Carta de um afro-brasileiro para o Brasil

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Por Durval Arantes*

 

Brasil, como também sou um residente desta casa, escrevo-lhe estas linhas pra melhor tentar entender a relação que queremos ter um com o outro. Para que esta mensagem franca faça sentido, gostaria de lhe lembrar, meu bom Brasil (você, que costuma ter a memória curta), sobre como foi que a nossa relação começou:

Eu brincava, integrado à natureza e lépido, nos quintais tórridos daquele bairro chamado “África”, lembra? Sim, a África! Logo alí, depois do “grande rio” chamado Atlântico…

De fato, eu não tinha muitos recursos por ali, mas eu era livre e vivia como sabia; podia olhar os meus pares nos olhos; podia apertar-lhes a mão escura como a minha, abraçá-los, com eles dançar, conviver e dividir com eles fatos e lendas (muitas, muitas!!!) de antepassados comuns.

Mas um dia, sem que eu pedisse ou fosse perguntado e sem que um convite me fosse feito, alguém chegou sorrateiramente em meu quintal e, de forma violenta, com armas de matar, tirou-me de meu chão. Sim, um sequestro… como os muitos que hoje assistimos atônitos e indefesos nos telejornais e novelas do horário nobre.

Alguém me separou de meus familiares, derramou o meu sangue, quebrou os meus ossos, marcou a minha linda pele desde o primeiro dia, há muitos… muitos anos atrás. Depois me acorrentou por todo um oceano e me trouxe para um mundo estranho, para o qual jamais fui perguntado se eu gostaria de sequer visitar.

Aqui chegando (aqui, prezado Brasil, em sua ampla e imensa casa) o flagelo se repetiu: Alguém me açoitou, me subjulgou e desprezou a minha condição humana. Alguém me fez presenciar o urro de meus semelhantes e corrompeu a honra íntima de mulheres com a têz escura como a minha. Alguém me tratou com desdém, me enxotou para os morros, periferias, favelas e “quebradas” perversas deste novo mundo. E quando teve a chance de se redimir, esse alguém fracassou absurdamente: Me negou emprego, me negou escola, me deu migalhas vergonhosas de cidadania…

Prezado Brasil, esse alguém até se esforçou em implantar a idéia de que eu e quem comigo se parecesse seria feio, incapaz e limitado. Mas, mesmo do fundo da mais rústica das senzalas, ou no mais humilde dos barracos, eu jamais me vi assim, meu caro Brasil!

Talvez me faltasse o dom da retórica, mas jamais me vi da maneira como alguns quiseram que eu me enxergasse.

Não sei… pode ser que o espírito dos meus antepassados, mesmo através destes poucos séculos em que por aqui habito, insistissem em rufar nos atabaques astrais, trazendo em seu ritmo africano e eterno a certeza de que na grande aldeia da humanidade, aquele povo de pele escura era exatamente igual a todos os outros povos sentados à grande mesa da vida.

Mas, sabe como é, né, Brasil: A natureza acha o seu próprio caminho e o rio corre para o mar. Esse “alguém” ainda resiste, mas dá sinais de que começa a me respeitar como sou; e eu já aprendi a gostar desse “alguém” há muito tempo!

Às vezes esse alguém tem umas recaídas: não reconhece o meu valor, ignora o suor vertido sobre este chão e que ajudou no erguimento desta casa, desde o alicerce até o último tijolo e finge desconhecer a certeza de que se eu sair a estrutura desmorona.

Mas aprendi a gostar da casa e desse alguém. Afinal moramos juntos desde 1530. E pela reação dos nossos vizinhos, este lugar fica bonito por eu também estar dentro dele. Hoje eu entendo que este lugar não é só meu e só desse alguém!

O pronome correto é o “Nosso”, meu caro Brasil… Brancos, negros, índios e todos os demais seres humanos de qualquer origem que residem neste chão sagrado do hemisfério sul do planeta. Sim! “Nosso País”; um gigante que agora sim desperta para o mundo.

Eu quero e VOU melhorar, Brasil. Vou estudar, trabalhar, me qualificar pra crescer ainda mais, mas que esse alguém delire em argumentos vazios e dê voltas pra me convencer a mudar de idéia e persistir na imagem derrotista que SÓ ESSE ALGUÉM enxerga em mim.

Mas desencane, Brasil, todos os meus êxitos serão meus e seus, porque eu mesmo já desencanei e até dou risadas, da insistência desse alguém em querer propalar que neste lugar os fracassos são só meus. Até porque só esse alguém acredita nisso, ninguém mais.

Bom, Brasil, eu vou ficando por aqui: não me leve a mal, gosto de você. No fundo, és um grandalhão de coração doce. Quando se descobre o seu lado bom (que é o seu traço mais significativo), você impressiona o mundo inteiro!

A gente precisa um do outro, Brasil, e se você me entender melhor, a gente só tem a ganhar.

Deixe-me estudar, crescer, prosperar, pra que cada vez mais pessoas falem bem de nossa casa, e que nos olhem com mais respeito.

Estou aqui para somar e não diminuir…

E pra terminar, meu prezado Brasil, perdoe-me a longa carta, mas ela reflete o nó na garganta e o desabafo contido que queria sair e extravasar, prêso que estava desde aquela tarde ensolarada em que alguém me raptou e me trouxe à força, desde lá além do oceano, pra este lugar… pra nunca mais voltar.

Mas a minha mão está estendida, Brasil: é só esse alguém pegá-la e apertar com energia e respeito. A gente se vê por aí.

Axê!
Assinado:
Durval Arantes
Um cidadão afro-brasileiro

*Durval Arantes é diretor do curso de inglês Ebony English

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