Mundo Negro

Bárbara Brito e Bella Campos celebram o Julho das Pretas com edição especial do ‘Jantar Preto’

Foto: divulgação

Bárbara Brito e Bella Campos falam à Mundo Negro sobre afrolatinidade, luxo e redes de apoio antes de edição do Jantar Preto dedicada a mulheres pretas.

Bárbara Brito e Bella Campos convidam mulheres negras para uma edição especial do Jantar Preto batizada de “Só para as Pretinhas”, marcada para a próxima segunda-feira, dia 6 de julho, às 19h, em São Paulo. Bárbara preside o Jantar Preto desde 2024 e Bella integra o time de convidadas fixas das últimas edições do evento, que já reuniu nomes como Jorge Aragão, Regina Casé, Juliana Alves e Ângela Bassett. A dupla concedeu entrevista exclusiva à Mundo Negro em que fala sobre afrolatinidade, ocupação de espaços de luxo, redes de apoio entre mulheres pretas e o legado que pretende deixar para meninas negras, temas que atravessam a programação do Julho das Pretas neste mês.

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Criado em 2023 pelos publicitários Kevin David e Levis Novaes, o Jantar Preto nasceu como um encontro intimista entre profissionais negros do mercado criativo e cresceu até se tornar um dos principais circuitos de celebração da cultura negra em espaços de alto padrão, com edições já realizadas no Rio de Janeiro, em Salvador e em Brasília. Bárbara Brito assumiu a presidência do projeto em 2024, ao lado dos cofundadores, mantendo o propósito original de transformar o luxo em território de protagonismo negro. Comunicóloga formada em Dublin, colunista das revistas Glamour e ForbesLife e autora do livro Caixa Preta, lançado pela Globo Livros em 2022, Bárbara também comanda a Mequelab, empresa de comunicação que assina projetos para marcas como Arezzo e Anitta. Bella Campos, natural de Cuiabá, ganhou notoriedade nacional ao interpretar Muda no remake de Pantanal, em 2022, prêmio de melhor atriz coadjuvante no Melhores do Ano daquele ano, e seguiu a carreira nas novelas Vai na Fé e Vale Tudo, na qual viveu a personagem Maria de Fátima.

Momentos de afrolatinidade

Para Bárbara Brito, a afrolatinidade não pede grandes cenários, ela mora nos gestos do dia a dia, na escolha de um penteado, no jeito de receber gente em casa. “A gente se sente afro-latina em detalhes que parecem pequenos, mas não são. No cabelo black que a gente decide usar solto num evento chique. Na forma como recebe as pessoas em casa, com comida, com afeto, com barulho”, disse à Mundo Negro, acrescentando que os anos vividos fora do Brasil aprofundaram essa percepção. “Viajar também é um gatilho forte, morar fora do Brasil durante tanto tempo e ver como a diáspora se organiza em outros países, como preserva memória, estética, ritmo, me fez voltar mais inteira ao meu país.”

Foto: reprodução/@sadcoxa

Bella Campos chegou a um sentimento parecido por outro caminho, o das viagens pelo continente africano, que considera um divisor na própria formação de identidade. “Acho que esse sentimento aparece quando eu me reconheço nas minhas raízes…” afirmou a atriz, somando a essa vivência o contato com a música e com outras mulheres negras. “Também sinto isso na música, na nossa forma de ocupar os espaços, na troca com outras mulheres negras. São momentos que me lembram que eu faço parte de uma história muito maior do que a minha.”

Ocupação de espaços de luxo

O luxo brasileiro reservou por décadas seus espaços mais visados a corpos brancos, e é dentro dessa disputa histórica que Bárbara Brito situa a própria presença em ambientes como o Baretto. “Não é sobre estar num lugar bonito. É sobre reescrever quem se apossou da permissão de estar ali…” declarou, associando essa naturalidade a um exercício coletivo de abertura de caminho para as próximas gerações.

Bella Campos caminha na mesma direção, mas amplia o argumento para o efeito que essa presença produz em quem observa de fora. Para a atriz, ocupar esses espaços sem precisar alterar a própria identidade já é uma forma de ampliar o imaginário social. “Durante muito tempo, a gente quase não via mulheres negras sendo associadas ao luxo…” disse.

Redes de apoio entre mulheres negras

Entre Bárbara Brito e Bella Campos, a amizade funciona como um refúgio que dispensa explicações, e é essa a base que Bárbara resgata ao falar da própria saúde mental. “Amiga preta é saúde mental sim. Mas antes disso é espelho…” afirmou, acrescentando que o apoio mútuo altera a escala das próprias ambições. “Sozinha, a gente sobrevive. Juntas, a gente expande.”

Foto: reprodução/@sadcoxa

Bella Campos reconhece o mesmo efeito na própria trajetória, mas amplia a rede para além da amizade direta, incluindo mulheres mais velhas que serviram de referência e a comunidade formada nas redes sociais. “Existem experiências que a gente não precisa explicar…” disse, destacando o papel de seguidoras e meninas mais jovens nesse fortalecimento.

Mensagem para a nova geração

Nas rodas onde meninas negras hoje crescem observando essa naturalidade toda, Bárbara Brito enxerga o efeito mais concreto do próprio trabalho. “Que elas cresçam sabendo que merecimento não é discurso, é ocupação…” declarou, ao afirmar que aproximar luxo, sucesso e beleza da imagem dessas meninas já representa o cumprimento de parte essencial do trabalho.

Bella Campos chega a uma conclusão semelhante, mas concentra o recado numa palavra específica, a de permissão, que ela mesma buscou por anos ao longo da carreira. “Eu espero que elas cresçam acreditando que não existe espaço onde elas precisem pedir permissão para estar…” disse, completando que espera que a geração seguinte alcance patamares além dos que ela própria conquistou.

A edição “Só para as Pretinhas” integra a programação do Julho das Pretas e reúne mulheres negras num dos endereços mais tradicionais da hotelaria paulistana, como resposta prática às reflexões levantadas pela dupla na entrevista.

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