Por Rachel Maia
O Brasil está entre as dez maiores economias do mundo e representa 1,9% do PIB mundial (US$ 2,28 trilhões). É um país diverso que abriga pessoas de diferentes etnias, crenças e saberes. Talvez por isso também seja o país do empreendedorismo, da diversidade de negócios e da importação. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em 2025, as importações brasileiras somaram US$ 280,2 bilhões.
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Quem está participando da riqueza gerada por esse mercado?
Quando observamos a composição racial da população brasileira, que, de acordo com o Censo 2022, é majoritariamente formada por pessoas pretas e pardas — 55,5% da população, ou cerca de 112,7 milhões de pessoas —, estamos falando de uma parcela que representa uma parte relevante do mercado consumidor, da força de trabalho e do potencial empreendedor econômico e intelectual brasileiro. No entanto, nos deparamos com uma falta que, para nós, empresários negros, já está mais do que na hora de ser resolvida: as riquezas e o reconhecimento não condizem com os nossos feitos.
Nos últimos dez anos, o empreendedorismo negro avançou. Segundo levantamento do Sebrae, baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), existe uma base empresarial negra numerosa e em expansão. Em 2013, o número de pessoas pretas ou pardas à frente de negócios era de 12,8 milhões. Em 2023, esse número passou para 15,6 milhões, um crescimento de aproximadamente 22%.
O nosso desafio, portanto, está em transformar presença econômica em participação efetiva nos mercados de maior valor. E para isso, Alan Soares, fundador do Movimento Black Money, contribui para este artigo com o ímpeto de provocar um mercado que segue em movimentos circulares quando o assunto é o avanço dos negócios de pessoas negras.
Executivo de estratégia, inovação e tecnologia, Alan atua na formulação de modelos de soberania econômica, ecossistemas de negócios e alocação de capital produtivo para a redução de assimetrias de mercado.
“O Estado brasileiro movimenta anualmente cerca de R$ 900 bilhões em compras e contratações. É mais de 10% do PIB operando como uma engrenagem que drena recursos sem permitir que empresas negras acumulem estoque ou capital. A barreira não é a competência do empreendedor periférico, mas o atrito planejado da máquina: a recusa desproporcional de crédito para suportar o fluxo de caixa e editais burocráticos desenhados para proteger oligopólios históricos”, comenta o especialista.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2021, havia 13,2 milhões de microempreendedores individuais (MEIs) no país. O levantamento do Instituto, construído a partir de bases administrativas como CNPJ, SIMEI, RAIS e CEMPRE, permite uma visão mais detalhada do perfil desses empreendedores, inclusive por raça ou cor. Entre os MEIs com informação de raça ou cor, os brancos representavam 47,6%, enquanto os pardos correspondiam a 31% e os pretos, a 4,8%. Ou seja, mesmo em uma modalidade empresarial criada para facilitar a formalização de pequenos negócios, a distribuição racial não reproduz simplesmente a composição da população brasileira.
Há um aspecto fundamental para esse debate: empreender não significa necessariamente acumular capital. Essa é uma questão importante, porque existe uma distância entre ter um negócio e ter uma empresa capaz de disputar grandes contratos, fornecer para grandes corporações, acessar crédito, inovar, exportar e crescer.
O IBGE já avançou ao incorporar raça ou cor às estatísticas sobre microempreendedores individuais. Mas ainda existe uma lacuna entre saber quem empreende e saber quem captura as oportunidades econômicas geradas pelas grandes compras do país. Essa informação permitiria transformar uma discussão frequentemente tratada apenas como questão social em uma questão de estratégia econômica.
“O debate sobre compras públicas no Brasil ainda se apoia em uma ilusão reconfortante: a crença de que a inclusão econômica virá da benevolência moral do sistema. Não virá. Diante de uma estrutura de mercado indiferente, a dignidade não é concedida pelo discurso; ela é arrancada pela soberania material e pela posse dos meios de produção.”
Ampliar a base produtiva, estimular a formalização, criar empregos, aumentar a renda e distribuir de maneira mais ampla os efeitos multiplicadores do consumo e do investimento é um objetivo e, ao mesmo tempo, um desafio para os especialistas negros que têm em seus negócios soluções para essa transformação.
“Esperar conscientização espontânea é resignação estéril. Compras públicas inclusivas não exigem dinheiro novo nem caridade orçamentária: exigem redirecionar o fluxo já existente e usá-lo como alavanca de concorrência e desconcentração de riqueza. Quando 55,5% da população atua apenas como consumidora de riquezas que não controla nem retém, o país sabota seu próprio teto produtivo. O poder de compra do governo precisa deixar de ser um teatro de intenções e se tornar o que realmente pode ser: um ato deliberado de engenharia econômica para quebrar a inércia de um Brasil que deseja deixar de ser o país do Quase”, ressalta Alan.
Crédito, capacitação, inovação, digitalização, acesso a mercados, certificações, internacionalização e, sobretudo, transparência. Grandes empresas podem começar a medir a diversidade de suas cadeias de fornecedores. O poder público pode aperfeiçoar suas bases de dados. Instituições financeiras podem acompanhar a distribuição racial do crédito empresarial. E os sistemas de compras podem produzir indicadores capazes de mostrar quem está efetivamente participando das oportunidades econômicas.
Essa parcela majoritária da população brasileira, formada por pessoas pretas ou pardas, é, para além de consumidora, geradora de riquezas e saberes. Por isso, é preciso medir a presença dessas pessoas como proprietárias, fornecedoras, empregadoras e exportadoras. Isso significa não subdimensionar negócios por raça e, com isso, deixar uma parte importante da economia brasileira fora do radar.
Fazer com que os negócios de empresários negros que já existem entrem nas grandes cadeias de valor é um desafio que precisa avançar. E, como já disse Alan, isso não se dará de maneira espontânea.
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