Mundo Negro

Elisa Lucinda celebra 40 anos de carreira: “Somos os mais jovens velhos que a humanidade já teve”

Foto: Jonathan Estrella / Divulgação

Aos 40 anos de carreira, Elisa Lucinda retoma nos palcos o formato que a revelou nos anos 1980 e leva pelo Brasil o espetáculo “Ensaio para uma Ideia”

Elisa Lucinda estreou no Manouche, casa de shows da Zona Sul carioca, o espetáculo “Ensaio para uma Ideia”, construído sobre os mesmos pilares que definiram seu trabalho quando chegou de Vitória, no Espírito Santo, ao Rio de Janeiro, há exatamente quatro décadas: poesia declamada ao vivo, música instrumental, conversa direta com o público e improviso sem roteiro fechado. Após a primeira temporada na casa carioca, o espetáculo segue em turnê pelo Brasil, com passagens previstas por Vitória, Goiânia, Brasília, Salvador, São Paulo e Porto Alegre. A produção marca também os 40 anos de uma carreira que acumula 24 livros publicados, 27 produções teatrais, 26 trabalhos em televisão, 27 participações no cinema e cinco prêmios, entre eles o Kikito pelo conjunto da obra artística, concedido pelo Festival de Cinema de Gramado.

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No palco do Manouche, Elisa dividiu o espaço com o Duo Cafuzo, formado pelo saxofonista Glaucus Linx e pelo percussionista Sandro Lustosa, ambos com carreiras consolidadas nos cenários nacional e internacional. O espetáculo inclui uma caixinha de onde o público sorteia poemas, garantindo que cada apresentação tenha repertório parcialmente definido pela plateia, o que torna cada sessão única. A mesma dinâmica segue na turnê nacional, cujas datas serão anunciadas nos próximos meses.

Foto:  Dalton Valério/ Divulgação

A produção retoma um formato que Elisa praticou ao longo dos anos 1980 e 1990 nos bares do Rio ao lado de músicos como o percussionista Foguete Grande, Nestor Capoeira e Mestre Caboquinho, entre outros, num circuito de shows-poema que custava couvert baixo e reunia público escasso no começo, mas funcionou como base de tudo que construiu depois. Conversamos com Elisa Lucinda sobre os 40 anos que separam aquela jovem que chegou da capital capixaba da artista que hoje leva para o Brasil inteiro a mesma mistura de verso, voz e presença, sobre o papel das vozes negras na cultura brasileira e sobre o que a inteligência artificial jamais conseguirá fazer com um poema.

“A bola está nas mãos e nos pés sexagenários”

Elisa Lucinda chegou ao Rio de Janeiro no final dos anos 1980 carregando um repertório que havia desenvolvido em Vitória e que, segundo ela, ainda não sabia o efeito que causaria. “Eu exibia a arte da declamação que havia trazido da minha cidade e ainda não sabia, até chegar nos bares, que meu jeito de dizer poesia iria encantar os pensadores da cidade maravilhosa”, contou durante a entrevista. Essa abertura de caminho no circuito alternativo carioca produziu vínculos que marcariam toda a trajetória seguinte. Manoel Carlos, Beth Carvalho, Kizuca Iamasaqui, Antonio Pitanga, Martinho da Vila, Zezé Polessa e Zezé Mota são alguns dos nomes que ela associa àquele período de shows nos bares, numa rede de encontros que se formou antes de qualquer visibilidade maior.

Quatro décadas depois, a artista descreve a relação com o palco de forma distinta da que tinha nos anos 1980. Quando jovem, havia a necessidade de provar algo, de mostrar que aquele jeito de dizer poesia tinha sustentação. Agora, ela avalia que o risco continua presente, mas apoiado sobre outro chão: “Hoje, 40 anos depois, eu não tenho mais que provar nada e, como sou respeitada, é como se meu risco fosse mais seguro. Meus improvisos acontecem em cima de uma dama chamada experiência.” O ator e comediante Gregório Duvivier, que em seu espetáculo “O Céu da Língua” declara abertamente o amor pela palavra falada, disse a Elisa que ela foi para ele uma referência desse caminho, chamando-a de “princesa da palavra falada”.

Foto: Jonathan Estrella/ Divulgação

Elisa também faz questão de situar essa geração de artistas em que ela e os músicos do Duo Cafuzo se inserem. Glaucus Linx e Sandro Lustosa, assim como ela, pertencem à faixa dos 60 anos, e é sobre essa condição que ela fala com precisão: “Nós somos da turma dos 60 mais e também somos os mais jovens velhos que a humanidade já teve. Namoram, se divertem, viajam, malham, se medicam com canabidiol, dançam, e estão extremamente produtivos, alinhados na expertise que o tempo de trabalho trouxe.” O espetáculo também responde ao que ela identifica como carência da cidade. O Rio de Janeiro perdeu ao longo dos últimos anos boa parte das casas que comportavam aquele formato de palco pequeno, sem telão, com artista caminhando entre a plateia. “O Rio de Janeiro está carente de lugares charmosos como o Manouche e o Rival, e aquela apresentação nos bares não existe mais”, observou.

A temporada carioca produziu um episódio que ela citou como síntese do que espera da turnê: um pai que veio de Três Rios, interior do Rio, assistiu ao show com o filho de 16 anos e, ao final, o adolescente pediu ao pai que comprasse um saxofone para ele. O pai informou à artista que o filho nunca havia visto um saxofonista negro tocar antes.

Griô, necropolítica e o que a inteligência artificial não sabe fazer

A entrevista com Elisa Lucinda percorreu territórios que vão além do espetáculo no Manouche. A escritora, que ocupa na cultura brasileira um lugar específico como voz que atravessa décadas articulando raça, corpo e linguagem, falou sobre a função do griô na diáspora negra brasileira e sobre os limites da inteligência artificial generativa diante da poesia humana.

Sobre o papel de griô, Elisa o define a partir de um eixo político e estético ao mesmo tempo. Para ela, a griô é uma pensadora que usa a arte para traduzir um olhar sobre a realidade, capaz de nomear o que a sociedade prefere não ver. “Uma griô é uma pensadora e usa da arte para traduzir o seu olhar privilegiado. Seu papel principal é retratar a realidade, adversa e não adversa, e exibi-la à sociedade como contribuição reflexiva do que vivemos”, disse. Ela contextualiza esse papel dentro de uma história de apagamento sistemático: o Brasil, avalia, foi pouco narrado pelas vozes negras porque o povo negro gastou energia demais tentando sobreviver numa sociedade construída para não reconhecê-lo. “O Brasil foi pouco contado pelas vozes negras. Em geral, o povo negro gasta muita energia tentando sobreviver numa sociedade que foi educada a apagá-lo.”

Foto: Guga Melgar/ Divulgação

Quando a conversa chegou à inteligência artificial generativa, Elisa foi precisa na distinção que faz entre aquilo que a tecnologia replica e aquilo que a poesia humana pressupõe. Para ela, a poesia da IA é, no máximo, um arremedo distante de almas que um dia pensaram os dados que a máquina retém. O ponto central de sua argumentação está no erro: muitos poemas nascem do ilógico, do incompreensível, do que não segue caminho previsto. “O que ela não sabe é que muitos poemas nascem do erro, do ilógico e até da não compreensão. A máquina não conhece a glória do erro”, afirmou. A inexatidão do ser humano, para Elisa, não é defeito a ser corrigido pela tecnologia, mas condição da qual a poesia real se alimenta.

Televisão e os próximos destinos

Enquanto a turnê nacional do “Ensaio para uma Ideia” toma forma, Elisa Lucinda segue com presença constante na televisão. Atualmente integra o elenco de “Coração Acelerado” e, nos últimos anos, participou também de “Dona Beja” e “Vai na Fé”. A carreira na TV, que soma 26 produções, corre em paralelo com a produção literária e teatral que a sustenta desde os anos 1980, quando os shows nos bares cariocas ainda eram a única plataforma disponível.

A turnê nacional do espetáculo, com passagens previstas por Vitória, Goiânia, Brasília, Salvador, São Paulo e Porto Alegre, tem datas a serem confirmadas. Informações sobre agenda e novidades do espetáculo são publicadas nos perfis do Duo Cafuzo: Glaucus Linx (@glaucuslinx) e Sandro Lustosa (@sandrolustosa).

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