica para os temas do exame.
A expectativa é que os participantes reflitam sobre a presença e a influência da cultura africana no Brasil, um dos pilares da formação social, econômica e cultural do país. A questão de como resgatar e valorizar essa herança continua a ser um desafio, que exige políticas públicas e engajamento social em um cenário de permanentes tensões e desigualdades raciais.
“Eu acho que o espectador pensar que rua e criança não é algo que combina, e que a gente precisa rever isso. A gente teve aí um período longo, entre 2005 e 2010, que a gente tinha reduzido absurdamente o número de crianças na rua. E a gente observa que principalmente esse período pós-pandemia, isso aumentou absurdamente. A volta de utilização da cola, o crack, e isso é muito, muito ruim. Se você tem umas gerações que não têm condições de ter acesso à saúde, educação, saneamento, a uma cama, um ar, a afeto, a gente compromete o nosso futuro enquanto nação”, essa é a mensagem principal que Luís Lomenha, diretor da série “Os Quatro da Candelária” quer passar para os expectadores ao contar as histórias de quatro crianças e adolescentes vítimas da chacina que aconteceu em julho de 1993.
Tendo como referência o crime brutal que aconteceu há 30 anos e deixou 8 mortos, seis deles menores de idade e mais dois jovens, que todas as noites dormiam juntos a outras dezenas de crianças nas escadas da igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, e que foram violentamente assassinadas por 3 policiais e um ex-PM, a série de ficção acompanha a história dos personagens Douglas (Samuel Silva), Sete (Patrick Congo), Jesus (Andrei Marques) e Pipoca (Wendy Queiroz), mostrando a rotina dos quatro amigos até o momento da chacina.
Para o diretor, contar a história sob o ponto de vista dessas crianças, mostrar seus desejos e suas necessidades, para além do crime que as vitimou ou que traumatizou outros tantos sobreviventes é “devolver essas crianças à infância, ressignificar essas histórias, devolver a humanidade para elas”, afirmou. “Tem uma frase de um samba da Porto da Pedra, “Eu venho do Carnaval”, que diz ‘liberto permanece o pensamento, ele foi o meu alento quando o corpo foi prisão’. É um samba sobre Nelson Mandela. Então, começar a construir essas narrativas pelo sonho foi um dos objetivos para a gente poder devolver essa humanidade e infância para essas crianças. Sonho é algo que é inerente, eu acho que é todo ser humano, e essas crianças também sonhavam, mas até o sonho delas foi interrompido. Foi isso que a gente tentou fazer”, destacou Lomenha em entrevista para o site Mundo Negro.
Para dar ainda mais veracidade à história, os diretores contaram com o apoio de sobreviventes da chacina, como a articuladora social Erica Madrinha e José Luiz, conhecido como Snoop. Ele acompanhou as gravações, auxiliando os atores nas performances em cena, contou o diretor Luís Lomenha: “Eles partilharam com a gente como era a vida, de fato, em frente à Candelária. Tinham mais de 70 crianças, cada um tinha uma idade diferente, então eles contaram a partir do ponto de vista deles o que eles viveram e essas histórias misturadas com outras histórias deram origem aos quatro personagens. A gente sempre que precisou foi muito mais que a ficção, mas tudo aquilo ali estava muito no universo de sonho e de desejo deles, como o chocolate, como a ideia do trem, enfim, a noção de família, muito diferente da noção de família que a gente entende, as condições que os levaram à rua, que é muito próxima um do outro, e é muito próxima de todas as crianças em situação de rua do Brasil. Tentamos dialogar com todas essas questões e criar uma história que, de fato tivesse uma potência, que ela não operasse no universo da carência, mas sim na potência”.
Marcia Faria, que dirige a série ao lado de Luís Lomenha destacou que a história dessas crianças ainda precisa ser contada: “Quando o Luiz me convidou para dirigir, eu li os roteiros, eu entendi imediatamente que eu precisava fazer parte dessa série, que essa história precisava ser contada”, destacou Faria. “A série fala sobre isso, sobre o ponto de vista, isso foi fundamental, de a gente trazer humanidade, de a gente tirar da estatística, de a gente falar sobre os desejos, falar sobre os sonhos dessas crianças que tiveram sua vida brutalmente interrompida ali”, ressaltou.
Três policiais e um ex-PM foram acusados pelo crime que matou oito crianças e adolescentes. Dois dos policiais acusados e o ex-policial foram condenados a prisão com penas que somadas superam 200 anos de prisão. Apesar disso, a pena foi extinta e os acusados encontram-se em liberdade. Informações do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJSP), afirmam que o PM Nelson Oliveira dos Santos ficou preso até a extinção da pena, em 2008. Enquanto o PM Marco Aurélio Dias de Alcântara e o ex-PM Marcus Vinícius Emmanuel Borges receberam indultos e foram liberados em 2011 e 2012. Maurício da Conceição Filho morreu em 1994, antes de ir à julgamento.
Durante a entrevista, Lomenha pontuou a necessidade de olhar para as crianças e para as violências que elas ainda sofrem, sobretudo aquelas que vivem nas ruas. O diretor afirmou ainda que a escolha de usar o lúdico e a fantasia para falar sobre essas crianças e jovens também foi uma forma de acessar mais pessoas: “Acho que a série passa essa mensagem num trânsito do realismo com a fantasia, com a ação, com a aventura, com uma linguagem que não é uma linguagem militante, didática, que afasta um espectador que tenha um pensamento mais conservador. Acho que ainda o conservador vai olhar e vai entender a mensagem ali. Acho que não entende o desumano, mas o conservador vai conseguir compreender. Nosso objetivo é chegar ao maior número de pessoas possível, não é pregar para convertido. De fato, a série não acredito que vá contribuir para uma revolução social, mas se ela revolucionar o próprio audiovisual em termos de linguagem, acho que já fizemos grandes coisas”.
Dados do Panorama da Violência Letal e Sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, apresentados durante o Fórum Brasileiro de Segurança Pública deste ano mostram que jovens negros somam 83,6% das vítimas letais, sendo a maioria deles do sexo masculino. Cauê Martins, pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diz que “crianças de até 9 anos frequentemente sofrem violência dentro de suas casas, perpetrada por pessoas conhecidas, muitas vezes familiares. Quando analisamos, por outro lado, as mortes de crianças e adolescentes de 10 a 19 anos, o palco se desloca para a violência urbana, a arma de fogo passa a ser o principal instrumento utilizado nos crimes e o local das ocorrências de violência letal muda significativamente, saindo do ambiente doméstico em direção à via pública”.
Falar sobre o tema ainda é algo urgente e mais do que necessário, considerando a situação atual de violência a que estão submetidas as crianças e os adolescentes, em especial os negros, no Brasil. Pode ser doloroso acompanhar o sofrimento desses quatro personagens da ficção, mas é ainda mais intenso e avassalador pensar que as experiências de Douglas, Sete, Jesus e Pipoca são mais reais e estão mais próximas de nós do que podemos imaginar.
A atriz e influenciadora Gabriela Loran se prepara para reprisar seu papel como Giovana na terceira temporada de “Arcanjo Renegado”, que estreia em 14 de novembro no Globoplay. Na trama, produzida pelo AfroReggae Audiovisual, a personagem de Loran ocupa o cargo de chefe de gabinete da presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Maíra (interpretada por Cris Vianna), e deve protagonizar cenas de grande ação e tensão na nova fase da série.
Loran, que interpreta Giovana desde a primeira temporada, destaca a relação de proximidade que se formou nos bastidores. “Gravar ‘Arcanjo’ é sempre uma experiência incrível. Nós estamos nos tornando uma grande família. É maravilhoso construir essa história não só dentro da trama, mas fora dela também”, afirma a atriz, creditando o apoio do criador da série, José Júnior, e do produtor de elenco, Raoni Seixas. O sucesso da personagem na trama já garantiu seu retorno na quarta temporada.
A atriz adiantou que o público pode esperar fortes emoções. “Minha personagem e a Maíra enfrentam obstáculos e barreiras imensas. Uma das cenas mais tensas da temporada é protagonizada por nós”, revela. A produção promete explorar as complexidades e desafios enfrentados por mulheres em posições de poder, destacando a presença inédita de uma personagem trans em um cargo político de destaque na dramaturgia brasileira.
Além de “Arcanjo Renegado”, Gabriela Loran também está em “Body by Beth”, no TNT e Max, e recentemente emprestou sua voz para a animação infantil “A Colmeia de Aziza”, dirigida por Rodrigo França.
O Novembro Negro, oficializado no calendário carioca em 2023, chega com uma programação intensa e diversa no Rio de Janeiro, celebrando a cultura afro-brasileira e promovendo a igualdade racial. Com atividades organizadas pela Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial (CPIR), vinculada à Casa Civil, e apoiadas por várias secretarias municipais, o mês inclui seminários, oficinas, feiras de empreendedorismo e rodas de samba, levando reflexão e conscientização a diferentes pontos da cidade.
Este ano, a programação foi inaugurada com o anúncio do Centro Cultural Rio-África, que será construído próximo ao Cais do Valongo, na região conhecida como Pequena África. Fruto de uma parceria entre a Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos (CCPar), o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RJ) e a CPIR, o centro será um espaço para valorizar a presença negra no Rio de Janeiro, evidenciando sua importância histórica e cultural.
No Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (Muhcab), a programação inclui aulas de dança afro-brasileira, oficinas de capoeira e feiras culturais que destacam o protagonismo negro na arte e cultura brasileiras. O espaço ainda contará com exposições e eventos que ressaltam a ancestralidade afrodescendente, proporcionando aos visitantes uma vivência completa da cultura negra no Rio de Janeiro.
A Cidade das Artes também faz parte das celebrações, com lançamentos de livros, espetáculos de dança afro contemporânea e corais em homenagem ao Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro. Inspiradas no conceito de Ubuntu, as apresentações oferecem uma experiência artística que reforça a importância da ancestralidade e da identidade afro-brasileira.
Além das atividades culturais, o Novembro Negro RIO aborda questões de conscientização, com cursos de letramento racial promovidos pela Fundação João Goulart, voltados para o combate ao racismo estrutural e para o desenvolvimento de práticas inclusivas nos serviços públicos. As atividades educativas destacam o compromisso da cidade com uma sociedade mais justa e antirracista.
Com quase 200 eventos programados, o Novembro Negro RIO convida a população a refletir e celebrar a cultura afro-brasileira em sua pluralidade, reforçando o valor das contribuições afrodescendentes para a identidade cultural carioca.
Programação Novembro Negro RIO – Principais Eventos
Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (Muhcab):
2/11, 10h – Oficina de Capoeira Abadá
10/11, 10h – Edição Zumbi – Roda de Samba Fruta do Pé
20/11, 10h – Roda de Samba com Feijoada da Dida
Cidade das Artes:
3/11, 16h – Lançamento do livro “Uma heroína chamada Firmina”
20/11, 17h – Show Golden Boys – O legado continua
23 e 24/11, 19h – Espetáculo “Semutsoc: Uma Jornada de Despertar”
Em uma Salvador do futuro, Kinho fica desapontado quando seu pai não pode levá-lo à praia. No entanto, no dia seguinte, seu pai aparece de forma inesperada. Embora Kinho perceba algo diferente em seu comportamento, ele aproveita o precioso tempo ao lado dessa figura paterna. Foi com este enredo que o filme “Meu Pai e a Praia”, da produtora Gran Maître Filmes, ganhou destaque internacional e foi selecionado para a 13ª edição do Africa International Film Festival (AFRIFF), que acontecerá em Lagos, na Nigéria, entre os dias 3 e 9 de novembro.
Escrito e dirigido por Marcos Alexandre, o curta-metragem de ficção científica foi financiado por meio do edital público Salvador Cine I, em 2023, e retrata a ausência paterna e explora temas de afeto, maternidade solo, tecnologia e a busca por laços familiares em meio à ausência. Com os protagonistas Kaio Ribeiro, que interpreta o menino Kinho; Aline Nepomuceno, mãe responsável por tentar preencher a lacuna paterna; e Heraldo de Deus como o pai, as cenas foram gravadas em julho do ano passado na Praia da Boa Viagem e em alguns locais da cidade de Salvador (Bahia).
“Estrear em um festival africano com um filme produzido na cidade mais negra fora da África, com um elenco e equipe técnica majoritariamente composta por pessoas negras, é de uma beleza ímpar. Este marco representa mais do que uma estreia: é uma reafirmação dos laços culturais e históricos entre Salvador e o continente africano”, comemora Marcos.
No dia 08 de novembro, a música original do filme será lançada no perfil do artista Carlos do Complexo, além de uma série de ações nas redes sociais da Gran Maître (@granmaitrefilmes). O curta deve ganhar as telas nacionais no primeiro semestre de 2025. “O festival abre um caminho diferenciado para o filme, especialmente por criar uma ponte entre as narrativas afro futuristas emergentes na Bahia e a rica produção cinematográfica africana. Essa conexão fortalece não apenas as histórias que contamos, mas também o impacto que queremos causar no mundo, projetando futuros possíveis para narrativas feitas em nossa cidade”, diz Gabriela Correia.
A Gran Maître Filmes é especializada no desenvolvimento de projetos artísticos para cinema, televisão e plataformas digitais. Seus diretores, Marcos Alexandre e Wesley Rosa, e as produtoras Susan Rodrigues e Gabriela Correia, buscam promover um espaço inclusivo e diverso para comunidades negras e grupos sub-representados nas telas.