No episódio 744 do “Subway Takes”, o jornalista e escritor Touré relaciona a violência física contra crianças negras nos EUA à história da escravidão e propõe outra ideia de parentalidade: educar pela comunicação.
Bater em uma criança pode ser chamado de disciplina, mas o que essa prática ensina sobre a forma como uma sociedade entende autoridade, cuidado e infância?
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Essa é a provocação levantada pelo jornalista, escritor e crítico cultural norte-americano Touré em uma participação no “Subway Takes”, série apresentada pelo comediante Kareem Rahma em que convidados compartilham opiniões sobre diferentes assuntos. Touré é autor de livros como Who’s Afraid of Post-Blackness? e I Would Die 4 U: Why Prince Became an Icon, além de ter construído uma trajetória no jornalismo cultural e na televisão.
No episódio, Touré defende que crianças nunca deveriam ser espancadas nem submetidas a punições corporais. Para ele, educar não precisa envolver dor física e uma boa parentalidade exige comunicação.
A discussão ganha uma dimensão histórica quando o jornalista relaciona a prática da punição física à experiência dos afro-americanos durante e depois da escravidão nos Estados Unidos.
E o que isso tem a ver com as tradições africanas?
É nesse ponto que a fala de Touré estabelece uma conexão com a história africana.
O argumento apresentado por ele parte da ideia de que, em determinadas sociedades africanas anteriores à colonização europeia, crianças ocupavam uma posição de grande importância espiritual e comunitária. Em algumas tradições, crianças eram compreendidas como manifestações ou retornos de ancestrais.
Essa concepção aparece, por exemplo, em registros sobre os Kalenjin, no Quênia, entre os quais existia a crença de que crianças poderiam ser o retorno de ancestrais da linhagem. Estudos sobre tradições de ancestralidade em diferentes regiões africanas também registram concepções nas quais os ancestrais retornam ao mundo por meio das crianças.
O ponto central da discussão está menos em afirmar que “na África ninguém batia em crianças” e mais em questionar como a violência colonial e escravista modificou relações de autoridade e deixou heranças geracionais.
Uma outra ideia de parentalidade
É justamente nesse espaço que a fala de Touré ganha força: compreender a origem histórica de uma prática não significa aceitá-la como destino.
Se a violência foi utilizada durante séculos para produzir obediência, a construção de outras formas de autoridade também pode fazer parte da ruptura com essa herança.
“Good parenting requires communication” resume a proposta: crianças podem ser educadas por meio de conversa, limites, presença, responsabilidade e escuta, sem que a dor física seja utilizada como ferramenta de aprendizagem.
A discussão também desloca a pergunta. Em vez de “como fazer uma criança obedecer?”, a questão passa a ser como ensinar uma criança sem reproduzir sobre ela a violência que tantas gerações tiveram de suportar?
E, para famílias negras, essa reflexão pode ser também uma forma de olhar para a própria história sem naturalizar as violências que chegaram até o presente.
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