A internet é curiosa, não acham? Ela cria fenômenos e reações a esses fenômenos surgem, mesmo que este fenômeno não seja exatamente como dizem ser. Um exemplo disso é a chamada “cultura do cancelamento” que tornou-se algo tão desconexo e banalizado que hoje é utilizado para descrever cobrança de responsabilidade de pessoas famosas na internet, mas como estes são sempre blindados por fãs o pós fenômeno que tem tornado esse debate cada vez menos produtivo é o “anti-cancelamento”.

Vocês já devem ter ouvido falar dos julgamentos em praça pública promovidos pela Inquisição, né? Basicamente a igreja católica romana julgava todos aqueles considerados uma ameaça às doutrinas da instituição. Todos os suspeitos eram perseguidos e aqueles que eram condenados, cumpriam as penas que podiam variar desde prisão temporária ou perpétua até a morte na fogueira, onde os condenados eram queimados vivos em plena praça pública.

Este fenômeno acabou por se estender em países europeus como: Portugal, França, Itália e Espanha. No Brasil tivemos um pouco disso no período colonial, mas não com a mesma força da Europa.

Acontece que muitos lideres políticos da época se aproveitaram dessa pratica para perseguir seus opositores e acabaram por condenar em praça pública diversos grupos de nobres e até mesmo cientistas com ideias que se opunham a igreja e suas imposições.

Mas por que estou falando disso? Primeiro porque muitas pessoas comparam o tal cancelamento com essa prática, na qual eu discordo bastante, exceto por um ponto.

Discordo porque as consequências dessa prática na idade média eram realmente irreversíveis, como por exemplo a morte em fogueira. Já no caso do que chamam de cancelamento não há consequências extremas como essas, mas o evento em si, do “condenado da semana” é semelhante.

Acho que primeiro de tudo devemos separar algumas coisas. A internet em si é um ambiente extremamente tóxico. Muitos se utilizam do anonimato para despejar seus ódios com a certeza da impunidade, mas eu quero alertar vocês que está é uma pratica que existe em todo o ambiente virtual, não tem raízes na cultura do cancelamento.

A partir do momento em que uma pessoa notória comete algum erro existe toda uma movimentação online de cobranças de responsabilidade. Essa cobrança em si não pode ser chamada de cancelamento, uma vez que cobrar responsabilidade por seus atos faz parte do convívio em sociedade. Uma pessoa ser transfobica, racista ou lgbfóbica de um modo geral, para além de cometer um erro está também cometendo um crime e é extremamente natural que esta seja criticada.

Acontece que, como eu disse anteriormente, a internet em si é um ambiente tóxico e muitas pessoas se aproveitam do fato dessa pessoa cometer um erro para destilar seu ódio em meio as criticas, o que acaba por não ser proporcional e deve sim ser condenado, mas não da forma que vem acontecendo.

Um exemplo que acompanhei de perto pode deixar mais claro tudo isso que estou falando. Uma jovem TikToker fez um vide onde ela fez Blackface e com isso foi racista. Logo ela foi criticada por pessoas negras no twitter. Em meio a essas criticas ela começou a receber ameaças, pessoas mandaram mensagens para a mãe dela onde diziam que a filha merecia ser estuprada pelo que fez.

Notem, ela cometeu sim um erro e é natural ser criticada por isso, mas no ambiente virtual algumas pessoas se utilizaram daquela situação e do anonimato para destilarem ódio desproporcional ao ocorrido. Isto é, dizer que uma mulher merece ser estuprada por ter feito Blackface não é uma critica é um crime, discurso de ódio e te coloca em uma posição ainda pior do que a posição errada na qual a jovem estava.

Eu sei dessa história porque ela entrou em contato comigo para entender o que era o Blackface e me contou tudo isso. Sabe o que observei? As pessoas que desejavam tal absurdo à ela sequer eram pessoas negras, sequer eram do grupo atingido pelo erro da jovem, eram homens, brancos e heterossexuais se aproveitando da situação para expressarem o que são e sair impunes disso.

Notem, a forma como essa história em especifico se desenrolou fala mais sobre o comportamento tóxico de pessoas na internet do que sobre o cancelamento em si, sabe por que? Eu já recebi ameaças e ataques semelhantes e não estava em uma situação de cancelamento.

Simplesmente por existir alguns grupos na internet sofrem esses ataques. Eu já recebi mensagens de pessoas que desejavam minha morte de diversas formas, isso simplesmente por ser um homem negro que fala sobre questões raciais na internet.

Atribuir esse comportamento tóxico de pessoas online ao tal cancelamento é uma forma desonesta de se blindar pessoas de criticas e esse é o problema disso tudo.

Usando o exemplo mais recente, podemos falar sobre o episódio transfóbico de Marília Mendonça e sua equipe durante uma live. Ao tratar como chacota o fato de um homem cisgenero se relacionar com uma mulher trans, além de desumanizar pessoas trans ela contribui para um comportamento opressivo que nega afetividade à pessoas trans. Colocando-o como chacota a sociedade brasileira joga para o anonimato essas relações e faz com que este grupo seja cada vez mais oprimido. Somos o país que mais mata pessoas transsexuais no mundo ao mesmo tempo em que somos o país que mais consome pornografia transsexual também.

Um episódio como esse, vindo de alguém com tanta visibilidade como Marília reafirma um comportamento que é extremamente prejudicial a esse grupo social já oprimido diariamente. É ai que entra a cobrança, justa, de responsabilidade. Muitas pessoas trans se manifestaram em repúdio a situação e isto foi interpretado, mais uma vez erroneamente, como cancelamento.

Acontece que COBRAR RESPONSABILIDADE NÃO É CANCELAMENTO.

“Ah, mas é apenas uma piada, vocês só querem cancelar ela”

É na base do “é só uma piada” que violências são perpetuadas na nossa sociedade. Ninguém da risada de algo que não considera menor, inferior ou indigno. Essas piadas inferiorizam existências, reforçam essas inferiorizações.

“Isso é muito comum entre héteros cisgenero”

Uma violência ser comum só mostra a urgência e importância da luta contra tal e não complacência com quem de alguma forma contribui para que ela continue existindo.

Cobrar de Marília um posicionamento, um pedido de desculpas, responsabiliza-la pelo que aconteceu é apenas uma cobrança por algo que ela fez de errado.

Notaram onde quero chegar? Primeiro as pessoas atribuem ao cancelamento um comportamento tóxico virtual que agora atinge pessoas famosas. Depois utilizam esse espantalho para se colocar contra o cancelamento e dessa forma “passarem pano” para os erros do seu famoso favorito. Blindar pessoas de criticas é extremamente problemático, assim como esse comportamento tóxico online também seja, mas o blindar pessoas online de crítica esta totalmente ligado ao cancelamento, já o comportamento tóxico online é algo que faz parte da internet como um todo.

Vejo também, nessa história toda, uma forma da hegemonia se proteger e não ser responsabilizada por seus erros. O grupo hegemônico não suporta ser responsabilizado e quando a Internet começou a fazer isso eles correram pra dizer que isso é ruim e errado, tudo isso para silenciar as cobranças e não para combater a toxidade virtual. Enquanto eles tão se protegendo, usando cultura do cancelamento como desculpa, eles oprimem outros grupos todos os dias.

Em resumo é importante se atentar para não se deixar cair nessa armadilha da “passada de pano” pra pessoas que erraram. Ao mesmo tempo precisamos nos atentar para esse ambiente tóxico que a internet tem se tornado para todo mundo.

Só precisamos ficar atentos porque alguns grupos de pessoas sofrem simplesmente por existir na Internet. Existem páginas e perfis exclusivos para perseguir negros, gordos, trans e outras minorias. Nós não precisamos errar pra sofrer do que eles chamam de consequências do “cancelamento”. Branco não suporta uma crítica quando erra e logo corre pra se blindar chamando de cancelamento. Esse é o verdadeiro vitimismo.

Lembrem-se: COBRAR RESPONSABILIDADE NÃO É CANCELAMENTO.

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