É preciso se unir para evitar o colapso da educação no país

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Foto: Divulgação

Por Kelly Baptista, especialista em gestão de políticas públicas e coordenadora geral da Fundação 1Bi, apoiada pelo Grupo Movile

Passado mais de um ano de pandemia, a Educação continua em estado grave no Brasil. Para quem acompanha o setor, esse cenário não é novo – apesar de espantoso. Embora haja investimentos, os recursos não chegam a todos. A Educação formal, até então centrada na relação entre aluno e professor na sala de aula, precisou se adaptar e crianças e adolescentes de todas as regiões do país tiveram de seguir com os estudos de forma remota. Para muitos, a falta ou escassez de acesso à internet e de aparelhos, como smartphones e computadores, trouxe um desafio extra àqueles que já sofriam com um ensino precário.

Ainda assim, mesmo com dificuldades, foi registrado um crescimento na quantidade de domicílios com acesso à internet no país, principalmente na região Nordeste, de acordo com a PNAD Contínua TIC 2019, divulgada pelo IBGE, que estudou o acesso à Tecnologia da Informação e Comunicação.

Os dados da PNAD evidenciam que a desigualdade no acesso ao recurso afeta, de forma mais severa, as escolas públicas. De todos os estudantes sem internet no país, 95,9% estavam em escolas públicas em 2019, número que correspondia a cerca de 4,1 milhões de alunos. Com a pandemia e o aumento da pobreza, esperamos impactos ainda maiores nesse acesso, visto que muitas famílias sequer conseguem garantir a subsistência. Assim, as desigualdades se sobrepõem, aumentando o abismo entre crianças e jovens brasileiros na área da Educação.

Outro dado alarmante vem do relatório do Banco Mundial sobre a Educação. O documento aponta estimativas espantosas em relação ao impacto do fechamento das escolas na região da América Latina e do Caribe. Em média, estima-se que quase dois terços dos estudantes do Ensino Fundamental podem não ter a capacidade de ler ou compreender um texto para a sua idade. No caso do fechamento das escolas por 10 meses, a estimativa é da perda de 1,3 ano de escolaridade ajustada pela aprendizagem, segundo o mesmo relatório. Esse período terá grande impacto no futuro dos jovens, porque não será recuperado. E sem políticas públicas para todo o Brasil, a desigualdade aumentará.

Enquanto os estudantes que têm recursos financeiros e acesso à internet avançam nos estudos e conseguem manter uma rotina de aulas consistente, grande parte dos estudantes de escolas públicas sofre sem acesso à tecnologia e sem o direito de acompanhar as aulas. Mesmo na área urbana, como em Parelheiros, bairro em São Paulo, ainda há dificuldade no acesso à internet. As pessoas que fazem o uso dela precisam pagar caro para terem bons planos de internet wifi.

Mas, então, qual a saída para um cenário tão desolador? O que podemos fazer para que essas previsões não se concretizem? Como é sabido, a desigualdade educacional que o Brasil vive não é de agora; apenas se intensificou com a pandemia. Pensando nisso, iniciativas encabeçadas pela sociedade civil organizada passam a ter papel central para tirar a Educação desse papel de coadjuvante que até então foi relegada. E a tecnologia tem o potencial de compartilhar informação e promover uma educação inclusiva e de qualidade, se os investimentos corretos forem feitos. Sem o olhar focado e estratégico dos governos para a educação, ONGs e empresas buscam contribuir com a mudança desse cenário.

No entanto, com o agravamento da crise, as ONGs estão enfrentando um momento delicado. Muitas contam com poucos recursos e doações e estão deixando de lado alguns projetos para dar prioridade a alimentar a população que atendem e que passa fome. Infelizmente, resta pouco recurso para que as entidades desenvolvam iniciativas tão importantes em outros setores, como educação, cultura e esporte.

Tornam-se então ainda mais necessárias políticas públicas que levem mais antenas de internet para as periferias e regiões ainda marginalizadas dos rincões de nosso Brasil e investimentos para melhorar a qualidade do ensino público. Este será o início de uma história em que todos os jovens brasileiros terão oportunidades iguais para disputar vagas nas melhores universidades e concorrer em pé de igualdade às melhores oportunidades profissionais.

Não sabemos quando o isolamento social acabará e, mesmo em um cenário mais seguro à saúde das crianças, o ensino híbrido dá indícios de ser o modelo educacional para os próximos anos.

Precisamos do investimento privado e de parcerias com o governo para a retomada de uma educação continuada para os estudantes de escolas públicas em todo o Brasil. Sem isso, teremos uma geração perdida e repetiremos todo o ciclo de exclusão e miséria que já é repetido hoje. O mercado de trabalho tem dado cada vez mais atenção à diversidade e inclusão nas empresas, mas ainda enxerga pouco o início de carreira dessas pessoas, que está lá na educação de base desses jovens na periferia. É preciso se unir para evitar o colapso da Educação no país.

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