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	<title>Arquivos Artigos - Mundo Negro</title>
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	<description>Uma mídia negra diferente!</description>
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		<title>Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́: casal negro recria retratos formais do século XX e ocupa o lugar que foi negado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabrielly Ferraz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 May 2026 13:44:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[ENTREVISTAS]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando se procura por pessoas negras no arquivo fotogr&#225;fico brasileiro do s&#233;culo XIX, o que se encontra majoritariamente s&#227;o corpos violentados, registros de exotiza&#231;&#227;o e os chamados &#8220;tipos negros&#8221; vendidos como souvenirs para europeus em viagem pelo Brasil. Existe a aus&#234;ncia de retratos afetuosos de fam&#237;lias negras no cotidiano, de poses serenas e olhares altivos [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<details class="wp-block-details is-layout-flow wp-block-details-is-layout-flow"><summary><em>Em Niterói, um casal negro ocupa um casarão tombado do século XIX e cria enfim o álbum de família que nunca existiu. Conversamos com Gabrielly Ferraz, pesquisadora e idealizadora do projeto, e Pedro Melodia, músico, criador de conteúdo e parceiro nessa construção, sobre memória, afeto e o direito à imagem.</em><br></summary>
<blockquote class="wp-block-quote td_quote_box td_box_left is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="max-width:1027px;margin-top:-50px;margin-bottom:32px">
<p class="is-style-plain dropcapp" style="margin-top:32px">&#8220;Muitas histórias importam. Histórias têm sido usadas para expropriar e ressaltar o mal. Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida.&#8221; Chimamanda N. Adichie. O perigo de uma história única. (2019)<br></p>
</blockquote>
</details>



<p></p>



<p>Quando se procura por pessoas negras no arquivo fotográfico brasileiro do século XIX, o que se encontra majoritariamente são corpos violentados, registros de exotização e os chamados “tipos negros” vendidos como souvenirs para europeus em viagem pelo Brasil. Existe a ausência de retratos afetuosos de famílias negras no cotidiano, de poses serenas e olhares altivos porque esses registros foram durante décadas privilégio quase exclusivo de corpos brancos. É como uma resposta à ausência desses arquivos que nasce ‘Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́’, ensaio fotográfico e audiovisual idealizado pela jornalista e pesquisadora Gabrielly Ferraz em parceria com o creator Pedro Melodia, a produtora INCria e o fotografo Luks Mota.<br><br>Para entender a urgência desse gesto, é preciso lembrar de algo fundamental: toda narrativa é uma escolha. Alguém decide o que contar, como contar e quem aparece nessa história. No caso das narrativas visuais, a dignidade registrada nas pinturas e nas fotografias no Brasil do século XIX era um privilégio que não cabia para pessoas negras. A construção das narrativas negras que foram divulgadas e perpetuadas nunca foram neutras, essas imagens rebaixam a identidade racial, danifica a autoestima, culpa as pessoas negras pela discriminação que sofrem e, por fim, justifica as desigualdades raciais como se fossem algo somente do passado, embora corpos negros sofram as consequências disso até hoje.&nbsp;</p>



<p>A ideia de trabalhar as reconstruções das narrativas negras a partir da fotografia vem para posicionar o corpo negro em outro lugar, uma vez que esses corpos por muito tempo foram objetos de um olhar que nunca os admirou. Justamente para valorizar essas pessoas afetadas por anos de representações negativas e colaborar para o enfraquecimento dessa construção já consolidada de um imaginário negro negativo é que foi pensado o projeto Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́.</p>



<p>Gravado no Solar do Jambeiro, casarão tombado de Niterói que abrigou famílias brancas abastadas no século XIX, o projeto propõe um exercício de imaginação histórica: e se existissem álbuns de família pretos daquela época, com a mesma elegância, a mesma luz trabalhada, o mesmo cuidado com a pose? O nome do projeto vem do Yorùbá, Àtúnṣe significa corrigir, emendar, reconfigurar; Ìtàn Àtijọ́ significa a história antiga e funciona como uma espécie de declaração de intenções: é hora de reescrever o que ficou registrado e criar o que não existiu pois nos foi retirado.&nbsp;</p>



<p>Em conversa exclusiva para o Mundo Negro, Gabrielly Ferraz e Pedro Melodia falam sobre o que move o projeto, o que ainda dói no arquivo brasileiro e o que significa ocupar, em pleno século XXI, um espaço de elegância que historicamente não foi feito pra acolher corpos como os nossos.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Além da fotografia, o papel da moda nesse projeto:</strong></h2>



<p>A escolha do figurino para este ensaio não foi aleatória, a Gaby vestiu uma criação de <strong>Mônica Anjos</strong>, estilista baiana que há 25 anos desenvolve peças carregadas de histórias, e como ela mesma define a sua obra: <em>&#8220;Não é apenas uma roupa, é um projeto afetivo de resgate identitário preto.”</em></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="536" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-3-1-1024x536.png" alt="" class="wp-image-95779" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-3-1-1024x536.png 1024w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-3-1-300x157.png 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-3-1-150x79.png 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-3-1-768x402.png 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-3-1-803x420.png 803w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-3-1-696x364.png 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-3-1-1068x559.png 1068w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-3-1.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p>Os acessórios complementam muito essa narrativa: brincos grandes, anéis volumosos, o maximalismo presente em acessórios para o cabelo e corpo fazem parte de uma memória visual de artes que retratam reis e rainhas de <strong>Kemet</strong>, que são figuras da Antiguidade africana, uma civilização muito mais antiga do que a escravidão moderna nas Américas. E essa extravagância a partir dos acessórios, realçando a beleza nos lembra que a história negra não começa na escravidão, mas em reinos, lugar de conhecimento, poder e cultura.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-4-1024x576.png" alt="" class="wp-image-95780" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-4-1024x576.png 1024w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-4-300x169.png 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-4-150x84.png 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-4-768x432.png 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-4-1536x864.png 1536w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-4-747x420.png 747w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-4-696x392.png 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-4-1068x601.png 1068w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-4.png 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p><em>Para adentrar mais sobre a construção desse material e entender todas as conexões e histórias que desencadearam essa ideia, conversamos com os modelos e a idealizadora do </em><strong>Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́ </strong>que reforça que o projeto significa além de uma produção para as redes sociais, se estende para algo que quer no seu cotidiano, fotos que vão ocupar as paredes de sua casa e um debate que será levantado também no ambiente acadêmico.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sobre a origem do projeto</strong></h2>



<p><strong>1.  De onde vem a ideia do Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́? O que te levou a pensar nesse projeto especificamente?</strong></p>



<p><strong>GABRIELLY FERRAZ — </strong>A ideia nasceu de uma falta muito específica que eu fui percebendo na minha própria vida, eu sinto que cresci com pouco repertório cultural que vinham de pessoas negras, meus pais tiveram acesso mas nos anos da minha criação ficou cada vez mais forte a inserção da religião evangélica, nos limitando ao consumo do que pertencia somente a religião. E eu demorei pra entender que isso não era uma falha minha ou da minha família, mas era também o resultado de um projeto: a música preta, a literatura preta, a arte feita por pessoas pretas, essas histórias passam por esse processo de apagamento mesmo e juntando ao preconceito e demonização do que vem do negro era muita dificuldade para chegar até a gente. Então comecei a buscar essas referências de forma independente, atrás dos rastros, sobre quem esteve antes de nós, perguntando aos mais velhos da minha família, ouvindo eles. E foi aí que eu comecei a sentir falta de uma coisa muito específica, conforme minhas avós iam contando a história delas e eu ia imaginando a cena, eu senti falta de registros desse momento afetuoso, né? Da intimidade entre pessoas negras, eu queria ver vídeos da minha avó nesses momentos de lazer rindo com as amigas, queria uma foto da minha bisavó comendo com a família num domingo qualquer, porque a minha avó sempre disse que ela era uma cozinheira de mão cheia. E esses momentos simples do cotidiano não eram registrados, né? Essas famílias não tinham esses recursos, quem tinha eram pessoas brancas e pra eles não era interessante registrar preto sendo feliz.</p>



<p><strong>2.  Você fala de um “silêncio do arquivo”. Como isso aparece concretamente na sua história familiar?</strong></p>



<p><strong>GABRIELLY FERRAZ — </strong>Os avós das minhas avós tinham conhecidos próximos que eram pessoas escravizadas, minha avó me contou das mulheres que ela via com “altos turbantes, com um negócio no tornozelo&#8221; [sic], pessoas negra sem documento, sem retrato, sem nenhum registro que dissesse “aqui ela esteve, aqui ela amou, aqui ela viveu” ainda assim eu sei que isso aconteceu nas condições possíveis, porque o povo preto sempre soube resistir, né? Existiram poucos momentos bons na vida dessas pessoas, porque pelo que ouvimos dos mais velhos pessoas pretas sempre acharam frestas pra construir arte, afeto e alegria, mesmo nos espaços onde isso era proibido. Quando a minha avó me conta essas histórias eu até consigo imaginar, mas imaginar não é o mesmo que ver, e foi esse incômodo que virou ponto de partida pro projeto.</p>



<p><strong>3. Ao ter conhecimento da ideia, o que te atravessou de imediato? Por que aceitar entrar no projeto?</strong></p>



<p><strong>PEDRO MELODIA — </strong>Não tinha como não aceitar participar, um conteúdo altamente relevante, que honra nosso passado e nossos ancestrais. Principalmente por todo o apagamento histórico, poder trazer isso pros pretinhos e pretinhas que nos seguem é algo que faz com que eu sinta que estou seguindo o caminho certo, que é de informar, mostrar, e fazer sentir. </p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-5-1024x576.png" alt="" class="wp-image-95781" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-5-1024x576.png 1024w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-5-300x169.png 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-5-150x84.png 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-5-768x432.png 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-5-1536x864.png 1536w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-5-747x420.png 747w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-5-696x392.png 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-5-1068x601.png 1068w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-5.png 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O arquivo que não nos incluiu:</strong></h2>



<p><strong>4.  Você está pesquisando isso academicamente também, certo? Que autores e referências sustentam essa leitura crítica do arquivo fotográfico brasileiro?</strong></p>



<p><strong>GABRIELLY FERRAZ — </strong>Sim, esse é o projeto que eu quero continuar pesquisando no mestrado em Mídia e Cotidiano. Quando a gente olha pra fotografia brasileira do século XIX, encontra fotógrafos europeus como Christiano Junior, Alberto Henschel e Augusto Stahl, que comercializavam imagens de pessoas escravizadas como souvenirs para estrangeiros, o anúncio do Christiano Junior por exemplo no Almanaque Laemmert de 1866 falava em “variada colleção de costumes e typos de pretos” registros que seriam ideais para pessoas que estavam indo pra Europa. Os “registros do cotidiano brasileiro”, já apareciam nesse formato de dominação e da dor. Frantz Fanon escreveu que a principal arma dos colonizadores era a imposição da imagem do colonizado sobre o povo subjugado, então era proposital não registrar pessoas negras em momentos leves e fazer milhares de fotos e pinturas desses corpos sofrendo violência. Aí quando a gente lê bell hooks, em <em>Olhares Negros: Raça e Representação</em>, ela afirma que é fundamental que pessoas negras se apropriem das imagens que as representam, reconfigurando-as pra romper com as visões coloniais. O Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́ é pegar essa informação do Fanon e colocar em prática o que a bell disse.</p>



<p><strong>5.  A câmera fotográfica era cara, era um privilégio econômico, mas você sugere que o privilégio não era só material. Como assim?</strong></p>



<p><strong>GABRIELLY FERRAZ — </strong>A câmera era um privilégio de quem tinha condições financeiras, mas era também um privilégio muito simbólico. Ter a pose elegante, as roupas bem costuradas, o olhar altivo do retrato formal, tudo isso aparecia como exclusividade de corpos brancos, e a dignidade era registrada no papel e foi eternizada, emoldurada e a gente vê nos museus e centro culturais até hoje. A pessoa que ocupava esse espaço tinha o privilégio de pertencer, né? Essa ideia de pertencimento que foi construída sem nós. O que sobra do arquivo da minha família e da família de tanta gente preta mais velha é um vazio, só a lembrança que felizmente minha vó traz tantos detalhes no seu relato que nossa mente nos permite imaginar. Mas esse vazio também ensina, essa falta ela diz que aquele lugar de elegância, de momento em família registrado para perpetuar um sobrenome, não era nosso.</p>



<p><strong>6.  Você trabalha com imagem e conteúdo nas redes. Como você enxerga essa relação entre representação visual e construção do imaginário sobre pessoas negras hoje?</strong></p>



<p><strong>PEDRO MELODIA — </strong>A representação sempre foi muito importante para nós pessoas pretas, que no dia a dia dificilmente nos enxergamos em alguns lugares. Hoje em dia eu faço questão de mostrar as coisas boas que o trabalho na internet me proporciona, lugares que tenho ocupado que nunca imaginei ocupar. Gosto de contribuir positivamente para o imaginário dos meus seguidores, que são em sua maioria pessoas negras. Já mostrei muito e ainda mostro a correria do dia a dia, mas não quero reforçar só isso, porque de representação de correia já estamos cheios. Eu quero que as pessoas vejam que esses lugares também pertencem a nós.&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-6-1-1024x576.png" alt="" class="wp-image-95783" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-6-1-1024x576.png 1024w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-6-1-300x169.png 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-6-1-150x84.png 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-6-1-768x432.png 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-6-1-1536x864.png 1536w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-6-1-747x420.png 747w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-6-1-696x392.png 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-6-1-1068x601.png 1068w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-6-1.png 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p><strong>O QUE SOBROU NO ARQUIVO&nbsp; |&nbsp; Brasiliana Fotográfica</strong></p>



<p>Um exercício simples basta pra dimensionar a crítica do projeto: basta buscar por “escravo”, “escrava” ou “negro” no portal Brasiliana Fotográfica, iniciativa da Fundação Biblioteca Nacional e do Instituto Moreira Salles, lançada em 2015, que hoje reúne cerca de 11,6 mil imagens dos séculos XIX e XX. O resultado é uma coleção vasta de pessoas negras registradas como mercadoria ou força de trabalho, raramente como sujeitos de seus próprios retratos. A grande maioria aparece até mesmo como &#8220;negro não identificado&#8221;.</p>



<p>Christiano Junior produziu, entre 1864 e 1866, uma série de cartes-de-visite catalogadas por origem africana&nbsp; “Escravo &#8211; Moçambique”, “Escravo &#8211; Congo”, “Escrava &#8211; Mina”, “Escravo &#8211; Quelimane”, “Escravo &#8211; Inhambane” —, em que homens e mulheres aparecem sem nome, frequentemente sem roupa da cintura pra cima, enquadrados como em uma foto 3&#215;4. Alberto Henschel, em estúdios de Pernambuco e da Bahia por volta de 1869, registrou “Mulher negra da Bahia”, “Retrato &#8211; Negra de Pernambuco”, “Retrato &#8211; Cafuza”, “Retrato &#8211; mulher negra não identificada”&nbsp; categorias que reduzem pessoas a marcadores raciais e regionais. João Goston registra, por volta de 1870, uma “Escrava doméstica” em pose de senhora, sentada em poltrona, mas com a legenda reforçando seu lugar social. Marc Ferrez fotografa, em 1882, a “Colheita de café” no Vale do Paraíba, e a “Fazenda Monte Café” em 1885&nbsp; paisagens em que pessoas negras aparecem na posição de trabalho. Felipe Augusto Fidanza, no Pará por volta de 1869, registra um “Homem negro &#8211; possivelmente escravizado &#8211; carregando cesto”, com o rosto encoberto pela carga. Uma fotografia anônima de Salvador, c. 1860, mostra uma senhora branca sentada em liteira sustentada por dois homens negros&nbsp; ela centralizada, eles sustentando a cena com o corpo.</p>



<p>Esses são os registros que sobraram. São os retratos que viraram referência histórica, que aparecem em livros didáticos em que crianças constroem seus repertórios visuais do negro, que ilustram exposições sobre o século XIX brasileiro. Não tem, até hoje, um acervo com retratos de famílias negras posando em afeto, em elegância cotidiana até porque a formação de famílias também era um privilégio branco. É contra esse silêncio do arquivo que o Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́ se constrói, se existem registros de negros em posições subalternas, a ausência de registros de negros em cenários leves foi um projeto bem articulado.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="473" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-2-1024x473.jpeg" alt="" class="wp-image-95784" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-2-1024x473.jpeg 1024w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-2-300x139.jpeg 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-2-150x69.jpeg 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-2-768x355.jpeg 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-2-1536x710.jpeg 1536w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-2-909x420.jpeg 909w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-2-696x322.jpeg 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-2-1068x493.jpeg 1068w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-2-1920x887.jpeg 1920w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-2.jpeg 1948w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Christiano Junior. <em>[Escravos]</em>, [1864-1866]. Rio de Janeiro, RJ / Acervo Biblioteca Nacional. Reprodução: Brasiliana Fotográfica (brasilianafotografica.bn.gov.br).</figcaption></figure>



<p></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="588" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-5-1024x588.jpeg" alt="" class="wp-image-95787" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-5-1024x588.jpeg 1024w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-5-300x172.jpeg 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-5-150x86.jpeg 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-5-768x441.jpeg 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-5-1536x881.jpeg 1536w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-5-732x420.jpeg 732w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-5-696x399.jpeg 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-5-1068x613.jpeg 1068w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-5-1920x1102.jpeg 1920w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-5.jpeg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Christiano Junior. <em>Escravo &#8211; Moçambique, Escravo &#8211; Congo, Escrava &#8211; Mina, Escravo &#8211; Quelimane, Escravo &#8211; Inhambane (série)</em>, [1864-1865]. Rio de Janeiro, RJ / Acervo Museu Histórico Nacional. Reprodução: Brasiliana Fotográfica (brasilianafotografica.bn.gov.br).</figcaption></figure>



<p></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="627" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-3-1024x627.jpeg" alt="" class="wp-image-95786" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-3-1024x627.jpeg 1024w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-3-300x184.jpeg 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-3-150x92.jpeg 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-3-768x470.jpeg 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-3-1536x941.jpeg 1536w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-3-686x420.jpeg 686w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-3-696x426.jpeg 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-3-1068x654.jpeg 1068w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-3-1920x1176.jpeg 1920w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-3.jpeg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Alberto Henschel. <em>Mulher negra da Bahia, Retrato &#8211; Negra de Pernambuco, Retrato &#8211; Cafuza (série)</em>, circa 1869. Bahia e Pernambuco / Acervo Instituto Moreira Salles. Reprodução: Brasiliana Fotográfica (brasilianafotografica.bn.gov.br).</figcaption></figure>



<p></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="715" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-4-1024x715.jpeg" alt="" class="wp-image-95785" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-4-1024x715.jpeg 1024w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-4-300x209.jpeg 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-4-150x105.jpeg 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-4-768x536.jpeg 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-4-1536x1072.jpeg 1536w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-4-602x420.jpeg 602w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-4-696x486.jpeg 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-4-1068x746.jpeg 1068w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-4-100x70.jpeg 100w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-4.jpeg 1782w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Ocupar o Solar do Jambeiro</strong></h2>



<p><strong>ENTENDA&nbsp; |&nbsp; O Solar do Jambeiro</strong></p>



<p>Localizado no bairro de São Domingos, em Niterói, o Solar do Jambeiro — também conhecido como Palacete Bartholdy&nbsp; foi construído em 1872 pelo comerciante português <strong>Bento Joaquim Alves Pereira</strong>, Bento era um exemplar da arquitetura residencial urbana burguesa do século XIX, o casarão é revestido por um dos mais importantes acervos de azulejos portugueses do período no Brasil, com vidraças importadas do Porto e detalhes em madeira trabalhada. Pela casa passaram o médico Júlio Magalhães Calvet, o pintor Antônio Parreiras e, a partir de 1892, o diplomata dinamarquês Georg Christian Bartholdy, que mobiliou o sobrado com quadros, lustres, candelabros e porta-retratos europeus. Tombado pelo Iphan em 1974, foi desapropriado pela Prefeitura de Niterói em 1997 e reaberto ao público em 2001 como centro cultural vinculado à Fundação de Arte de Niterói. As paredes do Solar ainda hoje exibem registros fotográficos da elite branca que ocupou seus salões.</p>



<p><strong>7. Por que escolher justamente o Solar do Jambeiro como locação do projeto?</strong></p>



<p>GABRIELLY FERRAZ — Primeiramente porque atualmente eu moro em Niterói &#8211; RJ e consumo muito a agenda cultural da cidade, estou sempre visitando esses lugares. Mas pra entender a fundo essa escolha, a gente precisa pensar na história desse tipo de casarão. O Solar foi planejado em 1872, ainda dentro do período de&nbsp; escravidão, já que a Lei Áurea só aconteceu dezesseis anos depois, e o território de Niterói, assim como toda a região da Baía de Guanabara, ainda contava com forte presença de trabalho escravo. Os sobrados residenciais daquele período, no Rio de Janeiro e adjacências, eram sustentados majoritariamente por pessoas escravizadas, desde os domésticos aos urbanos e também os trabalhadores em relações de dependência. Quem tinha o passe para construir um palacete deste porte naquela época, tinha uma posição social muito bem definida: a do comerciante europeu abastado, parte da elite de diferentes áreas que tinham suas fortunas ligadas estruturalmente com a economia da escravidão. Não temos documentos que provem isso de fato, mas o contexto histórico nos permite entender pelo menos que pessoas negras não ocupavam esse espaço como um momento de lazer. E é justamente esse contexto que torna a escolha do Solar potente: ele é, hoje, patrimônio público tombado, restaurado e mantido como referência da elegância arquitetônica do século XIX brasileiro, mas é quase impossível separar a elegância do século XIX do trabalho preto que a sustentou. Escolher o Solar é colocar dois corpos negros em afeto justamente dentro de um espaço que historicamente os manteve fora do retrato que podia ser pendurado na parede. É um conceito que vem da nossa imaginação mesmo, um exercício de perguntar: e se? E se os avós dos meus avós tivessem tido a oportunidade de viver suas vidas plenas, e se existissem álbuns de família pretos do século XIX, com a mesma pose elegante, o mesmo olhar sereno, será que nossa relação com nós mesmos seria diferente?</p>



<p><strong>8.  A decisão de ocupar o Solar do Jambeiro também veio da ausência de iniciativas pensadas por e para pessoas negras dentro do próprio espaço. Como isso pesou na escolha?</strong></p>



<p><strong>GABRIELLY FERRAZ — </strong>Pesou muito. Quando a gente olha pra programação mais antiga de espaços como o Solar saraus, exposições, peças de teatro, recitais, encontra uma agenda culturalmente muito rica, mas com as referências quase exclusivamente da Europa, e quase nunca pensada por pessoas negras, com pessoas negras no centro, para pessoas negras. Não é um problema só desse espaço, é um padrão da época que se reproduz justamente porque a presença negra nesses lugares ainda é tratada como exceção em momentos específicos e não como parte da história que é contada ali. Ocupar o Solar com o Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́ é, também, abrir uma fresta: dizer que esse patrimônio é público, que ele foi mantido com dinheiro público, e que a gente tem direito não só de entrar, mas de criar dentro dele, com os nossos termos, com a nossa estética, com a nossa intenção política&nbsp; e que isso precisa virar prática constante, não evento isolado.</p>



<p><strong> Como foi pra você, na prática, posar para as fotos naquele espaço? Teve algum momento durante o ensaio que te tocou de um jeito diferente?</strong></p>



<p><strong>PEDRO MELODIA — </strong><em> Foi um momento que com certeza vai ficar marcado, me senti pertencente daquilo que deveria ser meu ahhaah, do que eu posso ter e do que podemos ter.  Um momento marcante foi o take de cuidado entre nós dois, eu ajeitando o afro puff dela e ela penteando o meu cabelo. O cabelo para pessoas pretas é algo muito sensível e pessoal e compartilhar isso com ela [Gaby] é incrível. </em></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-8-1024x576.png" alt="" class="wp-image-95790" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-8-1024x576.png 1024w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-8-300x169.png 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-8-150x84.png 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-8-768x432.png 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-8-1536x864.png 1536w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-8-747x420.png 747w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-8-696x392.png 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-8-1068x601.png 1068w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-8.png 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Escrevivência e o direito à imagem</strong></h2>



<p><strong>10.  Conceição Evaristo fala em escrevivência, uma escrita que parte da experiência negra e se recusa a adormecer a casa grande. Você diria que esse projeto pode ser uma forma de escrevivência. Como?</strong></p>



<p><strong>GABRIELLY FERRAZ — </strong>Conceição Evaristo pensa a escrevivência como um fenômeno diaspórico, uma escrita que não tá aí para agradar a casa grande e pra acordá-la. Porque tão descansando e tendo sonhos injustos, às custas da exaustão e exploração de um povo, né? E eu venho pensando que a criação de conteúdo, os vídeos, as fotos também podem ser uma forma de escrevivência, produzir essas imagens hoje, com intenção, é reescrever as nossas vivências. Não pra fingir que o que temos não existiu, as imagens retratadas eram aquelas porque era o que acontecia, mas também porque queriam que fosse só aquilo. Mas pensando em abrir essa portinha no imaginário coletivo, pra que uma criança preta que crescer daqui a vinte anos possa olhar um retrato como esse e entender, sem precisar de explicação, que aquele lugar também é dela, que a elegância, o afeto entre um casal, a sala bem iluminada de um casarão antigo, tudo isso pode ser, e foi, e será, também território preto.</p>



<p><strong>11.  O que você espera que uma pessoa preta sinta ao ver essas imagens circularem nas redes?</strong></p>



<p><strong>PEDRO MELODIA — </strong>Espero que as pessoas se sintam representadas e que as pessoas conheçam mais sobre o afeto negro, sobre cuidado, prosperidade e sonhos&#8230; Espero que chegue especialmente em pessoas que não tem muitas referências que elas possam enxergar outras perspectivas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-7-1024x576.png" alt="" class="wp-image-95789" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-7-1024x576.png 1024w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-7-300x169.png 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-7-150x84.png 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-7-768x432.png 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-7-1536x864.png 1536w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-7-747x420.png 747w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-7-696x392.png 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-7-1068x601.png 1068w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-7.png 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O que fica:</strong></h2>



<p><strong>12. </strong><strong>[Gabrielly] </strong><strong>Pra encerrar, se o Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́ pudesse deixar uma única coisa pra quem assistir, qual seria?</strong></p>



<p><strong>GABRIELLY FERRAZ — </strong>Os registros visuais do século XIX impactaram diretamente na forma como nós, pessoas negras nos vimos representadas, e isso atravessa o modo como a gente se posiciona hoje séculos depois, por isso é tão importante construir imagens nossas fora do lugar de dor e sofrimento,&nbsp; não porque a dor não existe, mas porque ela sempre foi retratada, mesmo nunca tendo sido a história toda. Eu gostaria muito de ter tido acesso a um registro da minha bisavó rindo, e como eu não vi, eu crio e quando a gente cria, o arquivo finalmente começa a se parecer com a gente.</p>



<p><strong>13.  E você, Pedro — o que esse projeto deixa em você?</strong></p>



<p><strong>PEDRO MELODIA — </strong><em>Deixa em mim a sensação de que nós deveríamos conhecer mais a história do nosso povo, a partir do momento que conhecemos mais, mais nós podemos informar e compartilhar com outras pessoas negras sobre nossa história e assim reforçamos que essa história não foi escrita só com dor, tem muito amor, afeto, muita arte e personalidade.</em></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-9-1024x576.png" alt="" class="wp-image-95791" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-9-1024x576.png 1024w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-9-300x169.png 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-9-150x84.png 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-9-768x432.png 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-9-1536x864.png 1536w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-9-747x420.png 747w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-9-696x392.png 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-9-1068x601.png 1068w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/Design-sem-nome-9.png 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p>Artistas como Silvana Pinto Mendes, com suas afetocolagens que devolvem humanidade às representações de corpos negros, e Gê Viana, que em &#8220;Atualizações Traumáticas de Debret&#8221; (2020) ressignifica as cenas coloniais inserindo-as em contextos contemporâneos para &#8220;exaltar a autoestima do nosso povo&#8221;, integram esse movimento de reescrita visual decolonial. Esses trabalhos precisam ocupar espaços de construção de identidade como escolas e currículos.</p>



<p>O Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́ se insere nessa urgência de criar novas histórias no imaginário do povo preto. Assim como pintores, colunistas visuais e fotógrafos vêm fazendo, o projeto reconhece que se a história tivesse sido diferente, se nossos ancestrais não tivessem sido tão violentados, tivessem vivido momentos mais leve e tido acesso a câmeras, a retratos, e álbuns de família, estaríamos ocupando outros lugares no imaginário coletivo. E é justamente essa ocupação que esse movimento crescente vem reivindicando: o direito de reescrever visualmente os registros que nos foram negados, e de disputar futuros onde corpos negros não sejam exceção, mas regra. A fotografia e a arte visual aqui entra como reparação.</p>



<p>É dessa reparação que se trata. Quando um casal negro cria o álbum de família que seus ancestrais nunca tiveram, quando artistas reescrevem os retratos coloniais devolvendo afeto e dignidade, quando ocupamos o imaginário visual com nossas próprias narrativas&nbsp; não se trata apenas de fazer arte é também a restituição da dignidade negra</p>



<p></p>



<p><strong>FICHA TÉCNICA</strong></p>



<p><strong>Projeto: </strong>Àtúnṣe Ìtàn Àtijọ́ — recriando o passado</p>



<p><strong>Idealização: </strong>Gabrielly Ferraz</p>



<p><strong>Equipe: </strong>Gabrielly Ferraz, Pedro Melodia, INCria e Luks Mota</p>



<p><strong>Local: </strong>Solar do Jambeiro, Niterói (RJ)</p>



<p><strong>Apoio: </strong>Prefeitura de Niterói</p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Eventos Pretos e o dinheiro na conta bancária dos brancos</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/eventos-pretos-e-o-dinheiro-na-conta-bancaria-dos-brancos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carolina Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 May 2026 10:04:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Eventos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://mundonegro.inf.br/?p=95637</guid>

					<description><![CDATA[<p>Por: Breno Cruz Produtor cultural e empreendedor preto da cultura, esse texto vai te deixar triste ao final por voc&#234; entender que o problema n&#227;o &#233; voc&#234;. O problema &#233; o sistema que voc&#234; n&#227;o faz parte &#8211; e n&#227;o &#233; por m&#233;rito do seu trabalho e da sua trajet&#243;ria profissional. Voc&#234; n&#227;o faz parte [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Por: Breno Cruz </p>



<p>Produtor cultural e empreendedor preto da cultura, esse texto vai te deixar triste ao final por você entender que o problema não é você. O problema é o sistema que você não faz parte &#8211; e não é por mérito do seu trabalho e da sua trajetória profissional. Você não faz parte talvez por não querer jogar o jogo que se apresenta no tabuleiro do mercado de eventos e captação; ou, pela ausência de relações políticas, pessoais e capitalistas com quem decide e assina patrocínios.&nbsp;</p>



<p>Você pessoa preta que luta para sobreviver da cultura possivelmente não é <em>nepobaby</em> e nunca acompanhou negociações na mesa de jantar enquanto brincava com sua babá preta uniformizada. O foco deste artigo de opinião é refletir como é difícil para gente fazer eventos sérios e que realmente têm em sua gênese, planejamento e execução a realização por pessoas negras. Eu estou no lugar de fala por <strong>sentir literalmente na pele</strong> como é difícil captar recursos para fazer um evento gratuito de cultura negra no Rio de Janeiro &#8211; o Festival Gastronomia Preta.</p>



<p>Alguns de vocês devem saber que historicamente alguns eventos de cultura preta no Brasil não têm pessoas pretas como “donas”. Infelizmente, alguns empresários brancos usam da causa racial para criarem grandes eventos. Parabéns para eles que se apropriam do que é nosso sem que grande parte das pessoas percebam. Assim, o dinheiro fica na conta bancária deles e não das pessoas pretas &#8211; e essa é a grande disfunção. A grande fatia do capital continua a&nbsp; circular nas mãos e nas contas dos brancos.</p>



<p>O Festival de Música Negra que ocorreu em Brasília é um exemplo disso. De acordo com o Portal Metrópoles, a Associação Brasiliense de Promoção à Cultura (ABC-DF) “recebeu R$ 1,6 milhão de emenda parlamentar para a realização da segunda edição do Festival de Música Negra, feita em 2025.” Segundo o mesmo portal, em matéria publicada no dia 30 de abril deste ano, “a chancela foi dada pelo Ministério da Igualdade Racial à época no dia 23 de Dezembro [de 2025] para o Festival de Música Negra.” E foi esse mesmo festival de música negra que não tinha em sua grande maioria artistas negros que foi chancelado financeiramente para acontecer por um ministério que deveria zelar pelo fomento de iniciativas negras, para pessoas negras e idealizadas por elas.&nbsp;</p>



<div class="wp-block-cover"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" class="wp-block-cover__image-background wp-image-95638" alt="" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-1024x768.png" data-object-fit="cover" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-1024x768.png 1024w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-300x225.png 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-150x113.png 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-768x576.png 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-560x420.png 560w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-80x60.png 80w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-696x522.png 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image-265x198.png 265w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/05/image.png 1040w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><span aria-hidden="true" class="wp-block-cover__background has-background-dim"></span><div class="wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-large-font-size">Foto: divulgação</p>
</div></div>



<p>Ora, bolas… Eu faria um festival gastronômico sem comida? Eu faria um festival de cerveja sem cerveja? Eu faria um festival de Axé Music com cantores sertanejos? Mas, sim &#8211; foi feito um festival de música negra sem artistas negros. E o pior: um evento com recurso financeiro destinado pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR) por emenda (eis a grande disfunção). Será que ninguém da pasta analisou o projeto de curadoria artística antes? Se a ministra ou os funcionários da pasta aprovaram o repasse, deveriam fazê-lo mediante análise de um projeto técnico que tivesse uma programação prévia dos artistas. Mas no Brasil o tecnicismo dá lugar ao personalismo nas decisões dos ministérios e secretarias.</p>



<p>Por um momento eu fechei os olhos e sonhei por um minuto: imagina se desse a louca no MIR, eles ouvissem meus pedidos de apoio desde 2023 e nos enviasse um PIX de R$ 1,6 milhão de reais na conta bancária para fazer o Festival Gastronomia Preta 2026? Levaríamos Jorge Aragão (nosso sonho master), Xande de Pilares, Iza, Olodum, Bochecha, Alcione, Só Pra Contrariar, Grupo Arruda, Samba da Volta, Terreiro de Crioulo, Mangueira e É o Tchan. Seria música preta, cantada por artistas pretos, para pessoas pretas e com curadoria de pessoas pretas.&nbsp;</p>



<p>Sonhar não custa nada, como já dizia a Mocidade Independente de Padre Miguel na década de 1990 &#8211; <strong>porém depende</strong>. Depende de muita coisa, principalmente, de ser um dos deles. E, quando se é <em>persona non grata</em> (como é o meu caso por eu me posicionar em relação ao descaso do MIR com o Festival Gastronomia Preta), o sonho se torna pesadelo. Sou <em>Persona non grata</em> por insistir durante dois anos um patrocínio de R$ 60.000,00 em 2024; por colocar a equipe do MIR contra a parede no Instagram depois de 9 meses de espera de uma promessa de que em 2025 o ministério teria mais tempo para construir um apoio financeiro robusto com o Festival Gastronomia Preta na última edição; e, por em 2026, criticar aquele post de que foi o ministério que mais investiu no povo preto na história do país.</p>



<p>E é por isso, meu povo, que eu digo não importa a qualidade da entrega do seu projeto e os grupos minoritários que você alcança; o impacto verdadeiro na vida de mães solos negras gerando renda a partir da participação no festival; o pilar de qualificação profissional do evento por meio do projeto Pretonomia que acelera a geração de renda por meio do trabalho na gastronomia. O que verdadeiramente importa para os políticos que assinam os contratos são as relações pessoais, os favores e os demais interesses.</p>



<p>A matéria publicada pelo Metrópoles escancara como as decisões parecem deixar de lado a dimensão técnica da proposta. Qualquer servidor público sério e minimamente conhecedor da música brasileira atuando naquele ministério, analisaria o projeto aprovado às vésperas do Natal com as características do evento e as atrações artísticas, questionaria o recorte da curadoria para os artistas escolhidos e vetaria aquela aprovação; ou, aprovaria com restrições de revisão da curadoria artística com asrtistas negros em sua grande maioria.&nbsp;</p>



<p>O problema está aí, produtor cultural e empreendedor da cultura: as decisões não são técnicas quando o assunto é destinação de recursos &#8211; principalmente em ano político. E é por isso que eventos idealizados por nós pessoas pretas nascem, não se reproduzem e morrem. Não é a sua entrega ou qualidade técnica do que você fez que será julgado &#8211; é sobre <strong>quem você não é</strong>: se você não é amigo pessoal, parente, amigo do amigo ou empresário, ESQUECE! Eles nos vêem apenas como quantidade de CPFs na urna eletrônica.&nbsp;</p>



<p>Sua qualidade técnica nunca será analisada se você for acima da média &#8211; sempre terá um “porém” acompanhado de um argumento que não faz sentido. A depender do político, ele vai colocar mensagem temporária no WhatsApp e depois vai sugerir que você mentiu sobre o que foi acordado &#8211; como fez a equipe daquela deputada estadual que diz lutar por nós.</p>



<p></p>
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		<title>Joaquim Barbosa rumo a 2026: as fragilidades por trás de uma pré-candidatura</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/joaquim-barbosa-rumo-a-2026-as-fragilidades-por-tras-da-pre-candidatura-do-unico-nome-negro-a-presidencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carolina Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 May 2026 09:49:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[instagram]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Ivair Alves dos Santos Joaquim Barbosa se apresenta como uma novidade no cen&#225;rio pol&#237;tico e como algu&#233;m diferente dos candidatos tradicionais. Sua trajet&#243;ria &#233; marcada pelo combate &#224; corrup&#231;&#227;o, especialmente por sua atua&#231;&#227;o no Supremo Tribunal Federal. Al&#233;m disso, ele nunca exerceu mandato pol&#237;tico nem disputou elei&#231;&#245;es, o que refor&#231;a sua imagem de independ&#234;ncia [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Por Ivair Alves dos Santos</p>



<p>Joaquim Barbosa se apresenta como uma novidade no cenário político e como alguém diferente dos candidatos tradicionais. Sua trajetória é marcada pelo combate à corrupção, especialmente por sua atuação no Supremo Tribunal Federal. Além disso, ele nunca exerceu mandato político nem disputou eleições, o que reforça sua imagem de independência em relação à classe política tradicional.</p>



<p>No imaginário de parte da população, Joaquim Barbosa também simboliza a possibilidade de um presidente negro com forte representatividade histórica, já que foi o primeiro ministro negro a ganhar grande projeção nacional no STF.</p>



<p>Entretanto, sua eventual candidatura enfrenta dificuldades importantes. A primeira delas é a questão da saúde, frequentemente apontada como frágil. A segunda é a instabilidade política de sua trajetória: em outras ocasiões, ele já demonstrou interesse em disputar eleições, mas acabou desistindo. Isso gera dúvidas sobre a continuidade de um projeto eleitoral.</p>



<p>Além disso, apesar de sua relevância simbólica, Joaquim Barbosa não conseguiu, ao longo de sua passagem pelo Supremo, construir ou agregar um campo mais amplo de lideranças negras e políticas ao seu redor. Essa limitação levanta questionamentos sobre sua capacidade de articulação e sustentação política.</p>



<p>Por essas razões, permanece a dúvida sobre se sua candidatura conseguirá, de fato, se consolidar e avançar.</p>
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		<title>Maternidade e Carreira: as mães talentosas que o mercado perde</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/maternidade-e-carreira-as-maes-talentosas-que-o-mercado-perde/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carolina Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2026 10:16:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por: M&#225;rcia Silveira Existe uma contradi&#231;&#227;o evidente em muitas empresas. Afirmam buscar profissionais com alta adaptabilidade, intelig&#234;ncia emocional, gest&#227;o de crise, autonomia, organiza&#231;&#227;o e tomada de decis&#227;o. No entanto, raramente reconhecem que essas compet&#234;ncias s&#227;o intensamente desenvolvidas na experi&#234;ncia da maternidade &#8212; especialmente entre m&#227;es solo, at&#237;picas e mulheres que concentram m&#250;ltiplas responsabilidades. Quando essas [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Por: Márcia Silveira</p>



<p>Existe uma contradição evidente em muitas empresas. Afirmam buscar profissionais com alta adaptabilidade, inteligência emocional, gestão de crise, autonomia, organização e tomada de decisão. No entanto, raramente reconhecem que essas competências são intensamente desenvolvidas na experiência da maternidade — especialmente entre mães solo, atípicas e mulheres que concentram múltiplas responsabilidades.</p>



<p>Quando essas habilidades são adquiridas fora dos ambientes corporativos tradicionais, raramente são reconhecidas como competências estratégicas. Deixam de ser diferencial e passam a ser obrigação implícita. Falar sobre isso é uma questão de inteligência empresarial.</p>



<p>A discussão sobre maternidade e carreira ainda é, em grande parte, conduzida sob uma lógica de conciliação. Entretanto, isso parte de um pressuposto de que as estruturas já estão adequadas e que cabe às mulheres apenas equilibrar. Creio que o ponto central não seja este, mas sim: por que insistimos em um modelo que não contempla a realidade de quem sustenta múltiplas jornadas?</p>



<p>O mercado de trabalho foi estruturado por uma lógica linear de disponibilidade, previsibilidade e dedicação contínua. Na maternidade solo, a situação se agrava. Ela não representa apenas a ausência de um parceiro na criação dos filhos…Implica centralizar responsabilidades financeiras, emocionais, operacionais e decisórias.</p>



<p>Outro ponto é a tendência de associar rede de apoio exclusivamente à família. A carreira e o financeiro organizados também viabilizam acesso a profissionais qualificados, suporte técnico e soluções que ampliam a segurança e o bem-estar da criança. Uma rede de apoio mais estável e imune às instabilidades que por vezes assolam as relações.</p>



<p>Nos últimos anos, vimos avanços na discussão sobre maternidade e carreira, mas essas iniciativas ainda são pontuais frente à complexidade do desafio. Além disso, é essencial desenvolver líderes capazes de aprimorarem o reconhecimento de competências, realidades diversas e de superarem a premissa de que todos partem de condições iguais.</p>



<p>Enquanto essa transformação não ocorre, o mercado perde talentos no pós-maternidade ou deixa as mães longe do potencial de contribuição empresarial que poderiam gerar. A reflexão hoje é: precisamos com urgência investir em caminhos práticos como a flexibilização das formas de trabalho, o diálogo integrado com as redes de apoio e o alinhamento de execução das atividades em cada fase.</p>



<p>Empresas que compreenderem a maternidade como potência de liderança, e não como limitação operacional, estarão mais preparadas para reter talentos, ampliar inovação e construir culturas verdadeiramente sustentáveis.</p>
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		<title>Negócios negros no Brasil: quando o consumo não sustenta quem produz</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/negocios-negros-no-brasil-quando-o-consumo-nao-sustenta-quem-produz/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carolina Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2026 09:20:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Carreira e Crescimento]]></category>
		<category><![CDATA[instagram]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por: Rachel Maia Os resqu&#237;cios da Aboli&#231;&#227;o da Escravatura &#8212; sem a devida repara&#231;&#227;o &#8212;, que perduram h&#225; mais de um s&#233;culo, afetam empres&#225;rios negros e a popula&#231;&#227;o negra, al&#233;m de impedirem o avan&#231;o econ&#244;mico do Brasil O consumo negro no Brasil movimenta R$ 1,9 trilh&#227;o por ano de acordo com o estudo &#8220;O Consumo [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Por: Rachel Maia</p>



<p><em>Os resquícios da Abolição da Escravatura — sem a devida reparação —, que perduram há mais de um século, afetam empresários negros e a população negra, além de impedirem o avanço econômico do Brasil</em></p>



<p>O consumo negro no Brasil movimenta R$ 1,9 trilhão por ano de acordo com o estudo “O Consumo Invisível da Maioria”, realizado em 2025 pelos institutos Akatu e DataRaça. No entanto, segundo dados do portal Sebrae existe um déficit de 59% no faturamento de empresárias negras em comparação ao de empresários brancos.</p>



<p>Isso explica por que esse fluxo não se converte, na mesma proporção, na sustentação de negócios negros. Não porque falte intenção, mas porque o sistema foi desenhado para que o dinheiro circule e se concentre fora dessas iniciativas. Esse descompasso revela uma engrenagem histórica que organiza quem consome, quem produz e, principalmente, quem acumula.</p>



<p>Ao longo das últimas décadas, a população negra ampliou seu poder de consumo, fruto de avanços sociais, maior acesso à educação e inserção no mercado de trabalho. No entanto, esse crescimento não foi acompanhado por um fortalecimento equivalente ao empreendedorismo negro em escalada. O resultado é um fluxo constante de riqueza que sai das mãos de quem consome, mas raramente permanece com quem compartilha das mesmas origens, referências e territórios.</p>



<p>Esse fenômeno não é acidental, ele está diretamente ligado às barreiras estruturais que limitam o crescimento dos negócios negros. Trata-se de concorrência em condições historicamente desiguais, falta de acesso a crédito, menor capital inicial, redes de contato mais restritas e dificuldades de inserção em grandes cadeias de distribuição.&nbsp;</p>



<p>Liana Santos, empresária e estilista à frente da Liana d’Áfrika, no Rio de Janeiro, é uma referência quando o assunto é moda, mas, infelizmente, também integra as estatísticas de negócios que enfrentam grandes desafios para manter a saúde financeira da empresa e escalar novas oportunidades. Mesmo entregando figurinos autênticos e de qualidade para pessoas influentes, ela ainda não se encontra entre as empresas de alto poder aquisitivo.</p>



<p>“O cenário contemporâneo revela uma contradição latente: embora o poder de compra da população negra movimente cifras bilionárias, o fluxo desse capital raramente se cristaliza na manutenção e no florescimento de empresas de propriedade negra. No segmento da moda afro atemporal, exemplificado pelo rigor estético e cultural da Lianad’Áfrika, o desafio transcende a criação artística; ele reside no enfrentamento de gargalos econômicos e de uma desigualdade social historicamente estratificada”, afirma a empresária.</p>



<p>Há uma dinâmica sofisticada de apropriação cultural: grandes marcas utilizam elementos de estética, de linguagem e de comportamento negro e transformam identidade em produto sem, necessariamente, redistribuir valor para as comunidades que originam essas expressões. O consumo acontece, a influência é reconhecida, mas a estrutura de retorno permanece concentrada.</p>



<p>“Enquanto grandes corporações absorvem a estética afrodescendente como tendência sazonal, marcas autorais enfrentam déficit de aportes e créditos, logística e insumos e invisibilidade seletiva. Para a Lianad’Áfrika, posicionar-se no nicho da moda afro atemporal não é apenas uma escolha estilística, é um ato de insurgência econômica. A atemporalidade propõe um consumo consciente, oposto ao descarte desenfreado, exigindo que o consumidor compreenda o valor intrínseco de cada peça”, contextualiza Liana.</p>



<p>Outro ponto central é a fragmentação. O consumo negro, apesar de expressivo, ainda não opera de forma articulada como estratégia econômica coletiva. Diferentemente de outros grupos que historicamente estruturaram redes de apoio, financiamento e circulação interna de capital, no Brasil essa lógica ainda está em construção. O resultado é um mercado potente, porém disperso, que não consegue, sozinho, sustentar cadeias produtivas robustas.</p>



<p>“O mercado consumidor muitas vezes celebra a cultura, mas negligência o CNPJ negro, optando por alternativas de fast fashion que mimetizam a identidade africana sem o devido lastro de pertencimento. Apoiar marcas que, sobretudo, têm como propósito a conscientização da importância da sustentabilidade em suas produções e comercialização é reconhecer que a moda afro não é um adereço momentâneo, mas uma expressão de continuidade histórica que demanda, acima de tudo, viabilidade econômica e justiça social”, ressalta a estilista.</p>



<p>Reduzir essa questão a uma escolha individual — “consumir de negócios negros” — também é insuficiente. A responsabilidade não pode recair apenas sobre o consumidor. Sem políticas públicas consistentes, acesso ampliado ao crédito, incentivo à formalização e inclusão em grandes mercados, o esforço individual tende a esbarrar em limites estruturais.</p>



<p>O consumo já existe e é relevante. O grande desafio é construir um ecossistema capaz de reter valor. Isso implica repensar cadeias produtivas, fomentar redes de negócios, ampliar o acesso ao capital e, sobretudo, reconhecer que o desenvolvimento econômico passa, necessariamente, pela redistribuição de oportunidades.</p>



<p>Transformar consumo em poder econômico exige intencionalidade, estratégia e estrutura. Não se trata apenas de onde o dinheiro é gasto, mas de como ele circula, onde ele permanece e quem ele fortalece ao longo do caminho. Enquanto essa engrenagem não for redesenhada, o paradoxo persiste: um mercado expressivo desenhado por empresários negros, que movimenta riqueza, mas ainda luta para convertê-la em base sólida de autonomia econômica.</p>



<p>Somos muito mais que consumidores, produzimos intelectualidade, cultura e produtos, e compartilhamos saberes em grande escala. Para que os negócios negros se tornem um pilar de prosperidade coletiva, é necessário valorizar a cultura e seus criadores.</p>
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		<title>O futuro da construção civil sem os herdeiros de quem ergueu o país</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/o-futuro-da-construcao-civil-sem-os-herdeiros-de-quem-ergueu-o-pais/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Halitane Rocha]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Mar 2026 17:30:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[instagram]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por: Rosimeire Cruz Sempre que me deparo com uma constru&#231;&#227;o, um espa&#231;o ou pr&#233;dio imponente em expans&#227;o, n&#227;o penso primeiro nos nomes que assinam o projeto. Penso em quem, de fato, colocou a m&#227;o na massa. Em quem carregou o peso, ergueu paredes, moldou estruturas e permaneceu invis&#237;vel. Por tr&#225;s de cada empreendimento, existe uma [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em><strong>Por: Rosimeire Cruz</strong></em></p>



<p>Sempre que me deparo com uma construção, um espaço ou prédio imponente em expansão, não penso primeiro nos nomes que assinam o projeto. Penso em quem, de fato, colocou a mão na massa. Em quem carregou o peso, ergueu paredes, moldou estruturas e permaneceu invisível. Por trás de cada empreendimento, existe uma história que raramente é contada, e é essa que quero contar.</p>



<p>Recentemente, a fala do CEO Luciano Amaral, do setor da construção civil — ao afirmar que “filho de pedreiro não quer mais ser pedreiro” — ecoou como crítica. Mas talvez ela diga mais sobre o próprio setor do que sobre os filhos dos trabalhadores. A questão não é a recusa ao trabalho, mas a recusa à desigualdade histórica que o acompanha, e, infelizmente, a sociedade ainda não está aberta para essa conversa.</p>



<p>A construção civil brasileira sempre foi um retrato fiel das contradições sociais do país: um setor que movimenta bilhões, e que, de acordo com o IBGE, teve alta significativa em 2025 — 5,63% um aumento de 1,65 comparado a 2024 —, mas que, historicamente, sustenta sua base em mão de obra desvalorizada. Durante décadas, naturalizou-se que aqueles que constroem não ocupassem os espaços de decisão. Não por falta de capacidade, mas por ausência de oportunidade — e, sobretudo, por um sistema que condicionou valor à posse de um diploma, o “canudo” que hierarquiza saberes e define quem manda e quem executa.</p>



<p>Nesse contexto, não surpreende que pedreiros, garis, empregadas domésticas e trabalhadores da limpeza tenham sonhado e lutado para que seus filhos trilhassem caminhos diferentes. Tornar-se “doutor” não era apenas uma ambição individual, mas um projeto coletivo de mobilidade social. Era, sobretudo, uma tentativa de romper com um ciclo de invisibilidade e subalternização.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O que eles temem?</strong></h2>



<p>Desde a implementação da Lei de Cotas&nbsp; nº 12.711/2012, o perfil do ensino superior brasileiro se transformou de forma consistente. Hoje, estudantes oriundos da escola pública — muitos deles filhos da classe trabalhadora — já representam a maioria nas universidades federais, ultrapassando 50% das matrículas. Entre esses, há um crescimento significativo de jovens negros, de baixa renda e de primeira geração no ensino superior.&nbsp;</p>



<p>É justamente esse novo horizonte, em que os filhos de pedreiros podem ser engenheiros, arquitetos, gestores ou o que desejarem, que tensiona a lógica histórica do setor. A crítica do CEO, por tanto, está mais relacionada a uma estrutura social que deseja que o rio siga pelo mesmo curso. Pois, só assim, eles seguirão lucrando enquanto a sociedade empobrece e é impedida de acessar os espaços que construiu.</p>



<p>O que está em curso agora não é um desinteresse pelo trabalho na construção civil, mas uma transformação estrutural. O jogo, de fato, mudou, e até posso afirmar que está mudando em velocidade máxima. E isso não acontece por acaso. Há uma reconfiguração das expectativas sociais, impulsionada por políticas públicas de acesso à educação, pela ampliação do debate sobre desigualdade e pela crescente consciência de direitos.</p>



<p>Mas essa mudança revela uma tensão: o setor que sempre dependeu dessa força de trabalho começa a sentir os efeitos de décadas de desvalorização. Quando os filhos daqueles que construíram o país passam a buscar outros caminhos, o que se evidencia não uma crise de interesse, mas uma crise de reconhecimento.</p>



<p>Há, ainda, um elemento que raramente é discutido: a desclassificação simbólica de profissões essenciais. Uma mistura de preconceito estrutural, herança histórica e ignorância social fez com que trabalhos fundamentais fossem tratados como menores. E, ao fazer isso, o mercado não apenas precarizou essas funções, como também afastou novas gerações delas.</p>



<p>Ao olhar para esse cenário, não vejo apenas uma defasagem de mão de obra. Vejo um sistema que, por muito tempo, se apropriou de trabalhadores altamente qualificados — mestres do ofício — enquanto os convencia de que seu saber valia menos do que o saber formal, e, com isso, alimentaram nessas camadas o desejo de que seus filhos olhassem para o topo.</p>



<p>Mas é preciso dizer, também, de onde viemos. Este texto é, antes de tudo, uma homenagem a milhões de brasileiros que ergueram este país com as próprias mãos, e, de forma especial, ao meu pai, Ercio Cruz. Mesmo sem acesso pleno à educação formal, sem ter tido a oportunidade de aprender a ler e escrever como deveria, ele se tornou uma referência na construção a seco/s<em>tell frame</em>. Lê uma planta com precisão, domina a técnica como poucos e sempre se orgulha de nunca ter feito concessões que colocassem vidas em risco.</p>



<p>Conhecido como o “Rei do Gesso”, aos 73 anos, ele ainda trabalha. Não apenas por amor ao ofício, mas por necessidade. Depois de quase seis décadas dedicadas à profissão, ajudando a erguer shoppings e empreendimentos de alto padrão, foi aposentado com apenas um salário mínimo.</p>



<p>Sua trajetória revela o descompasso que sustenta esse modelo: quem domina o fazer permanece distante do reconhecimento e da remuneração que esse saber produz. O que está em jogo agora é a ruptura dessa lógica, quando o conhecimento que sempre construiu passa, finalmente, a disputar também o direito de decidir, de ascender e de ser valorizado em todas as dimensões.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>O impacto de Pecadores no audiovisual, na cultura e na economia do povo negro</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/o-impacto-de-pecadores-no-audiovisual-na-cultura-e-na-economia-do-povo-negro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carolina Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Mar 2026 19:13:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema Negro]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://mundonegro.inf.br/?p=95409</guid>

					<description><![CDATA[<p>Por Rachel Maia O lan&#231;amento do filme Pecadores n&#227;o provocou apenas rea&#231;&#245;es est&#233;ticas ou narrativas. Especialmente ap&#243;s sua indica&#231;&#227;o ao Oscar 2026, que ampliou sua visibilidade internacional, o longa escancarou as estruturas da ind&#250;stria cinematogr&#225;fica &#8212; e, mais do que isso, revelou como o audiovisual pode impactar diretamente a cultura e a economia do povo [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Por Rachel Maia</p>



<p>O lançamento do filme <em>Pecadores</em> não provocou apenas reações estéticas ou narrativas. Especialmente após sua indicação ao Oscar 2026, que ampliou sua visibilidade internacional, o longa escancarou as estruturas da indústria cinematográfica — e, mais do que isso, revelou como o audiovisual pode impactar diretamente a cultura e a economia do povo negro.&nbsp;</p>



<p>Não se trata apenas da história contada na tela, mas daquilo que aconteceu fora dela: Ryan Coogler, o diretor, garantiu o corte final do filme e uma porcentagem dos lucros das exibições nos cinemas desde o início — diferentemente do modelo tradicional de Hollywood, no qual os diretores recebem parte dos ganhos após a comprovação do sucesso financeiro do filme.</p>



<p>Ao mesmo tempo em que o filme se propõe a discutir exploração, poder e desigualdade racial, os bastidores de sua produção ecoam essas questões, transformando a obra em um marco que vai além da tela e tensiona as estruturas do próprio mercado.</p>



<p>Em um setor historicamente marcado por assimetrias, sobretudo quando se trata de profissionais negros, essa iniciativa foi vista como uma ameaça ao modelo vigente. E isso é mais um fator que torna <em>Pecadores</em> tão relevante: o filme não apenas denuncia desigualdades, mas exige, na prática, medidas mais equitativas capazes de reestruturar a indústria. Afinal, se um projeto demonstra que é possível valorizar adequadamente roteiristas, diretores e equipes —&nbsp; o que nos faz vislumbrar um mundo mais justo para todos —, vale a ousadia.&nbsp;</p>



<div class="wp-block-cover"><img loading="lazy" decoding="async" width="1008" height="567" class="wp-block-cover__image-background wp-image-95412" alt="" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/03/image-2.png" data-object-fit="cover" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/03/image-2.png 1008w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/03/image-2-300x169.png 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/03/image-2-150x84.png 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/03/image-2-768x432.png 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/03/image-2-747x420.png 747w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/03/image-2-696x392.png 696w" sizes="(max-width: 1008px) 100vw, 1008px" /><span aria-hidden="true" class="wp-block-cover__background has-background-dim"></span><div class="wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-large-font-size">Foto: divulgação</p>
</div></div>



<p>Para Letícia Castor, jornalista e crítica de cinema, que atua no mundo corporativo como comunicadora especializada em Diversidade, Equidade e Inclusão (DE&amp;I), o filme vai na contramão do que os estúdios estão dispostos a investir.</p>



<p>“Ryan Coogler, diretor de obras como <em>Pantera Negra</em> e <em>Creed: Nascido para Lutar,</em> conseguiu trazer em um filme de horror, <em>Pecadores</em>, uma analogia sobre como aqueles com mais poder sugam a vida e os direitos dos subjugados no Mississippi da década de 1930, na era Jim Crow”, destaca Letícia, reforçando que a escolha do gênero não é acidental — é estratégica. O horror, aqui, não está apenas nas criaturas da tela. Essa escolha estética amplia a discussão e reforça que o audiovisual movimenta todo um ecossistema, já que é por meio da cultura que construímos contextualizações de inclusão e conexão com a sociedade.</p>



<p><em>Pecadores </em>opera em duas camadas. Na superfície, apresenta uma narrativa que denuncia a exploração de pessoas negras por estruturas de poder. Em um plano mais profundo, porém, o filme se torna um espelho da própria indústria que o produziu. A ficção e a realidade se cruzam de forma quase inevitável: o que é denunciado na trama se manifesta, de maneira concreta, nas reações do mercado.</p>



<p>“Ryan protegeu o trabalho de pessoas historicamente excluídas e se recusou a jogar o jogo de Hollywood, assegurando que todo lucro (cinemas, streamings, merchandising) vá diretamente para o seu bolso, e não para o dos estúdios e distribuidoras. Mais do que isso, ele protegeu a propriedade intelectual de sua criação e o legado de sua obra ao conseguir em seu acordo com a distribuidora que os direitos autorais retornassem a ele após 25 anos. E que obra! <em>Pecadores </em>bateu o recorde de indicações ao Oscar, com 16 nomeações. O filme levou para casa as estatuetas de Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora, Melhor Roteiro Original e Melhor Ator Principal para Michael B. Jordan. Aqui, temos uma vitória agridoce, já que Michael é o sexto homem negro na história do Oscar a vencer na categoria. É motivo de celebração? Com certeza. Mas é também de reflexão sobre os vieses da Academia (e de toda indústria), afinal, estamos falando da 98ª edição da cerimônia”, enfatiza a jornalista.&nbsp;</p>



<p>A resistência a mudanças estruturais não é novidade. Ao longo da história do cinema e do meio corporativo, avanços em DE&amp;I e impacto social frequentemente enfrentam barreiras — muitas vezes veladas, outras explícitas. O que diferencia o momento atual é a crescente visibilidade dessas tensões. O público está mais atento, os profissionais mais organizados e as narrativas mais conscientes de seu papel político.</p>



<p>O filme cumpre uma função que vai além do entretenimento. Ele gera discussão, provoca e, sobretudo, evidencia que oportunidade, ética e reconhecimento — quando aplicados de fato — redistribuem o poder, principalmente o econômico.</p>
<p>O post <a href="https://mundonegro.inf.br/o-impacto-de-pecadores-no-audiovisual-na-cultura-e-na-economia-do-povo-negro/">O impacto de Pecadores no audiovisual, na cultura e na economia do povo negro</a> apareceu primeiro em <a href="https://mundonegro.inf.br">Mundo Negro</a>.</p>
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		<title>Morte da médica negra retrata perfilamento racial endêmico da PM e exige aprovação imediata do PL sobre homicídio racial</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/morte-da-medica-negra-retrata-perfilamento-racial-endemico-da-pm-e-exige-aprovacao-imediata-do-pl-sobre-homicidio-racial/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carolina Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Mar 2026 19:31:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo]]></category>
		<category><![CDATA[instagram]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 1948 o lend&#225;rio Abdias do Nascimento enviou uma Carta aberta ao Chefe de Pol&#237;cia do Rio de Janeiro, na qual denunciava que: &#8221;Basta um negro ser detido por qualquer coisa insignificante &#8211; assim como n&#227;o ter uma simples carteira de identidade &#8211; para ser logo tratado como se j&#225; fosse um criminoso. Dir-se-ia que [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 1948 o lendário Abdias do Nascimento enviou uma Carta aberta ao Chefe de Polícia do Rio de Janeiro, na qual denunciava que: ”<em>Basta um negro ser detido por qualquer coisa insignificante &#8211; assim como não ter uma simples carteira de identidade &#8211; para ser logo tratado como se já fosse um criminoso. Dir-se-ia que a polícia considera o homem de cor um delinquente nato, e está criando o delito de ser negro</em>”.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mais de meio século depois o Supremo Tribunal Federal reproduzia, com outras palavras, o pungente postulado de Mestre Abdias, agora revestido de força própria de sentença proferida por nossa mais alta Corte. Disse o STF no julgamento do denominado HC do Perfilamento Racial:</p>



<p>“<em>Os policiais não podem decidir abordar pessoas apenas com base em sua raça, sexo, orientação sexual, cor da pele ou aparência física. Essa conduta discriminatória desrespeita a dignidade humana e viola outros direitos fundamentais previstos na Constituição. A revista só pode ser realizada quando a pessoa estiver em posse de arma de uso proibido ou com objetos que indiquem a prática de crime</em>.”(STF – Pleno, HC 208.240, j. 11.04.2024)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Transcorridos poucos dias deste julgamento paradigmático, a questão do racismo intencional voltou a ser tratada pelo pleno de nossa Suprema Corte, com reconhecimento explícito de discriminação racial praticada diariamente por todo o sistema de persecução penal:</p>



<p><em>“</em>(&#8230;)<strong><em>O branco, para ser considerado traficante, tem de ter 80% a mais que o preto ou pardo</em></strong><em>. (&#8230;) Isso realmente vem gerando uma discricionariedade exagerada, insisto, no início da <strong>autoridade policial, passando pelo Ministério Público e chegando ao Poder Judiciário. Todo sistema de persecução penal vem gerando discriminação, porque as medianas quantitativas são muito diferentes nos critérios de grau de instrução, idade e cor da pele</strong>. Não há razoabilidade para isso. O estudo demonstra que não há razoabilidade para isso</em>. (&#8230;)<strong><em>Por exemplo, um analfabeto negro e jovem leva desvantagem em relação a um branco maior de 30 anos, com curso superior, que pode ter, às vezes, até 136% a mais de droga. Não há razoabilidade nisso</em></strong><em>. </em>(STF – RE 635.659 – Rel. Gilmar Mendes, j. 26.6.24 – extratos do voto vista do Ministro Alexandre de Moraes)</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Analisando o fuzilamento perpetrado no último domingo, a sangue frio, que destroçou a trajetória luminosa da médica negra Dra. Andréa Marins Dias caberia perguntar, à luz destes julgados, qual seria a arma ou objetos de crime que ela levava consigo? Teria esboçado alguma reação? Teria pronunciado algo inconveniente aos ouvidos sensíveis do agente de autoridade policial que insiste em ser tratado como autoridade?</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A resposta, como sabemos, é terminanente negativa! Bastou que ela fosse negra para que o agente se sentisse autorizado – com aval de boa parte da sociedade, diga-se – a alvejá-la, ciente de que logo surgiriam as teses do “engano”, do “fato isolado”, a velhacaria dos “afastamentos temporários” e no fim da linha uma provável sentença de um tribunal militar decretandoque 257 disparos efetuados na direção de um veículo não demonstram intenção de matar – como no caso do músico Evaldo dos Santos Rosa.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como diz a famosa canção de Caetano e Gil, “Haiti”, “todos sabem como se tratam os pretos”!!!</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Há décadas o Brasil é signatário de uma Convenção para Prevenção e Repressão ao Crime de Genocídio e adotou uma lei federal que pune este tipo de crime, ambas dormitando em berço esplêndido num país em que milhões de pessoas tratam a temática racial como “mimimi”.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assombrado com a naturalização do genocídio da juventude negra no Brasil, em 2020 o Senador Paulo Paim apresentou o projeto de lei n. 5404/2020 criando uma circunstância qualificadora (espécie de agravante) do homicídio motivado por clivagem racial – exatamente como no caso da Dra. Andréa Dias e de milhares de indivíduos mortos diariamente pelo fato de serem negros.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mais do que uma qualificadora racial do homicídio, ja passa da hora de o Congresso Nacional criar um tipo autônomo de genocídio no Código Penal – a exemplo do feminicídio – com causas de aumento de pena (na hipótese de vítima criança, gestante ou idoso/a por exemplo), aplicando-lhe a Lei dos Crimes Hediondos, agravando a lei de execução penal e assegurando prioridade de tramitação.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Dra. Andréa Dias foi morta pela violência racial, por desprezo ou discriminação à sua condição racial – fosse uma loira pobre muito provavelmente estaria viva – porquanto a resposta punitiva deve ser condizente com a gravidade da conduta.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Não é aceitável que a imolação da Dra. Andréa Dias tenha sido em vão ou seja empurrada, com a passagem do tempo, para a galeria do naturalização e da impunidade – já alertava Abdias nos anos cinquenta do século passado.</p>



<p><strong>Hédio Silva Jr</strong>., Advogado, Mestre e Doutor em Direito pela PUC-SP, escritor e conferencista, é fundador do IDAFRO – Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-brasileiras e do Jusracial @drhediosilva</p>



<div class="wp-block-cover"><img loading="lazy" decoding="async" width="768" height="507" class="wp-block-cover__image-background wp-image-95369" alt="" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/03/image.png" data-object-fit="cover" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/03/image.png 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/03/image-300x198.png 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/03/image-150x99.png 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/03/image-636x420.png 636w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/03/image-696x459.png 696w" sizes="(max-width: 768px) 100vw, 768px" /><span aria-hidden="true" class="wp-block-cover__background has-background-dim"></span><div class="wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-large-font-size">Foto: OAB Campinas</p>



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		<title>O que fica depois do Dia da Consciência Negra?</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/o-que-fica-depois-do-dia-da-consciencia-negra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Silvia Nascimento]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 Nov 2025 15:47:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Let&#237;cia Castor e Rosimeire Cruz As reflex&#245;es acerca do Dia da Consci&#234;ncia Negra e de Zumbi dos Palmares &#8212; uma data que potencializa a luta do povo negro por seu lugar de direito &#8212; s&#227;o tamb&#233;m um dia de balan&#231;o e de revela&#231;&#227;o. Para onde estamos caminhando? E a quem a narrativa do racismo [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Por <a href="https://www.instagram.com/betweentwolungs_">Letícia Castor</a> e <a href="https://www.instagram.com/rosimeireecruz/">Rosimeire Cruz</a></p>



<p>As reflexões acerca do Dia da Consciência Negra e de Zumbi dos Palmares — uma data que potencializa a luta do povo negro por seu lugar de direito — são também um dia de balanço e de revelação. Para onde estamos caminhando? E a quem a narrativa do racismo importa?</p>



<p>Muitas dessas respostas estão nos nossos discursos repetidos insistentemente e exaustivamente — não por nosso desejo — uma vez que ainda somos apenas 8% nos cargos de lideranças, ainda somos apenas 11% nas universidades, ainda não chegamos ao Supremo Tribunal Federal (STF), ainda somos nós que, mesmo sendo protagonistas de tantas narrativas, seguimos sendo invisibilizados pela sociedade e pelos algoritmos.</p>



<p>Quando chegamos “lá”, todo e qualquer movimento nos coloca à prova e nos questiona se de fato aquele lugar nos pertence. O que só acontece quando a cor da pele antecede o saber. Não somos parte do seleto grupo dos 1% mais ricos do Brasil. Mas ainda somos nós que fazemos a economia girar desde os primórdios.&nbsp;</p>



<p>O Dia da Consciência Negra, que esse ano pela primeira vez engloba todo o território brasileiro, move milhões de posts, comentários, campanhas, palestras e por aí vai — o que é ótimo! Informação e ações antirracistas são sempre bem-vindas. Mas, e após o dia 20, como fica este cenário?&nbsp;</p>



<p>Para além dos discursos inspiradores e das campanhas institucionais, seguimos convivendo com estruturas que insistem em manter as mesmas hierarquias de sempre. E é aqui que números importam. Segundo o IBGE, pessoas negras representam mais de 56% da população brasileira, mas continuam sendo minoria nos espaços de decisão: ocupam menos de 30% dos cargos de liderança no país, e apenas 5% chegam aos altos postos executivos.</p>



<p>Esses dados não são apenas estatísticas; são sobre um cenário desigual que ainda trata diversidade como pauta de marketing, e não como estratégia de sustentabilidade social e econômica. Uma pesquisa da McKinsey mostra que organizações com maior diversidade racial em posições de liderança têm até 33% mais chance de superar a concorrência. Já provamos nossa capacidade, já trouxemos resultados, e o que fica evidente é que essa luta não deve ser do povo negro, e sim da sociedade brasileira.</p>



<p>O racismo não precisa de grandes acontecimentos para existir: ele opera no cotidiano, silenciosamente, moldando oportunidades, expectativas e até a forma como pessoas negras são percebidas antes mesmo de abrirem a boca. São questionadas, interrompidas e abordadas independentemente de sua classe social. Há um comportamento que impera na sociedade e que é naturalizado: o de que uma pessoa preta, não importa seu grau de conhecimento ou lugar hierárquico, está sempre a serviço. Portanto, tudo bem importuná-la com perguntas descabidas sobre sua aparência, profissão e, consequentemente, pautas racistas.</p>



<p>Podemos observar essa dinâmica em programas de debate. No <em>Saia Justa</em>, por exemplo, a vivência de raça e classe molda fortemente o discurso. É um estudo de caso que diz muito sobre a nossa sociedade: temos ali uma diversidade de mulheres e temas, e a reação de cada uma delas evidencia como suas diferentes realidades as impactam, com maior ou menor intensidade.&nbsp;</p>



<p>Quando a pauta é raça e classe social, percebemos a dor sobressaltando em Érika Januza, mulher negra retinta de origem periférica. Já Bela Gil, mulher negra nascida em uma família miscigenada, intelectual, de posses e com traços que não são identificados de imediato como características da negritude, compreende o discurso, participa ativamente, mas não transmite o sofrimento que recai sobre o tema, pois não foi afetada diretamente por ele, dado que sua pele mais clara e classe social a colocaram em uma posição mais privilegiada e protegida, como dita o colorismo.&nbsp;</p>



<p><strong>Eliana Michaelichen, Tati Machado e Astrid Fontenelle </strong>costumam se surpreender, se indignar e colaborar com a discussão — mas até a página dois. Porque, quando as câmeras desligam, elas seguem protagonistas, sem que suas existências sejam questionadas a cada passo, sem serem interpeladas na base ou terem sua legitimidade colocada à prova diariamente.</p>



<p>Já mulheres como Gaby Amarantos, Taís Araújo e Rita Batista saem das mesmas conversas com a necessidade de estarem ainda mais fortes. Precisam retornar ao cotidiano onde o debate não termina: ele continua na rua, no trabalho, nas redes e no corpo. Uma trajetória de expectativas, projeções e luta contínua para não serem únicas nos espaços de destaque.</p>



<p>Continuamos sendo atravessados pelo julgamento, pelo controle, pela dúvida. Seguimos sendo lidos como exceção quando damos certo ou como ameaça quando existimos sem pedir licença. Enquanto isso, há quem permaneça confortável apenas no discurso — especialmente nas datas comemorativas. Reconhece a importância, fala bonito, emociona, compartilha posts… mas vive as mesmas escolhas, nos mesmos círculos, e os mesmos hábitos que sustentam privilégios históricos e alimentam práticas racistas.</p>



<p>Quem não carrega as marcas dessa história precisa ir além da conscientização: precisa aprender a ceder espaço, abrir portas, questionar privilégios, mudar práticas, rever os próprios vieses inconscientes e estar disposto a mudar. Reconhecer as microagressões que recaem sobre pessoas negras e entender qual é o seu papel em sua reprodução. Revisitar o passado é fundamental, mas mapear o presente é o que possibilitará resultados futuros. Entender que representatividade importa, mas não basta; inserir pessoas negras em espaços estratégicos não é concessão, é reparação e inteligência organizacional.&nbsp;</p>



<p>Construir um Brasil onde a cor da pele não tenha relevância na tratativa, um Brasil que seja justo não apenas no discurso, mas também na prática, é um dever de todos. O que fica depois do Dia da Consciência Negra é, enfim, uma reflexão coletiva para que a mudança seja efetiva para toda sociedade brasileira.&nbsp;</p>



<p>A palavra coragem sempre esteve no topo para que o povo negro pudesse avançar. Agora, já está mais do que na hora de a sociedade brasileira tomá-la para si e ter a coragem de mudar práticas, revisar privilégios e assumir responsabilidades nos demais 364 dias do ano.&nbsp;</p>



<p>Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil</p>



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		<title>Novembro Azul: dados, riscos e como identificar precocemente o câncer de próstata</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/novembro-azul-dados-riscos-e-como-identificar-precocemente-o-cancer-de-prostata/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[(MN) Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Nov 2025 08:41:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[câncer de próstata]]></category>
		<category><![CDATA[homens negros]]></category>
		<category><![CDATA[instagram]]></category>
		<category><![CDATA[Novembro Azul]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>
		<category><![CDATA[saúde masculina]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por: Dr. Sahna Wilbonh de Barros, M&#233;dico urologista e titular da Sociedade Brasileira de Urologia&#160;(CRM-SP 144.578 / RQE 65.633) A pr&#243;stata &#233; uma gl&#226;ndula que faz parte do sistema urogenital masculino, cuja secre&#231;&#227;o comp&#245;e parte do esperma, auxiliando na fecunda&#231;&#227;o. Este &#243;rg&#227;o se localiza na pelve, anteriormente ao reto e abaixo da bexiga, envolvendo a [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong><em>Por: Dr. Sahna Wilbonh de Barros, Médico urologista e titular da Sociedade Brasileira de Urologia (CRM-SP 144.578 / RQE 65.633)</em></strong></p>



<p>A próstata é uma glândula que faz parte do sistema urogenital masculino, cuja secreção compõe parte do esperma, auxiliando na fecundação. Este órgão se localiza na pelve, anteriormente ao reto e abaixo da bexiga, envolvendo a parte inicial da uretra. Estas relações permitem que a próstata seja examinada através do reto (por meio do toque ou por equipamentos) e explicam porquê afecções da próstata têm variadas repercussões nas funções reprodutiva e urinária.</p>



<p>O tumor maligno (câncer) da próstata é uma doença de grande relevância médica e socioeconômica. Trata-se da neoplasia mais prevalente no sexo masculino, quando excluímos os tumores de pele não-melanoma (que baixa repercussão clínica). Dados do INCA (Instituto Nacional de Câncer) estimam que ocorreram cerca de 72.000 novos casos ao ano (cerca de 30% de todos os cânceres em homens no Brasil) e quase 70 novos casos para cada 100.000 homens no período de 2023 a 2025.</p>



<p>Pelo menos 1 em cada 9 homens será afetado em algum momento da vida, mas, além de sua frequência, também preocupa sua mortalidade, pois é o 2º câncer mais letal, com cerca de 16.000 óbitos anuais no país (aproximadamente 1 a cada 40 minutos).</p>



<p>Esses dados trazem a importância da conscientização sobre o tema, visto que não há estratégias bem definidas de prevenção deste tumor, embora estilo de vida saudável possa reduzir o seu aparecimento (ter alimentação saudável, praticar atividade física e evitar obesidade). Focamos então no diagnóstico precoce, com objetivo de detecção da doença nas fases iniciais (quando os índices de cura são muito elevados), porém, nesta fase, a doença não apresenta sintomas, havendo necessidade de rastreamento.</p>



<p>Este é feito por meio da combinação do exame digital da próstata e da dosagem do PSA (antígeno prostático específico). O primeiro é feito através do toque retal, que pode indicar alterações sugestivas de câncer (como a presença de nódulos), sendo um exame rápido, acessível e indolor. O segundo é a quantificação da proteína produzida pela próstata, que pode estar elevada em casos de câncer. Deve ser ressaltado que ambos são importantes e complementares, então um não substitui o outro, visto que o PSA pode estar com dosagens normais em até 20% das vezes em que há câncer.&nbsp;</p>



<p>Caso haja alteração em um desses, é fundamental seguir com a investigação complementar, que normalmente é feita com biópsia de próstata, mas que pode ser precedida de ressonância magnética do órgão (exame não invasivo e que possibilita melhor seleção dos casos suspeitos, com redução do número de biópsias desnecessárias e melhor identificação focos suspeitos da doença). Somente a biópsia pode estabelecer o diagnóstico do câncer de próstata, além de informar características que determinam o potencial de agressividade da doença. Esta estratégia é extremamente eficaz e possibilitou a queda de mortalidade pela doença nas últimas décadas.</p>



<p>A doença avançada pode se manifestar com perda de peso, fraturas ósseas, retenção urinária, disfunção erétil e presença de sangue na urina ou no esperma, por exemplo, e, muitas vezes, a cura não é possível nesses estágios.</p>



<p><strong>A Sociedade Brasileira de Urologia indica a realização de rastreamento a partir de 50 anos de idade na população masculina geral e a partir de 45 anos nos homens com fatores de risco (histórico familiar de câncer de próstata e/ou etnia negra).</strong></p>



<p>Sabe-se que a evolução clínica do câncer de próstata pode ser bastante variável, com casos que variam de indolência (tumores de baixa agressividade e baixo risco progressão, logo com mínima interferência na morbimortalidade) até doenças de agressividade elevada (com altos riscos disseminação e de mortalidade).&nbsp;</p>



<p>Por essa razão, as condutas devem ser sempre avaliadas para cada caso e o paciente deve ser informado das possibilidades dentro do cenário da sua doença. O conjunto de avaliações clínicas, laboratoriais, de imagem e os achados da biópsia são essenciais na definição de conduta. Assim, tentamos direcionar tratamentos mais agressivos para casos de maior risco, que ainda que tenham maior risco de complicações como incontinência urinária e disfunção erétil, favorecem a cura. Em casos de baixo impacto clínico, procuramos evitar o super tratamento, visto que tem maiores índices de complicação, sem necessariamente impactar na redução de mortalidade, que já seria baixa.</p>



<p>Entre as diversas opções de manejo da doença destacamos: vigilância ativa, tratamento cirúrgico (denominado prostatectomia radical e que pode ser por vias aberta, videolaparoscópica ou robótica), radioterapia, hormonioterapia e quimioterapia. Essas modalidades podem ser empregadas de maneira isolada ou combinada na busca do melhor tratamento para cada paciente, sempre visando maiores índices de cura e menores de complicações, com mais sobrevida e melhor qualidade de vida.</p>



<p></p>
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