“O que sei fazer bem é ser professora”, diz Nilma Lino Gomes, primeira reitora negra de Universidade Federal no Brasil

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“O que sei fazer bem é ser professora”, diz Nilma Lino Gomes, primeira reitora negra de Universidade Federal no Brasil
Nilma Lino Gomes. Foto: Junior Panela.

Por Debora Simões

Nilma Lino Gomes tem uma trajetória pessoal, acadêmica e profissional inspiradora. Sua força e potência não se restringem a ela, são ventos fortes que a extrapolam. Uma força ancestral que atravessa tempos e gerações. A educação antirracista e luta social e política são fundamentais para a emancipação dos sujeitos e é nessa perspectiva que nossa entrevistada atua.

Ela é Professora Titular Emérita da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Teve uma formação de excelência dentro e fora do país. Estudou na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na Universidade de São Paulo (USP), na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e na Universidade de Coimbra, nas áreas de Educação, Sociologia e Antropologia.

Nilma desenvolveu pesquisas, publicou inúmeros artigos, organizou e escreveu livros sobre temas como relações étnico-raciais, formação de professores e diversidade étnico-racial, políticas educacionais, desigualdades sociais e raciais e movimentos sociais e educação, sempre com foco na atuação do movimento negro brasileiro.

Em 2013 ocupou o cargo de reitora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), tornando-se a primeira mulher negra nessa função.

Entre os anos de 2015 e 2016 foi Ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos do governo da Presidenta Dilma Rousseff. Além da forte e constante atuação nas Associações de Pós-Graduação no país.

Neste dia dos professores, Nilma Lino Gomes conversou exclusivamente com o Mundo Negro. Ela falou sobre sua trajetória, sua ancestralidade e os desafios contemporâneos da docência, a política atual, a educação e a integração entre o Brasil e os países africanos de língua portuguesa, entre outros assuntos. 

1- Como começou e qual é a importância da docência na sua vida?

Costumo dizer que o que sei fazer bem é ser professora. De fato, é o que sou. Esse é meu ofício desde que me formei no magistério em nível de 2º grau, como se falava no início dos anos 80. Mesmo tendo passado por cargos de gestão, ser professora engajada e antirracista é o que dá sentido à docência para mim.

A docência, para mim, é a minha escolha profissional, meu lugar de aprendizagem e a forma que encontro de lutar pela democracia, contra o racismo, pela justiça social e cognitiva.

Comecei trabalhando em creche comunitária, ou seja, na educação infantil, depois fiz concurso para a rede municipal de ensino de BH. Atuei até fazer o mestrado na Educação Básica, durante anos, até prestar concurso público para professora assistente na UFMG.

2- Qual é a importância da Lei 10.639/2003 no contexto político e social atual?

A Lei 10.639/03 é uma alteração da Lei 9394/96, a LDB. No atual contexto de ataques à democracia e às instituições democráticas a importância da Lei se destaca ainda mais. Ela vai na contramão das forças neoliberais, midiáticas, fundamentalistas, religiosas, reacionárias e racistas que se levantaram contra a democracia nesse momento político. A Lei 10.639/03 é um foco de resistência nesse momento em que a educação básica e o superior têm sido atacados pelo desgoverno federal e pelas forças reacionárias e negativistas. A Lei 10639/03, juntamente com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Religiões Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africanas, são eixos orientadores de uma educação democrática e antirracista.

3- Quais foram os maiores desafios enfrentados ao assumir a reitoria de uma universidade pública federal?

Os desafios foram: tornar o antirracismo uma dimensão estruturante das ações da reitoria; enfrentar o racismo institucional dissimulado; ampliar o intercâmbio internacional Sul-Sul com os países africanos de língua portuguesa; construir processos formativos internos junto com docentes, discentes e técnico-administrativos, para compreenderem a importância da UNILAB no contexto das Ações Afirmativas.

4- Como foi a experiência de gerir uma universidade que relacionava o Brasil e os países africanos de língua portuguesa?

Foi um desafio, uma honra e fruto de um trabalho coletivo e ancestral que se iniciou muito antes de mim.

A reitoria da UNILAB representou a possibilidade de construir ações, projetos, de ensino, pesquisa, extensão e intercâmbios internacionais na perspectiva Sul-Sul com os países africanos de língua portuguesa. Fui me reeducando cada vez mais a conhecer a África real e a importância do ensino superior para esses países. Pude também conhecer os dilemas desses países para a garantia dos direitos e, em especial, do direito à educação. Pude compreender que os pontos comuns que existem na nossa história ancestral com a África facilitam a construção de parcerias e trabalhos conjuntos. No caso da Educação Superior, para que ela se consolide, esses pontos comuns precisam se transformar em políticas internacionais eficazes para o Brasil e os países do continente africano. Caso contrário, ficarão somente no discurso.

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