“Começamos a falar mais alto quando temos o movimento ao nosso lado”, diz Vinicius Chagas

0
“Começamos a falar mais alto quando temos o movimento ao nosso lado”, diz Vinicius Chagas
Foto: Arquivo Pessoal.

Por Rodolfo Gomes

Vinicius Chagas, 38 anos, é natural de Porto Alegre. Nascido numa cidade de colonização europeia, de maioria branca, cresceu numa família de classe média. Seus pais, concursados de uma empresa estatal, sempre fizeram tudo dentro do possível para que ele tivesse uma vida com qualidade. Ele e sua irmã fizeram natação, curso de inglês, e eram sempre os únicos negros nesses espaços.

“Tinha eu e mais um menino negro, em todas as turmas da minha classe. E como em toda a sociedade cujo racismo é estrutural, as crianças testam os limites, e passamos por diversos episódios racistas na infância.”

Sempre foi bom aluno, aplicado e amante de exatas. Essas habilidades fizeram dele um aluno popular na época, uma vez que todos queriam fazer trabalhos em grupo com ele, devido a sua inteligência. Iniciou seus estudos universitários na UFRS, em engenharia, e após um semestre migrou para comunicação na PUC.

Ainda durante a faculdade começou a trabalhar como assistente administrativo na companhia pública de abastecimento, na parte de estatística. Gostava do que fazia, mas sempre foi estimulado por uma amiga próxima a ir além. Apesar de gostar, e de ter feito boas amizades naquele ambiente, aquela semente o levou a pedir demissão, pra trabalhar numa fábrica de fornos, também como assistente administrativo.

“As centrais de estágio diziam que a vaga era de assistente de marketing, mas na prática você fazia de tudo, até café.”

Vinicius entrou na publicidade pois gostava de fotografia, e logo migrou sua carreira, aceitando uma posição para trabalhar em uma grade agência, onde ficou até se formar, ocupando o cargo de diretor de arte. Em um certo momento, entendeu que não conseguiria mais crescer, e começou a flertar com as áreas de estratégia e comportamento. Estudando a respeito, conseguiu um emprego numa consultoria de pesquisa, e num cargo de fato estratégico, fazia a tabulação de dados e recomendação estratégica com base nos dados.

Com sua amiga Amanda, criou o “Looks Like Porto Alegre”, um site de street style. Tirando fotos das pessoas em festas, teve uma grande projeção, sendo convidado para realizar a cobertura de eventos importantes na cidade. Começou a fazer a festa do site, sempre na 2ª sexta-feira do mês, com foco no dress code de moda. Começou a ganhar dinheiro, e abandonou o emprego na consultoria, para focar em seu negócio, que estava dando muito certo. Levou a festa pra outras cidades, como Florianópolis e até Montevidéu, no Uruguai, que sempre contava com uma banda de Porto Alegre e outra local.

“Até que um dia, olhei pro que eu estava fazendo, mas queria voltar às origens, para aquilo que tinha me formado. Fui fazer um curso de comportamento do consumidor, para me atualizar, e uma das professoras do curso, que trabalhava numa grande agência de live marketing, me indicou para uma vaga.”

Vinicius aplicou e passou, assumindo uma posição de community manager e brand writer, cuidando de estratégia de postagens nas páginas de grandes marcas. Também era responsável por inovação e curadoria para pesquisas e conteúdo. Buscando se movimentar no mercado, após algum tempo foi pra uma outra grande agência, pra cuidar da parte de estratégia, indo trabalhar alocado em Brasília, pra cuidar de uma conta governamental. Nessa oportunidade chegou inclusive a apresentar seu trabalho para pessoas de grande escalão do governo. De lá, Vinicius foi convidado para ser coordenador de conteúdos em outra agência, construindo do zero audiências para grandes marcas.

“Para além dos posts legais, comecei a pensar mais estrategicamente em conteúdo.”

Mostrando seu valor, e construindo resultados concretos, Vinicius foi convidado para o outro lado da mesa, numa vaga em um cliente. Foi uma experiência bastante rica, que possibilitou outras oportunidades, até que Vinicius chegasse à cadeira de Head of Conversations Design, que ocupa hoje, em outra grande agência.

“Tive sorte de ter bons líderes no caminho. Nesse lugar, tendo acesso e oportunidades, meu papel é puxar outros pretos. As vivências é que dizem sobre as capacidades e potenciais das pessoas.”

Acredita que quando tem gente muita igual numa sala, pra falar sobre uma ideia, ela sai pasteurizada. E que rico é ter vários olhares diferentes, discordar, debater. Olhando o mercado, percebe o patente aumento no entendimento, nas mesas de estratégia, que a diversidade é uma pauta quente que não dá pra ignorar. As empresas precisam refletir sobre a sociedade que a gente vive. Não adianta encher a sala com pessoas iguais. É necessário fomentar desconfortos e a necessidade de discutir sobre isso.

“Tem vários tipos de clientes. Alguns ainda estão crus, e outros já estão fazendo diversas coisas. Como especialista e com a vivência que temos, puxamos conversamos e alicerçamos.”

Para Vinicius, mesmo na publicidade, a gente ainda engatinha pra equidade. Ainda que haja o movimento, isso passa por uma estruturação das empresas para receber, desenvolver, e ainda falta muito. A bolha tem falado muito sobre essa pauta, mas falta muito no dia a dia. Políticas públicas, inclusive. Vemos o racismo todos os dias nas ruas.

“A publicidade reflete a sociedade que vivemos, e inspira a sociedade que a gente quer.”

Com essa caneta na mão, Vinícius acredita que a nossa obrigação é usar um pouco da voz que temos, pra tentar rever esse quadro no Brasil. Diversidade não é casting. A gente precisa refletir o que a gente quer, e a real sociedade que a gente vive e quer daqui pra frente, em todo o trabalho. Colaboradores, fornecedores, atores.

“A publicidade tem o papel de inspirar, questionar padrões. A gente é criativo, tem licença poética pra fazer isso. E ficamos felizes em termos marcas parceiras que acreditam isso.”

Para Vinicius, suas referências pretas eram seus pais, seus avós e os artistas. Quando estava no colégio, sentia vergonha de falar que escutava samba, com medo de virar chacota. Em sua casa, sempre se ouviu Alcione, Emilio Santiago, Fundo de Quintal, que fizeram parte de sua cultura e letramento.

“Meus pais se sacrificaram por mim, para custear meus estudos. Lembro do olhar deles, na minha formatura. Chegar lá, com esse respaldo, não tem preço. Sempre fui um preto que viveu num mundo de brancos. Todos os meios que circulei. O entendimento sobre minha negritude sempre existiu. Sempre tive consciência da importância de trazer essas temáticas para todos os lugares.

Para Vinicius, é de extrema importância buscar aprender, não parar de ler, e principalmente de ocupar lugares. Aprender como se pode usar e aplicar melhor o seu conhecimento, tentando estar nos lugares nos quais você pode ser visto.

“A gente que é preto e tem a caneta importante na mão, precisa trazer os nossos pra
perto e pra cima, com a gente. Começamos a falar mais alto quando temos o movimento ao nosso lado. Na construção do time, aposto nas pessoas, assim como apostaram em mim. Apostar e entender como posso contribuir pra essa pessoa. Ensinar um pouco do que eu sei.”

Participe de nosso grupo no Telegram

Receba notícias quentinhas do site pelo nosso Telegram, clique no
botão abaixo para acessar as novidades.

Comments

No posts to display