Por: Rodrigo França
Há uma cena recente em São Paulo que escancara mais do que parece. Na Lapa, moradores reagiram à presença de casas de repouso e ao trânsito de carros funerários. O incômodo virou debate público, com reportagens da Folha de S. Paulo mostrando o desconforto de quem não quer conviver com o envelhecimento e, principalmente, com a morte.
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Mas vamos ser honestos. Ninguém está discutindo trânsito. Ninguém está preocupado com fluxo de veículos. O que está em jogo é outra coisa. É o desejo de manter a ilusão de juventude intacta. É a tentativa de empurrar para fora do campo de visão aquilo que desorganiza a fantasia de controle. A velhice virou um erro estético. Um ruído. Algo que precisa ser escondido para que a narrativa da juventude permanente continue funcionando. Só que ela não se sustenta.
Vivemos mais. Essa é a promessa do nosso tempo. A medicina avançou, a expectativa de vida aumentou. Mas, curiosamente, quanto mais vivemos, menos sabemos lidar com o que isso significa. Queremos os anos extras, mas não queremos ver o que eles produzem. Queremos longevidade, mas recusamos a velhice. Isso não é só contradição. É imaturidade social.
Agora olha para as comunidades de terreiro. O mais velho não é descartado. Ele é referência. É quem sustenta a memória, quem organiza o sentido, quem conecta o presente ao passado. A morte não é um tabu silencioso. É parte do ciclo. A ancestralidade não é discurso bonito. É prática. O mesmo acontece em muitas comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas. O tempo não é uma corrida desesperada. É um fluxo. O mais velho carrega mundo, não peso. Existe ali um entendimento mais sofisticado da existência, algo que o modelo urbano decidiu abandonar em nome da produtividade e da aparência.
Quando você rejeita o velho, você está rejeitando o seu próprio futuro. Não existe exceção. Não existe blindagem. Não existe filtro que segure o tempo. Enquanto isso, um outro dado desmonta completamente essa fantasia de controle. Hoje, vemos cada vez mais jovens morrendo. Violência, desigualdade, colapso da saúde mental. A morte não está esperando a velhice chegar. Ela já está atravessando a juventude. Percebe o paradoxo?
A gente esconde quem viveu muito e naturaliza a morte de quem mal começou. Isso não é só incoerente. É brutal. O carro funerário incomoda porque ele quebra a encenação. Ele lembra que existe fim. E, num mundo que se construiu em cima da ideia de performance constante, falar de fim é quase um ato subversivo. Mas ignorar isso tem custo.
Uma sociedade que não sabe olhar para a morte também não sabe viver plenamente. Porque viver sem a consciência do fim é viver anestesiado, superficial, sempre adiando aquilo que importa.
As comunidades tradicionais entenderam algo que a gente insiste em desaprender. O respeito ao mais velho não é caridade. É inteligência coletiva. É reconhecer que o tempo não é inimigo, é estrutura.
Não adianta admirar essas comunidades de longe e continuar reproduzindo a lógica que descarta o envelhecimento no seu cotidiano. Não adianta transformar ancestralidade em estética e continuar tratando o velho como problema. Isso é incoerência fantasiada de sensibilidade.
Quando o tempo marcar você, onde você quer estar? Num mundo que esconde, ou num mundo que acolhe? Porque esse debate não é sobre a Lapa. É sobre o tipo de humanidade que você está ajudando a construir. E, principalmente, sobre o tipo de velhice que você vai merecer.