Capela dos Aflitos, marco da presença negra na Liberdade, em São Paulo, reabre após reforma e antecede exposição sobre o bairro no Museu do Ipiranga.
A capela Nossa Senhora das Almas dos Aflitos, erguida em 1779 no bairro da Liberdade, em São Paulo, foi reinaugurada no sábado (27) após reforma, reunindo representantes de diferentes religiões e etnias no entorno do templo. A capela está ao lado do cemitério de mesmo nome e é considerada um dos marcos mais antigos da presença negra na região, anterior à chegada das comunidades japonesa, chinesa, italiana e alemã que também se fixaram no bairro ao longo de mais de dois séculos.
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A presença negra na Liberdade remonta a um período anterior aos ciclos migratórios do século XX que hoje definem a identidade visual do bairro. Durante a escravidão, a região concentrava espaços associados à punição e à morte, entre eles a Casa de Pólvora, que armazenava o arsenal da cidade, além da forca e do pelourinho, o que afastou as elites paulistanas de construir residências na área, segundo o diretor do Museu do Ipiranga, Paulo Garcez. “Era um lugar de tortura, morte e risco”, afirma Garcez, acrescentando que mesmo a proximidade com o centro da cidade não atraiu investimentos das classes mais altas.
A capela dos Aflitos integra um conjunto de referências da presença negra na Liberdade que inclui também a Frente Negra Brasileira, organização fundada no bairro em 1931 e transformada em partido político em 1936, antes de ser extinta no ano seguinte, durante o Estado Novo. A entidade reuniu lideranças negras em torno de pautas de educação, trabalho e cidadania, em um dos episódios centrais da organização política da população negra no país na primeira metade do século XX.
A reabertura do templo acontece dias antes da estreia da exposição “Liberdade: Bairro Plural”, que o Museu do Ipiranga inaugura em 7 de julho com documentos, objetos e fotografias emprestados por 15 instituições. A mostra propõe um olhar sobre os diferentes grupos étnicos que formaram o bairro e busca romper com a leitura da Liberdade como território exclusivamente japonês, segundo a curadoria.
A associação do bairro à cultura japonesa se consolidou a partir de 1974, quando a prefeitura de São Paulo instalou lanternas decorativas na rua Galvão Bueno com o objetivo de transformar a região em destino turístico. As primeiras famílias japonesas haviam se instalado na rua Conde de Sarzedas em 1912, mas o visual nipônico que hoje identifica o bairro só foi adotado décadas depois, por iniciativa da prefeitura. Chineses e taiwaneses já formavam parte expressiva da população local na época, comunidades que acabaram ofuscadas pela estética japonesa escolhida como marca visual da região.
Garcez avalia que a Liberdade concentra, como poucos bairros de São Paulo, a pluralidade dos grupos que formaram a cidade, processo que segue em curso com a chegada recente de imigrantes andinos, caribenhos e africanos atraídos pelo custo de moradia mais baixo da região em relação a outras áreas próximas ao centro.
A exposição “Liberdade: Bairro Plural” fica em cartaz no Museu do Ipiranga a partir de 7 de julho, com entrada sujeita aos valores e horários de funcionamento do museu.
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