Carnaval e desigualdade: da “passarela do apartheid” aos compromissos socioambientais da folia baiana

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Carnaval e desigualdade: da “passarela do apartheid” aos compromissos socioambientais da folia baiana
Foto: Reprodução

Que o carnaval de Salvador é dominado pela elite branca, apesar do contexto histórico cultural da cidade, não é exatamente uma novidade, porém, em pleno século XXI, em que as discussões sobre negócios de impacto, sustentabilidade e diversidade estão afloradas e em fase de transformação e educação, assistimos a um episódio que escancarou as contradições sociais do carnaval de Salvador. A construção de uma passarela ligando o Morro do Ipiranga a camarotes de luxo – obra financiada por empresários ligados ao setor – expõe a face mais perversa dessa festa: a segregação social disfarçada de infraestrutura. Apelidada de “passarela do apartheid” pela população local, a estrutura foi embargada hoje (27) pela justiça após intensa reação popular, e levanta questões importantes sobre o verdadeiro espírito do carnaval brasileiro.

A segregação que veio do alto

O caso é emblemático: enquanto o carnaval de rua teoricamente representa a celebração da cultura popular, da diversidade e da inclusão, a passarela serviria justamente para o propósito oposto. Ao permitir que os frequentadores dos camarotes de luxo atravessassem por cima da multidão que curte a festa na rua, criou-se uma metáfora visual perfeita da desigualdade social brasileira.

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A justificativa de “segurança” para os clientes VIP não consegue mascarar o simbolismo segregacionista da estrutura. Afinal, se o carnaval é democrático, por que alguns precisam estar literalmente acima dos outros? O embargo judicial, motivado por irregularidades no licenciamento, veio respaldar o que a indignação popular já havia denunciado: não há espaço para o apartheid social em uma festa que se pretende democrática.

Iniciativas que apontam caminhos: sustentabilidade além do discurso

Enquanto isso, o próprio Camarote Salvador, um dos mais tradicionais da folia baiana, anunciou medidas de sustentabilidade para a edição de 2024. Segundo suas divulgações, o evento teria adotado práticas como gestão adequada de resíduos, redução do uso de plásticos e uso de materiais de menor impacto ambiental. Iniciativas louváveis, sem dúvida, mas que perdem força quando confrontadas com o contexto maior do carnaval: um evento que gera toneladas de lixo e se sustenta, muitas vezes, em estruturas de exclusão social.

A contradição é evidente: como conciliar o discurso sustentável com a realidade de camarotes que custam milhares de reais, inacessíveis para a maioria da população que constitui a verdadeira alma do carnaval? A sustentabilidade genuína não pode se limitar ao gerenciamento de resíduos ou à economia de energia – deve incluir também o aspecto social e a redução de desigualdades.

Isto posto, para 2025, o camarote adotou o compromisso de se tornar um evento lixo zero, implementando a reutilização de materiais, reciclagem e estratégias para minimizar o desperdício durante os períodos de montagem e desmontagem.

Além disso, a iniciativa prevê a destinação adequada dos resíduos e a compensação da pegada de carbono do evento, fortalecendo parcerias com organizações ambientais e priorizando fornecedores que compartilham dos mesmos valores sustentáveis. Esse tipo de ação demonstra que há um esforço em alinhar práticas de grande porte com a responsabilidade socioambiental, algo que pode servir de inspiração para outras estruturas do carnaval.

Neste cenário, ganham destaque propostas que integram verdadeiramente os pilares da sustentabilidade, como o exemplo da Loygus. A empresa, no mercado há 30 anos, fortemente conhecida no carnaval de Salvador, se renovou, agora não apenas utiliza tecidos reciclados na confecção de abadás, entregues em sacolas feitas de resíduos da própria produção, mas também incorpora uma dimensão social ao empregar mulheres trans indicadas pelo Instituto Pérolas de Cristo, organização que acolhe mulheres em situação de vulnerabilidade.

A iniciativa demonstra que é possível alinhar inovação, sustentabilidade ambiental e inclusão social, criando um modelo de negócio que contribui para a transformação da sociedade em vez de reproduzir suas desigualdades. O impacto positivo estende-se além do produto final, alcançando pessoas historicamente marginalizadas e oferecendo-lhes oportunidades de trabalho digno.

O contraste entre a “passarela do apartheid” e iniciativas como a da Loygus e do Camarote Salvador nos convida a repensar o carnaval que queremos. Será que a maior festa popular do Brasil continuará reproduzindo e até ampliando as desigualdades sociais do país, ou poderá se transformar em um espaço genuíno de celebração da diversidade, inclusão e sustentabilidade?

O embargo da passarela sinaliza que há limites para a segregação, mesmo em um país acostumado com abismos sociais. Mas além da rejeição ao que nos separa, precisamos fortalecer o que nos une – e nesse sentido, iniciativas que combinam responsabilidade ambiental com inclusão social apontam caminhos promissores.

O verdadeiro carnaval sustentável será aquele que, para além do gerenciamento de resíduos e economia de recursos, promova a inclusão, a diversidade e a redução das desigualdades. Que a polêmica da passarela nos sirva como lembrete de que a festa mais popular do Brasil deve ser construída não sobre estruturas que separam, mas sobre pontes que unem diferentes realidades em um mesmo espaço de celebração.

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