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	<title>Arquivos Artigos - Mundo Negro</title>
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	<description>Uma mídia negra diferente!</description>
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	<title>Arquivos Artigos - Mundo Negro</title>
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		<title>Quando o palco brasileiro se parece mais com o Brasil: Musical 7 Mulheres e Um Mistério</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/7-mulheres-e-um-misterio-atrizes-negras-palco-brasileiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[(MN) Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 31 Aug 2026 17:32:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[7 mulheres e um mistério]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Rodrigo Fran&#231;a Laura Castro, Let&#237;cia Soares e Larissa Noel est&#227;o em 7 Mulheres e Um Mist&#233;rio, O Musical, e a presen&#231;a das tr&#234;s atrizes negras diz algo importante sobre a adapta&#231;&#227;o de uma obra estrangeira para o Brasil. Laura e Let&#237;cia integram o elenco principal, enquanto Larissa atua como swing. A montagem poderia simplesmente [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Rodrigo França</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Laura Castro, Letícia Soares e Larissa Noel estão em 7 Mulheres e Um Mistério, O Musical, e a presença das três atrizes negras diz algo importante sobre a adaptação de uma obra estrangeira para o Brasil. Laura e Letícia integram o elenco principal, enquanto Larissa atua como swing. A montagem poderia simplesmente reproduzir uma determinada imagem da França dos anos 1950. Escolheu outro caminho: uma história pode nascer em outro país, em outra década, e ainda assim encontrar no palco brasileiro os rostos do Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parece uma decisão simples. Historicamente, não foi.Durante décadas, atrizes negras estiveram à mercê de personagens previamente definidas pela raça e, muitas vezes, pelos estereótipos construídos em torno dela. A empregada, a mulher hipersexualizada, a subalternizada, a personagem cuja existência dramática precisava estar associada à pobreza, à violência ou ao racismo. Quando surgia uma família rica, uma história de amor, uma comédia de costumes ou uma personagem cuja raça não estava indicada no texto, a suposta universalidade frequentemente ganhava uma aparência bastante específica: branca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">7 Mulheres e Um Mistério ajuda a desmontar essa lógica sem transformar a escolha do elenco numa tese pronunciada em cena. Inspirado em <em>HuitFemmes</em>, de Robert Thomas, o espetáculo acompanha mulheres confinadas numa mansão depois de um assassinato ocorrido durante uma reunião familiar de Natal. A adaptação, músicas e letras são de Anna Toledo, com direção artística de Ricardo Grasson e Heitor Garcia. A própria adaptação amplia as motivações das personagens femininas, procurando libertá-las de uma narrativa organizada exclusivamente em torno da validação masculina.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bruna Guerin, Laura Castro, Letícia Soares, Malu Rodrigues, Paula Capovilla, Stella Miranda e Verónica Valenttino formam o elenco principal. Entre elas, Laura e Letícia podem simplesmente fazer aquilo para que foram formadas: interpretar. Podem ser sofisticadas, engraçadas, suspeitas, contraditórias, amorosas, cruéis. Podem pertencer àquela família e àquela mansão. Larissa Noel, na função exigente de swing, precisa estar preparada para assumir a cena quando convocada. Nenhuma das três precisa apresentar uma justificativa racial para estar dentro daquela ficção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E aqui aparece uma contradição antiga do nosso ofício. O teatro gosta de repetir que o ator pode ser qualquer coisa. Pode atravessar séculos, nacionalidades, classes sociais, profissões e universos que jamais experimentou pessoalmente. Essa liberdade é considerada parte da natureza da interpretação. Mas, quando artistas negros reivindicam o mesmo princípio, surgem perguntas sobre fidelidade histórica, aparência da personagem ou intenção do autor. Se atuar é justamente a arte de habitar outra existência, por que essa liberdade encontra fronteiras quando chega a nossa vez?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A discussão ganha outra dimensão num país em que 55,5% da população se declarou preta ou parda no Censo de 2022, segundo o IBGE. O palco brasileiro não precisa obedecer matematicamente à demografia nacional, porque arte não se produz por planilha. Mas a ausência recorrente de pessoas negras também não pode continuar sendo tratada como acaso estético num país de maioria negra. Quando elas desaparecem sistematicamente das famílias, dos romances, das comédias, dos musicais e das narrativas consideradas universais, existe uma escolha sendo feita, mesmo quando ninguém assume sua autoria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso Laura Castro, Letícia Soares e Larissa Noel importam aqui. Não porque devam carregar nas costas a responsabilidade de representar milhões de brasileiras negras. Exatamente o contrário. Importam porque ajudam a afirmar o direito de uma atriz negra não precisar representar outra coisa além de sua personagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O talento não tem cor, repetimos há anos. O acesso aos papéis, historicamente, teve. A mudança começa quando a primeira frase finalmente produz consequência sobre a segunda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se você quer se entreter com um espetáculo bem cantado, bem tocado, muito bem interpretado e com um visual deslumbrante, vá ao teatro assistir a 7 Mulheres e Um Mistério, O Musical. Minha indicação tem ainda um motivo especial: ver Laura Castro, Letícia Soares e Larissa Noel, três atrizes deslumbrantes, ocupando o teatro musical brasileiro em estado de excelência, com talento, técnica e presença.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A temporada segue até 4 de outubro de 2026, no 033 Rooftop, no Teatro Santander, em São Paulo, com sessões às sextas, às 20h; sábados, às 16h e 20h; e domingos, às 15h e 19h.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>El Niño e população negra: prevenir para combater desigualdades</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/el-nino-e-populacao-negra-prevenir-para-combater-desigualdades/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[(MN) Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Aug 2026 19:44:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Rachel Maia O Brasil entra em um novo per&#237;odo de aten&#231;&#227;o clim&#225;tica. O El Ni&#241;o, confirmado em junho de 2026, tem previs&#227;o de perman&#234;ncia at&#233; mar&#231;o de 2027, com maior impacto no Norte, Nordeste e no Sul. Como apontam as atualiza&#231;&#245;es de agosto do portal do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), com base nas [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Por Rachel Maia</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Brasil entra em um novo período de atenção climática. O El Niño, confirmado em junho de 2026, tem previsão de permanência até março de 2027, com maior impacto no Norte, Nordeste e no Sul. Como apontam as atualizações de agosto do portal do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), com base nas projeções do NOAA, há probabilidade igual ou superior a 90% de ocorrência de um El Niño extremo no próximo trimestre e 69% de chance de que seja um dos mais intensos desde o início dos registros, em 1950.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e pela alteração dos padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do mundo, o El Niño nos preocupa, principalmente por tornar ainda mais difícil a vida da população negra, periférica, ribeirinha, quilombola e indígena, historicamente submetida a diferentes formas de vulnerabilidade territorial e social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com o Censo 2022 do IBGE, 56,8% da população residente em favelas e comunidades urbanas era parda e 16,1%, preta. Pessoas negras, portanto, representavam 72,9% dos moradores desses territórios. Quando essa realidade se combina a déficits de infraestrutura, saneamento e habitação, além da maior exposição a áreas de risco, a capacidade de resposta aos eventos extremos também se torna desigual.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Racismo ambiental: da previsão à prevenção</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Formulado a partir de estudos realizados nos Estados Unidos e posteriormente incorporado ao debate global sobre justiça climática, o conceito de racismo ambiental surgiu na década de 1980 para analisar como critérios sociais e raciais influenciam a distribuição desigual dos impactos ambientais.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No Brasil, esse fenômeno se manifesta em um cenário resultante de décadas de ocupação desigual do território, ausência de políticas públicas e racismo estrutural, que condicionam grande parte da população negra à vida em regiões sem planejamento urbano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os estudos sobre justiça climática já nos sinalizam que essas regiões são negligenciadas, o que torna seus moradores mais suscetíveis ao agravamento do colapso socioambiental. Isso aponta para a necessidade de que, nas cidades, as periferias brasileiras recebam maior atenção por concentrarem menor cobertura vegetal, maior impermeabilização do solo e infraestrutura de drenagem insuficiente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As projeções científicas indicam que eventos extremos deverão se tornar mais frequentes e intensos em decorrência das mudanças climáticas e do aquecimento global. Se a tecnologia já permite melhorar a previsão de onde e quando determinados eventos podem acontecer, o próximo passo é utilizar esses dados para identificar quem estará mais vulnerável e direcionar investimentos preventivos para quem mais precisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Pesquisadores brasileiros unem IA e ciência para prever eventos hidrológicos&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), coordenado pelo físico e pesquisador Leonardo Santos, por meio do projeto IFAST, faz uso da inteligência artificial (IA), para aprimorar a previsão de enxurradas e inundações. Assim como, a doutoranda em Ciências da Computação Gislaine Freitas está à frente de uma pesquisa voltada à mobilidade segura, com o desenvolvimento de uma ferramenta de alerta capaz de ajudar a evitar trechos alagados durante períodos de chuva intensa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com mais de 50 pesquisadores nacionais e internacionais e 15 instituições envolvidas, a plataforma FloodcastingXAI, em operação desde 2025, está transformando grandes volumes de dados em alertas mais precisos e localizados, possibilitando a antecipação de riscos e a mitigação de impactos em tempo recorde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Temos um desafio coletivo pela frente: construir políticas de prevenção que culminem na inclusão da população diretamente afetada, tanto na formulação das políticas públicas de prevenção quanto na construção de soluções que combinem ciência, inteligência artificial, planejamento urbano, saneamento e habitação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No enfrentamento do racismo ambiental, antecipar riscos, ampliar o acesso à informação e direcionar investimentos para os territórios mais afetados não são apenas estratégias de gestão: são escolhas de justiça e responsabilidade social. Pois todo o ecossistema perde quando um de nós não volta para casa ou perde seu lar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A tecnologia pode ser uma aliada importante na prevenção de eventos climáticos. Quanto antes percebermos que a mitigação dos impactos ambientais deve priorizar quem mais precisa, mais próximos estaremos da civilidade.</p>
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		<title>O sonho de Dr. King na Marcha sobre Washington</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/o-sonho-de-dr-king-na-marcha-sobre-washington/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carolina Viana]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Aug 2026 08:50:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Marcha sobre Washington por Emprego e Liberdade completa 63 anos nesta sexta, dia em que Martin Luther King Jr. discursou diante de 260 mil pessoas. Por Ricardo C&#244;rrea Hoje completam-se 63 anos da hist&#243;rica Marcha sobre Washington por Emprego e Liberdade. Liderada por Martin Luther King Jr. e outros ativistas dos direitos civis, a [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>A Marcha sobre Washington por Emprego e Liberdade completa 63 anos nesta sexta, dia em que Martin Luther King Jr. discursou diante de 260 mil pessoas.<br></em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Ricardo Côrrea</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje completam-se 63 anos da histórica Marcha sobre Washington por Emprego e Liberdade. Liderada por Martin Luther King Jr. e outros ativistas dos direitos civis, a mobilização ocorreu no dia 28 de agosto de 1963, nos degraus do Lincoln Memorial, em Washington. O encontro reuniu cerca de 260 mil pessoas e exigia que as condições políticas e sociais da população negra estadunidense tomassem outro rumo. A segregação racial era institucionalizada sem um mínimo de pudor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os negros estavam submetidos a altos índices de desemprego, salários baixos e nem sequer tinham o direito ao voto para elegerem representantes comprometidos com a verdadeira emancipação. Ou seja, a marcha buscava a aprovação de reformas estruturais que assegurassem plenos direitos civis. Nesse dia participaram diversas personalidades e lideranças que discursaram para a multidão, mas o ponto alto do encontro ocorreu um pouco antes do encerramento. O Dr. Martin Luther King Jr. proferiu aquele que se tornaria um dos discursos mais marcantes do século XX: &#8220;Eu Tenho um Sonho&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um sonho íntimo que estava em concordância com os sonhos de milhares de negros. A eloquência do Dr. King acertou em cheio os corações ao projetar uma sociedade sem violência e discriminação em função da cor da pele; ele idealizava sensivelmente a harmonia entre negros e brancos. E foi assim que começou: &#8220;Estou feliz por estar hoje com vocês num evento que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nosso país (&#8230;)&#8221;. Em outro trecho, pontuou: &#8220;Não podemos ficar satisfeitos enquanto o negro for vítima dos horrores inexplicáveis da polícia; não podemos ficar satisfeitos enquanto o negro do Mississippi não puder votar e o negro em Nova York acreditar que não tem motivo para votar (&#8230;)&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dr. King defendia mobilizações e protestos como instrumento para conquistarem políticas que estancassem ou mitigassem as agruras do povo negro. O boicote ao ônibus em Montgomery (1955 &#8211; 1956) foi um exemplo ao mundo da eficácia desse método. Bastou os negros deixarem de utilizar o transporte público, que os segregava em benefício dos brancos (negros eram obrigados a ceder lugar aos brancos e viajar no fundo dos ônibus), que as leis naquele local mudaram; afinal, a receita dos ônibus diminuiu bastante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Marcha sobre Washington foi um sucesso e viabilizou a promulgação da Lei dos Direitos Civis (1964) e da Lei do Direito ao Voto (1965). Contudo, o sonho expresso naquele 28 de agosto não se concretizou plenamente. King foi assassinado em 1968 sem presenciar as transformações profundas pelas quais lutou. Seus anseios seguem em constante disputa. Entre avanços e retrocessos, a história provou que nem mesmo a eleição de um homem negro à Presidência dos EUA foi capaz de desmantelar a ideologia da supremacia branca. A permanência do racismo estrutural expõe a profundidade do abismo. Mas a única certeza que permanece é esta: o supremacismo não conseguiu matar o sonho de Dr. King. Ele vive!</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<item>
		<title>Ainda precisamos falar sobre a necessidade das cotas raciais?</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/cotas-raciais-por-que-ainda-sao-necessarias-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabrielly Ferraz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Aug 2026 18:58:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[ações afirmativas]]></category>
		<category><![CDATA[cotas raciais]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[igualdade racial]]></category>
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		<category><![CDATA[População Negra]]></category>
		<category><![CDATA[racismo estrutural]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Cotas n&#227;o contaminam a sociedade: elas enfrentam uma sociedade racialmente desigual O artigo &#8220;Obriga&#231;&#227;o do cumprimento de cotas contamina a sociedade&#8221;, de Miguel de Almeida, publicado pelo O Globo, apresenta as a&#231;&#245;es afirmativas como uma esp&#233;cie de desvio do princ&#237;pio da igualdade. Essa leitura, por&#233;m, parte de uma falsa oposi&#231;&#227;o: como se igualdade significasse tratar [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Cotas não contaminam a sociedade: elas enfrentam uma sociedade racialmente desigual</p>



<p class="wp-block-paragraph">O artigo<strong> <a href="https://smry.ai/oglobo.globo.com/google/amp/opiniao/miguel-de-almeida/coluna/2026/08/obrigacao-do-cumprimento-de-cotas-contamina-a-sociedade.ghtml?smryFrom=home">“Obrigação do cumprimento de cotas contamina a sociedade”, de Miguel de Almeida, publicado pelo O Globo</a></strong>, apresenta as ações afirmativas como uma espécie de desvio do princípio da igualdade. Essa leitura, porém, parte de uma falsa oposição: como se igualdade significasse tratar todos exatamente da mesma maneira, independentemente das condições históricas que produziram as desigualdades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No Brasil, cotas não criam nenhum privilégio. Elas procuram reduzir os efeitos de um sistema que, durante séculos, distribuiu privilégios de maneira racialmente desigual.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se pessoas negras foram impedidas de acumular patrimônio, acessar educação de qualidade e ocupar espaços de poder, reservar vagas é uma forma de corrigir (ainda que parcialmente), as condições de uma competição que nunca foi justa.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;Igualdade formal não basta</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A Constituição afirma que todos são iguais perante a lei. Mas essa igualdade formal não significa que todas as pessoas partam do mesmo lugar. O artigo 3º da Constituição também estabelece como objetivos da República a redução das desigualdades sociais e regionais e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação. E é justamente essa diferença entre igualdade formal e igualdade material que sustenta juridicamente as ações afirmativas. A primeira diz: “a lei deve ser igual para todos”. A segunda pergunta: “o que é necessário para que pessoas submetidas a desigualdades concretas possam, de fato, acessar os mesmos direitos?”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 2012, ao julgar a ADPF 186, o Supremo Tribunal Federal reconheceu por unanimidade a constitucionalidade das cotas raciais da Universidade de Brasília. O entendimento foi que as cotas não violam a isonomia; ao contrário, podem concretizá-la ao enfrentar desigualdades históricas e estruturais. Ou seja, as cotas são uma das ferramentas possíveis para transformar uma igualdade apenas declarada em uma igualdade efetiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O ponto de partida nunca foi o mesmo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A população negra não é simplesmente “menos bem-sucedida” devido ao acaso ou uma competição neutra. Ela foi escravizada, desumanizada e, depois da abolição, abandonada sem política ampla de integração econômica, educacional ou habitacional. A abolição não distribuiu terra, renda, moradia, escolarização ou indenização às pessoas libertas. Enquanto isso, diferentes políticas estatais e projetos eugenistas favoreceram a imigração europeia e a incorporação de trabalhadores brancos ao projeto de “modernização” nacional. O racismo brasileiro não terminou quando a escravidão foi formalmente abolida; ele continuou organizando o acesso ao trabalho, à educação, à propriedade e à representação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É nesse sentido que se pode afirmar que no Brasil, ser branco funciona como patrimônio social. Não significa que toda pessoa branca seja rica ou que toda pessoa negra seja pobre. Significa que a branquitude foi historicamente associada à humanidade plena, à respeitabilidade, à competência e ao direito de ocupar determinados lugares. Todo branco brasileiro tem o privilégio da cor. Esse patrimônio não é apenas financeiro, ele também envolve redes de contato, sobrenomes, segurança em espaços institucionais, acesso a escolas, heranças materiais e simbólicas e menor exposição à discriminação racial. Da mesma maneira, a população negra herdou não somente menos dinheiro, mas também as consequências de uma exclusão transmitida entre gerações.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Educação é reparação</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A educação é uma das principais formas de interromper a reprodução da desigualdade. Mas não se pode tratar o acesso à universidade como a maior solução dos problemas, porque até chegar à universidade exige diferentes obstáculos para a pessoa negra enfrentar. Antes de disputar uma vaga no ensino superior, estudantes enfrentam escolas com estruturas diferentes, desigualdade territorial, necessidade de trabalhar e sustentar toda uma família, insegurança alimentar, menor acesso a cursos de idiomas, preparação para vestibular e capital cultural. Além disso, famílias negras foram sistematicamente impedidas de acumular recursos que pudessem financiar a trajetória educacional de seus descendentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Lei nº 14.723/2023, que reformulou a Lei de Cotas, reconhece parte dessa realidade ao articular critérios de escola pública, renda, raça, deficiência, pertencimento indígena e quilombola. A legislação também passou a considerar a proporção desses grupos em cada unidade da federação. Assim, a cota racial não afirma que toda pessoa negra é pobre ou que nenhuma pessoa branca enfrenta dificuldades. Ela reconhece que raça continua sendo um fator estruturante das oportunidades no Brasil, inclusive quando se controla o nível de escolaridade. Existiu uma norma do período colonial brasileiro em que a ascendência negra era tratada oficialmente como um impedimento social, um “defeito de cor” que impedia que negros ocupassem posições de destaque</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os dados do IBGE são reveladores: em 2022, trabalhadores brancos recebiam, em média, R$ 20,00 por hora, enquanto pretos e pardos recebiam R$ 12,40. A desigualdade permanecia entre pessoas com ensino superior completo: R$ 35,30 por hora para brancos e R$ 25,70 para pretos e pardos. Ou seja, a educação é fundamental, mas não elimina sozinha o racismo. Mesmo depois de alcançar a universidade, pessoas negras continuam enfrentando barreiras no mercado de trabalho e diferenças de remuneração. Isso demonstra que o problema não está apenas na ““falta de qualificação”” da população negra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>dispositivo de racialidade</strong>, um conceito criado pela filósofa e ativista Sueli Carneiro não atua somente sobre a renda ou sobre o acesso ao trabalho. Ele também produz interdições intelectuais, morais e políticas, dificultando que pessoas negras sejam reconhecidas como sujeitos legítimos de conhecimento, autoridade e direitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Representatividade também transforma instituições</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O artigo questiona por que as cotas deveriam alcançar a pós-graduação, a docência, o serviço público e outros espaços profissionais. A resposta é simples: porque a desigualdade racial também está presente nesses espaços. Não basta viabilizar o acesso de pessoas aos estudos e qualificação de ensino superior, é preciso que elas estejam nas salas de aula como professoras, nos hospitais como médicas, nos tribunais como magistradas, nas universidades como pesquisadoras, nas redações como editoras e nos cargos de decisão como gestoras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A presença negra nesses lugares produz efeitos concretos:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; amplia os repertórios e os olhares das instituições;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; reduz a naturalização de perspectivas exclusivamente brancas;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; cria referências para crianças e jovens negros;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; ajuda a contribuir com um ambiente com viéses antirracista</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; abre caminhos para as próximas gerações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso não significa afirmar que toda pessoa negra terá automaticamente uma atuação antirracista nesses espaços, Uma vez que pessoas negras não são um grupo homogêneo, e representatividade não substitui formação política, fiscalização ou compromisso institucional. Mas, influencia na diversidade de vivências, repertórios e histórias em ambientes embranquecidos e elitizados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vale pensar também que a ausência sistemática de pessoas negras em posições de autoridade também nunca foi neutra. Seguindo o questionamento do artigo que afirma que hospitais, universidades ou empresas encontram dificuldades&nbsp; em encontrar profissionais negros, a pergunta precisa ser: onde estão procurando? Quais redes de recrutamento utilizam? Quem teve acesso às oportunidades de formação? Quais critérios são considerados “excelência” e quem historicamente teve condições de se adequar a tais excelências?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se há uma residência médica que pretende contratar profissionais negros e a instituição afirma que eles não existem, a resposta não deve ser desistir da política. Deve ser construir mecanismos de busca, divulgação e ampliação do acesso. Profissionais negros existem, e uma lista pública de médicas, médicos, pesquisadoras e especialistas negros pode justamente enfrentar a invisibilidade produzida pelas redes profissionais historicamente brancas. E qual rede está disposta a mudar o formato de busca e políticas de contratação?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O problema não é a cota, mas a fraude</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O artigo também pontua a fraude de cotas como um dos motivos da “contaminação da sociedade”. Casos de fraude, erros em bancas de heteroidentificação e disputas sobre pertencimento racial precisam ser discutidos com a devida seriedade. Porém, o fato de existir problemas de implementação não prova que a política seja ineficaz. Toda política pública pode ser fraudada, mal administrada ou aperfeiçoada. Isso ocorre com benefícios previdenciários, concursos, licitações e programas sociais. Ninguém conclui, por causa disso, que o Estado deve abandonar esses direitos. O caminho é aperfeiçoar os procedimentos que qualificam a boa implementação das políticas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A heteroidentificação deve seguir critérios transparentes, direito de recurso, formação das bancas, diversidade entre seus integrantes e respeito às especificidades regionais e históricas da classificação racial brasileira. Também é necessário compreender que raça, no Brasil, é principalmente uma <strong>experiência social.</strong> A maneira como uma pessoa é percebida e tratada racialmente interfere em suas oportunidades. O caso de Fabiana Cozza, citado no artigo, mostra uma disputa importante sobre colorismo, negritude e representação. Mas um episódio de conflito dentro do movimento negro não autoriza concluir que a luta por ações afirmativas seja racista “entre iguais”. O debate deve reconhecer as diferenças entre pessoas pretas, pardas e negras, sem transformar essas tensões em argumento para preservar e retirar responsabilidades deinstituições brancas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Cotas são temporárias, mas o racismo é estrutural</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A crítica de que as cotas poderiam durar indefinidamente ignora que as próprias políticas afirmativas costumam prever revisão, avaliação e aperfeiçoamento. A Lei nº 15.142/2025, por exemplo, ampliou para 30% a reserva de vagas em concursos públicos federais para pessoas negras, indígenas e quilombolas. A proposta não é criar uma sociedade organizada permanentemente por reservas de vagas para negros e pardos, e sim gradualmente modificar as condições que tornaram essas reservas necessárias. Quem sabe um dia, em um Brasil realmente igualitário, talvez as cotas deixem de ser necessárias. Mas esse dia não chegará pela simples suspensão das políticas porque pessoas que não se aplicam à elas estão se sentindo “injustiçadas”. A não necessidade da política de cotas dependerá de mudanças profundas: distribuição de renda, educação pública de qualidade, combate à discriminação, acesso à saúde e à moradia, democratização das instituições e transformação da cultura organizacional do país.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As cotas não são o ponto final da reparação histórica e sim uma medida dentro de um processo muito mais amplo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Reparação não é privilégio&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia de que as cotas criam “novos núcleos de privilégio” tenta inverter a história a partir de justificativas incabíveis à realidade brasileira. Privilégio mesmo seria ter pertencido, por gerações, ao grupo racial mais protegido pelas instituições e ainda poder interpretar essa vantagem como resultado exclusivamente individual. O famoso “mérito” o que seria uma grande coincidência somente corpos brancos serem esforçados e merecedores de tantos impactos positivos em suas vidas. As leis de cotas não entregam diploma, não elimina as avaliações, não facilitam a formação profissional e não transformam uma pessoa em médica, professora ou pesquisadora sem que ela cumpra as exigências e se qualifique em sua área. As cotas somente reduzem as barreiras de acesso em um país no qual a excelência foi estruturalmente e institucionalmente definida a partir de trajetórias brancas, redes brancas e instituições brancas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Abdias do Nascimento, intelectual negro responsável por grande parte do protagonismo negro nas esferas culturais e de debates políticos na década de 40, i discurso de democracia racial funciona como uma narrativa que encobre a continuidade do racismo e dificulta que a sociedade reconheça a marginalização da população negra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pergunta, portanto, não deveria ser por que pessoas negras estão ocupando esses espaços e sim questionar por que essas pessoas demoraram tanto para chegar e por que ainda são tão poucas? A sociedade brasileira não está “contaminada” pelas cotas, ela está ofendida por ser obrigada a enxergar uma contaminação muito mais antiga: a desigualdade racial que durante décadas foi tratada como natural, meritocrática e invisível. Reconhecer que pessoas negras foram marginalizadas não é dividir o país. É admitir que o país já foi dividido, pela escravidão, pelo racismo e pela distribuição desigual de oportunidades. As ações afirmativas não inventam essa realidade da sociedade partida, elas tentam repará-la.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referenciais teóricos para aprofundar</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; **Abdias do Nascimento** — *O genocídio do negro brasileiro*: denúncia da marginalização negra após a abolição e crítica ao mito da democracia racial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; **Lélia Gonzalez** — textos sobre racismo, sexismo, amefricanidade e formação social brasileira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; **Sueli Carneiro** — *Dispositivo de racialidade*: análise de como instituições produzem hierarquias raciais e definem quem é reconhecido como sujeito de direitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; **Florestan Fernandes** — *A integração do negro na sociedade de classes*: estudo sobre a inserção desigual da população negra no pós-abolição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; **Silvio Almeida** — *Racismo estrutural*: compreensão do racismo como componente das instituições e das relações econômicas, políticas e jurídicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; **Nancy Fraser** — debates sobre redistribuição, reconhecimento e representação como dimensões da justiça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; **Kabengele Munanga** — estudos sobre mestiçagem, identidade negra, racismo e políticas de ação afirmativa no Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; **Conceição Evaristo** — especialmente o conceito de escrevivência, útil para pensar memória, experiência e produção de conhecimento a partir de vidas negras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; **STF, ADPF 186** — referência jurídica central para a defesa da constitucionalidade das cotas raciais e da igualdade material.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; **IBGE e Ipea** — fontes estatísticas para demonstrar as desigualdades raciais em educação, renda, trabalho e acesso a posições de poder.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Como o abandono cria ranhuras na lente que enxergamos o mundo</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/abandono-marcas-afetam-forma-enxergar-mundo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[(MN) Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Aug 2026 11:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[abandono]]></category>
		<category><![CDATA[ancestralidade africana]]></category>
		<category><![CDATA[Frantz Fanon]]></category>
		<category><![CDATA[instagram]]></category>
		<category><![CDATA[obaluaê]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia negra]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por La&#237;se Brito&#160; Psic&#243;loga 03/19361&#160; O abandono promove um dos sentimentos mais amea&#231;adores da exist&#234;ncia humana, a solid&#227;o. Princ&#237;pios b&#225;sicos na condi&#231;&#227;o de sermos bichos humanos nos insere no arranjo social, enquanto mam&#237;feros precisamos de um bando, outros algu&#233;ns que nos cuide e nos ampare no desenvolvimento de uma vida inteira, n&#227;o haver&#225; fase existencial [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Por Laíse Brito </p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Psicóloga 03/19361&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O abandono promove um dos sentimentos mais ameaçadores da existência humana, a solidão. Princípios básicos na condição de sermos bichos humanos nos insere no arranjo social, enquanto mamíferos precisamos de um bando, outros alguéns que nos cuide e nos ampare no desenvolvimento de uma vida inteira, não haverá fase existencial que seremos inteiramente autônomos, a ponto de dispensarmos o contato com outro Ser da mesma espécie, se assim acontecer, a sentença de aniquilação está posta, nem que seja da consciência de si.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na tradição Iorubá narra-se a história de Omolu ou Obaluaê, que ao nascer com o corpo coberto de chagas, foi abandonado junto ao mar por sua mãe Nanã, Orixá mais velha que rege os manguezais, encontrado por Iemanjá, que ao vê-lo desprotegido e bastante machucado pelos caranguejos, o lavou com suas águas salgadas e folhas. O menino foi crescendo e escondia-se por ter o corpo cheio de marcas e cicatrizes, até que uma festividade estava para acontecer e então Ogun teve a brilhante ideia de cobrir o corpo de Omolu com palhas, pois isso o ajudaria com a vergonha que sentia de se expor e garantiria a sua ida a festa, chegando lá, um tão constrangido com tantas pessoas ficou reservado, vendo aquela cena, Iansã soprou seu vento sobre ele, e ao dançar, pipocas foram saindo das palhas e todos celebraram, pois muitos alcançaram curas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;A cosmo visão africana nos convida a entender diversos aspectos da importância da comunidade a sobrevivência, pois mesmo que o abandono nos atravesse, e nesse caso, podemos pontuar que a mãe Nanã possivelmente não tinha condições emocionais de cuidar do filho com aquela aparência, se atualizarmos para contemporaneidade, seria sugestivo dizer que ela pode ter vivido o que chamamos de depressão pós parto, assim como temos margem para falarmos do desamparo que bebês com má formação costumam viver, assim como se constrói a masculinidade hegemônica, que aos homens não é dado o cuidado e a permissão de viver plenamente suas emoções e desenvolver uma relação saudável com seus corpos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Enfim, temos múltiplos caminhos e neles também nos encontramos com a organização coletiva que as tecnologias ancestrais indígenas traz sobre ser necessário uma Aldeia para cuidar de uma criança, Iemanjá que é conhecida por ser mãe de todas as cabeças, Orí, na tradição africana, ela assume o papel que uma outra mãe não pôde desempenhar e aqui podemos simbolizar a função do maternar, que pode ser exercida por qualquer adulto disponível ao cuidado e garantias de sobrevivência de uma criança.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É sensato dizer que arranjos sociais desarticulados do cumprimento genuíno desse cuidado, deixam marcas profundas na personalidade de uma pessoa, e o Itan é honesto em trazer como é a postura de Obaluaê na vida, mais retraído, fechado, sem interações espalhafatosas, o que me faz lembrar da descrição que aparece em Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon, que descreve assim:</p>



<p class="wp-block-paragraph">”Ah! Essas lágrimas de criança que não tem ninguém para a consolar&#8230; Ele não esquecerá jamais que o colocaram desde cedo no aprendizado da solidão&#8230; Existência enclausurada, existência voltada para si mesmo e reclusa, em que aprendi cedo demais a meditar e a refletir. Vida solitária que, ao longo do tempo, se emociona demais por qualquer coisinha&#8230;Sensível interiormente por causa de vocês, incapaz de exteriorizar minha alegria ou minha dor, rejeito tudo que amo e me desvio, apesar de mim, de o tudo que me atrai.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fanon cunha a Neurose de Abandono como uma condição existência que gera sofrimento psíquico e produz um impacto relacional importante, pois o abandônico, como ele chama, é aquele que precisa de provas reinteradas de afeto e sempre desconfia que será deixado novamente. Apesar disso, o autor nos faz esperançar ao dizer que há outras formas possíveis e nelas implicam uma recriação de mundo e penso que nele precisaremos de coragem para quebrar o cárcere de uma vida solitária, a qual a solidão nos enjaulou na tentativa de roubar a nossa humanidade, se tornou a vivência que a nossa neurofisiologia ficou acostumada a reconhecer como forma de estar na vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pensando nisso, desenvolvi um trabalho para falar sobre Abandono fundamentado no Itan africano e na Neurose de Abandono de Frantz Fanon, com base no cuidado clínico que desenvolvo nesses 7 anos como psicóloga, acredito que o bom cumprir do cuidado, independente de quem tenha sido a figura social a desempenhar, restabelece a pele que faltou no desamparo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Laíse Brito é psicóloga (CRP 03/19361) e publica em @psilaisebrito. O trabalho descrito neste texto é conduzido por ela em encontro online no dia 29 de agosto, das 9h às 12h. As inscrições são feitas pelo telefone (71) 98866-7887, e a participação custa R$ 113.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>23 de agosto: o vodu e a independência do Haiti</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/vodu-independencia-haiti-revolucao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[(MN) Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2026 14:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Antirracismo]]></category>
		<category><![CDATA[haiti]]></category>
		<category><![CDATA[história]]></category>
		<category><![CDATA[instagram]]></category>
		<category><![CDATA[religiões de matriz africana]]></category>
		<category><![CDATA[revolucao haitiana]]></category>
		<category><![CDATA[vodu]]></category>
		<category><![CDATA[voodoo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Conheça como o vodu reuniu revoltosos em 1791 e impulsionou a Revolução Haitiana, marco histórico da luta contra a escravidão.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Por Hédio Silva &#8211; Advogado e presidente do Idafro e JusRacial</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>vodu</strong>, religião de matriz africana, foi o estopim da revolta de escravizados que, a partir de 23 de agosto de 1791, enfrentou o domínio colonial francês em São Domingos e deu início ao processo revolucionário que culminaria na fundação da <strong><a href="https://mundonegro.inf.br/o-haiti-esta-aqui/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">República do Haiti</a></strong>, primeiro país independente da América Latina e do Caribe a abolir definitivamente a escravidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O vodu foi essencial para cimentar uma identidade comum e agregar diferentes grupos étnicos, lideranças e revoltosos. Foi durante uma cerimônia conhecida como Bwa Kayiman (ou Bois Caïman), liderada pelo sacerdote <strong>Dutty Boukman</strong>, que milhares de revoltosos se mobilizaram para iniciar ataques, incendiar plantações, libertar escravizados e enfrentar os senhores de engenho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Morto em combate, Dutty Boukman, o <strong>Feiticeiro Negro</strong>, tornou-se um dos primeiros grandes líderes da Revolução Haitiana. Depois dele, ganharam protagonismo nomes como <strong>Toussaint Louverture</strong>, um dos maiores revolucionários das Américas, e, posteriormente, o lendário <strong>Jean-Jacques Dessalines</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Juntos, os chamados <strong>jacobinos negros </strong>enfrentaram e derrotaram o poderio militar francês. Em 1º de janeiro de 1804, consolidava-se a independência do Haiti, resultado da primeira revolução vitoriosa da história moderna conduzida por pessoas escravizadas contra o sistema colonial e escravista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A independência haitiana, que completa 222 anos em 2026, não pode ser compreendida sem reconhecer o poder agregador, a resistência e a capacidade transformadora das religiões de matriz africana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na década de 1990, o dia 23 de agosto foi instituído pela Unesco como <strong>Dia Internacional em Memória do Tráfico de Escravos e sua Abolição</strong>, em referência ao início da insurreição de 1791 e em memória das milhões de pessoas vitimadas pelo tráfico transatlântico de africanos escravizados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A história da <strong>Revolução Haitiana</strong> ajuda a compreender por que racistas e genocidas temem tanto nossas religiões: elas carregam autonomia de pensamento, altivez, insubmissão, resistência e libertação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, parafraseando <strong>Gilberto Gil </strong>e Caetano Veloso: “E todos sabem como se tratam os pretos (…) “O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui.”</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>O que salvou meu avô não foi o meu diploma</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/o-que-salvou-meu-avo-nao-foi-o-meu-diploma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dr Lucas Diniz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Aug 2026 12:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[instagram]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O primeiro grande m&#233;dico da hist&#243;ria era um homem negro e viveu 2650 anos antes de Cristo. O meu av&#244; quase n&#227;o chegou ao diagn&#243;stico por falta de dez linhas organizadas num papel. Este texto &#233; sobre as duas coisas. Por Dr. Lucas DinizO futuro est&#225; sempre come&#231;ando agora. J&#225; se imaginou, negro e negra, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><br><em>O primeiro grande médico da história era um homem negro e viveu 2650 anos antes de Cristo. O meu avô quase não chegou ao diagnóstico por falta de dez linhas organizadas num papel. Este texto é sobre as duas coisas.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Por Dr. Lucas Diniz</em><br></strong><br>O futuro está sempre começando agora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já se imaginou, negro e negra, que está lendo agora, você já se imaginou com abundância, riqueza, a ponto de transbordar seus tesouros? Pois bem, leia em voz alta: seu maior tesouro é sua saúde, e assim como tudo que tem muito valor, você precisa cuidar muito bem dela, assim como os antigos faraós guardavam suas relíquias nas pirâmides.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aliás, ali por volta de 2650 antes de Cristo já existia um grande médico, Imhotep, que também era cientista, arquiteto e astrônomo, e que foi vizir, aquele que carrega um grande peso. Já imaginam a cor do médico que vivia na antiga cidade de Mênfis no Egito, correto? Porém a maioria conhece o outro colega, o grego Asclépio, aquele do bastão com a serpente que está na porta de cada hospital deste país e que veio quase dois mil anos depois. Não conto isso para alimentar raiva em ninguém, conto porque memória também é patrimônio.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="999" height="1024" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/IMG_1657-1-999x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-98252" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/IMG_1657-1-999x1024.jpeg 999w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/IMG_1657-1-293x300.jpeg 293w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/IMG_1657-1-146x150.jpeg 146w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/IMG_1657-1-768x788.jpeg 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/IMG_1657-1-1498x1536.jpeg 1498w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/IMG_1657-1-1997x2048.jpeg 1997w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/IMG_1657-1-410x420.jpeg 410w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/IMG_1657-1-150x154.jpeg 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/IMG_1657-1-300x308.jpeg 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/IMG_1657-1-696x714.jpeg 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/IMG_1657-1-1068x1095.jpeg 1068w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/IMG_1657-1-1920x1969.jpeg 1920w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/IMG_1657-1-356x364.jpeg 356w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/IMG_1657-1.jpeg 2048w" sizes="(max-width: 999px) 100vw, 999px" /><figcaption class="wp-element-caption">Imagem gerada por IA </figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Agora deixa eu contar uma história da minha própria casa, e começo por um &#8220;causo de ignorância&#8221;, como disse o meu patriarca quando fui pedir a ele autorização para escrever isto aqui.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meu avô é um senhor negro de mais de 80 anos. Durante muitos anos ele fez apenas o exame de sangue do PSA, sem nunca passar por um urologista e sem nunca ter feito o exame de toque. Certo dia eu estava olhando os exames dele e vi que aquele número estava muito alto. Tive a sorte de ter dois dos meus melhores amigos urologistas a um WhatsApp de distância, mandei para os dois, e os dois responderam a mesma coisa, que estava alto demais e ele precisava de avaliação médica. Veio então a resistência, que é a resistência de tantos homens da geração dele: a preocupação com o bichinho se espalhar, o medo do exame de toque, a ansiedade de ouvir a palavra câncer. Mas ele foi, passou pela consulta de verdade, foi investigado como manda o protocolo, e há dois anos recebeu o diagnóstico de câncer de próstata. Hoje ele está tratado. &#8220;Que sirva de bom exemplo para outras pessoas&#8221;, me disse ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E aqui eu preciso ser bem claro, porque esse medo é comum, é antigo e ele é falso. Nem o exame de toque nem a biópsia espalham câncer. O que espalha é o tempo que se perde sem diagnóstico.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Se não fosse aquele WhatsApp e aqueles dois amigos, anjos na terra, talvez ele nunca tivesse chegado ao diagnóstico a tempo.</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">E tem uma coisa nessa história que eu preciso que você guarde, porque ela é sobre o seu corpo. Um estudo publicado em 2023 na revista Cancer, da Sociedade Americana de Câncer, acompanhou mais de 75 mil homens negros e mais de 207 mil homens brancos, e no mesmo PSA de 4 o homem negro teve 49% de chance de ter câncer confirmado na biópsia contra 39% do homem branco. Os autores calcularam a equivalência e chegaram nisto: um homem negro com PSA de 4 corre o mesmo risco de um homem branco com PSA de 13,4. Quer dizer que aquele número que parecia apenas alto no papel do meu avô já era gravíssimo para ele havia muito tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o Brasil, onde está nessa conta? O INCA estima quase 72 mil novos casos de câncer de próstata a cada ano do triênio de 2023 a 2025, e em 2020 morreram 15.841 homens da doença, algo em torno de quinze mortes para cada cem mil. Agora repare no que não existe. A própria Revista Brasileira de Cancerologia, que é do INCA, reconhece a escassez de publicação científica brasileira sobre as causas da desigualdade de acesso à saúde. Nós somos mais da metade da população deste país e a nossa desigualdade em câncer de próstata continua sendo estudada com dado de veterano americano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o ponto que interessa a você é este. Você pode não ser médico e pode não ter dois amigos urologistas no celular, mas você pode fazer exatamente o que eu fiz antes de mandar a mensagem, que foi juntar informações que estavam soltas, espalhadas em papéis de anos diferentes, e olhar para todas elas juntas. O que salvou o meu avô não foi o meu diploma, foi ter organizado o que já existia e levado a alguém que sabia ler.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como gosto muito de partilhar conhecimento, assim como Imhotep, vamos ao exercício. <br><br>Faça pela manhã, assim que acordar, com atenção. Abra qualquer inteligência artificial gratuita e escreva, linha por linha:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>MEU TESOURO DE SAÚDE NEGRA</strong></p>



<ol class="wp-block-list">
<li>minha altura e meu peso</li>



<li>minha circunferência abdominal, medida com fita na altura do umbigo</li>



<li>se eu fumo e há quanto tempo</li>



<li>se eu bebo, quanto e com que frequência</li>



<li>se faço atividade física, qual e quantas vezes por semana</li>



<li>os remédios que tomo</li>



<li>as doenças que tenho</li>



<li>as doenças do meu pai, da minha mãe e dos meus avós</li>



<li>a cidade e o bairro onde moro</li>



<li>minhas alergias e as cirurgias que já fiz</li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">E ao final você escreve assim: <em>&#8220;organize essas informações em uma lista clara e objetiva e me ajude a preparar as perguntas que eu devo fazer ao meu médico na próxima consulta.&#8221;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Repare muito bem no que você está pedindo, porque isso importa mais do que tudo que está escrito aqui. Você não está pedindo diagnóstico, e nenhuma inteligência artificial pode te dar diagnóstico. Você está pedindo organização, que é o que eu fiz com os exames do meu avô antes de mandar para os meus amigos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Três recados de médico antes de você sair correndo. Isso não substitui consulta nenhuma, porque o que você tem em mãos é um mapa, e mapa nenhum opera ninguém. Não escreva seu nome completo, CPF ou documento nessa conversa, porque tesouro a gente guarda. E leve essa lista impressa na próxima consulta, seja no SUS, na clínica popular, no convênio ou no particular, porque quem chega com dez linhas organizadas na mão transforma quinze minutos de consulta em meia hora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Primeiro o diagnóstico, depois o tratamento e se possível, sempre a prevenção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há também o risco de tudo isso ser repetido em código, e ele tem cor. A pesquisadora Joy Buolamwini, do MIT, demonstrou em &#8220;Unmasking AI&#8221; que sistemas de análise facial erram muito mais em rostos negros porque foram treinados quase sem eles, e é Frantz Fanon, de &#8220;Pele negra, máscaras brancas&#8221;, reencarnado em linha de programação. Na saúde isso já custou vida. Um algoritmo que priorizava o cuidado de mais de 200 milhões de pessoas nos Estados Unidos media necessidade pelo gasto anterior do paciente, e como o paciente negro gasta menos porque acessa menos, o sistema concluiu que ele adoecia menos. Corrigido o viés, a proporção de negros que deveriam receber cuidado intensivo saltou de 17,7% para 46,5%. O código apenas herdou a nossa desigualdade e passou a chamá-la de estatística.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Você que está acostumado a ver risco como medo, passe a ler risco como oportunidade de agir. E digo isso também para quem lê esta coluna de uma cadeira de diretoria, de uma secretaria de saúde ou de um fundo de investimento. Um estudo do IDC divulgado em junho deste ano mostra que 90% dos executivos brasileiros já apontam a inteligência artificial como o diferencial-chave do seu setor, e que a fatia do orçamento de tecnologia destinada a ela sai de 28% hoje para 45% até 2028. Esse dinheiro será gasto de qualquer maneira, e a única pergunta que segue em aberto é sobre quais rostos esses sistemas serão treinados. O buraco que o próprio INCA aponta é a oportunidade. Nós temos a população, temos os hospitais-escola, temos os pesquisadores, e falta somente a decisão de construir o dado que ainda não existe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da fórmula da vida eterna às curas de Imhotep e ao bastão de Asclépio, hoje temos ferramentas que há dez, vinte anos chamariam de magia negra. Hoje ela é a realidade negra. Para além da Black Box, hoje falamos da perspectiva do negro, no mundo negro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Escrevo do negro para o negro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então faça três coisas antes de fechar esta página. Amanhã de manhã escreva o seu TESOURO DE SAÚDE NEGRA. Depois marque a consulta e leve a sua lista impressa, porque tempo é vida. E por último compartilhe, com pretos e brancos, com pardos, amarelos e indígenas, porque diferentemente do que pregam, uma vela não perde nada ao compartilhar sua chama com outra vela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir de hoje falaremos mais sobre tempo, saúde e tecnologia, de uma perspectiva positiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O meu avô teve a sorte de ter um neto médico olhando os papéis dele. O seu avô tem você.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sejam médicos, sejam mágicos, sejam fodas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* Eu sou Dr. Lucas Diniz, cirurgião plástico facial pela USP, CRM-SP 194459, RQE 111712, pesquisador de Inteligência Artificial para Cirurgias Craniofaciais da perspectiva da população negra.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Texto de caráter informativo e educativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. História pessoal publicada com autorização do familiar citado.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Fontes</strong></p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Lee, K.M. et al. &#8220;Association of Race With Prostate Cancer Detection at a Given PSA Level&#8221;, Cancer, American Cancer Society (2023) — <a href="https://newsroom.wiley.com/press-releases/press-release-details/2023/At-the-same-PSA-level-Black-men-are-more-likely-to-have-prostate-cancer-than-white-men/default.aspx">Wiley Newsroom</a></li>



<li>INCA, Estimativa 2023, Incidência de Câncer no Brasil (72 mil casos novos de próstata a cada ano do triênio 2023–2025) — <a href="https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/noticias/2022/inca-estima-704-mil-casos-de-cancer-por-ano-no-brasil-ate-2025">INCA</a></li>



<li>Radar do Câncer, mortalidade por câncer de próstata no Brasil, 15.841 óbitos em 2020 — <a href="https://www.radardocancer.org.br/cancer-prostata">Radar do Câncer</a></li>



<li>INCA, &#8220;Câncer de Próstata e Equidade Racial: Análise das Barreiras de Acesso aos Cuidados de Saúde&#8221;, Revista Brasileira de Cancerologia — <a href="https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/view/5391">RBC/INCA</a></li>



<li>Buolamwini, J.; Gebru, T. &#8220;Gender Shades&#8221; (MIT, 2018) — <a href="https://news.mit.edu/2018/study-finds-gender-skin-type-bias-artificial-intelligence-systems-0212">MIT News</a></li>



<li>Obermeyer, Z. et al. &#8220;Dissecting racial bias in an algorithm used to manage the health of populations&#8221;, Science (2019) — <a href="https://www.science.org/doi/10.1126/science.aax2342">Science</a></li>



<li>Fanon, F. &#8220;Pele negra, máscaras brancas&#8221; (1952)</li>



<li>IDC, &#8220;Impacto nos Negócios pela Adoção de IA no Brasil&#8221; (Microsoft Brasil, 08/06/2026) — <a href="https://news.microsoft.com/source/latam/noticias-da-microsoft/88-dos-executivos-brasileiros-acreditam-que-a-ia-sera-principal-motor-de-competitividade-ate-2030-aponta-estudo-da-idc/?lang=pt-br">Microsoft News</a></li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A histórica Geni de Valéria Barcellos; como a escalação da atriz trans e negra amplia a História do maior musical brasileiro</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/historica-geni-valeria-barcellos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[(MN) Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Aug 2026 09:25:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[chico buarque]]></category>
		<category><![CDATA[cultura negra]]></category>
		<category><![CDATA[instagram]]></category>
		<category><![CDATA[jorge farjalla]]></category>
		<category><![CDATA[opera do malandro]]></category>
		<category><![CDATA[representatividade trans]]></category>
		<category><![CDATA[teatro musical]]></category>
		<category><![CDATA[valeria barcellos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Valéria Barcellos brilha como Geni na nova montagem de Ópera do Malandro. Veja como a escalação da atriz trans amplia a história do clássico musical.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Por: Luh Maza</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta coluna tem como eixo principal a curadoria. Escolha a recomendação cuidadosa de obras e artistas a conhecer e seguir. Então, aqui vai uma indicação imperdível para todos que estiverem no Rio de Janeiro: a remontagem do maior musical brasileiro: <strong>Ópera do Malandro</strong>, em uma encenação autoral do diretor Jorge Farjalla (Clara Nunes &#8211; A Tal Guerreira; Brilho Eterno) com Valéria Barcellos (Titaníque; A Palavra Que Resta) brilhando no elenco como Geni. </p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="768" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/02Geni_Divulgacao_Priscila_Prade_2-1024x768.png" alt="" class="wp-image-98215" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/02Geni_Divulgacao_Priscila_Prade_2-1024x768.png 1024w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/02Geni_Divulgacao_Priscila_Prade_2-300x225.png 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/02Geni_Divulgacao_Priscila_Prade_2-150x113.png 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/02Geni_Divulgacao_Priscila_Prade_2-768x576.png 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/02Geni_Divulgacao_Priscila_Prade_2-560x420.png 560w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/02Geni_Divulgacao_Priscila_Prade_2-80x60.png 80w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/02Geni_Divulgacao_Priscila_Prade_2-696x522.png 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/02Geni_Divulgacao_Priscila_Prade_2-265x198.png 265w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/02Geni_Divulgacao_Priscila_Prade_2.png 1040w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Foto: Divulgação/Priscila Prade</figcaption></figure>



<h2 id="h-sobre-a-opera" class="wp-block-heading"><strong>Sobre a Ópera</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Chico Buarque escreveu o musical em 1978, encerrando um ciclo precedido por outras joias como Gota d’Água, Roda Viva e Calabar. Ele se inspirou na Ópera dos Mendigos de John Gay, mas, principalmente, em A Ópera dos Três Vinténs de Bertold Brecht, misturando a sátira política alemã dos anos 1920 ao Brasil corrupto e melodramático, com o Rio de 1940 de pano de fundo, com malandros-heróis e prostitutas como mocinhas. </p>



<p class="wp-block-paragraph">A montagem original, dirigida por Luís Antônio Martinez Corrêa, trazia a então companheira de Chico, Marieta Severo, como Teresinha, e uma exuberante Elba Ramalho, como Lúcia, as duas responsáveis pela primeira versão de uma das canções que transcenderam da dramaturgia à música popular brasileira: “O Meu Amor”. Uma, herdeira de um bordel, outra, profissional do sexo. O amor? O contraventor Max Overseas (Otávio Augusto) &#8211; herói dessa tragicomédia. </p>



<h2 id="h-geni-a-pioneira" class="wp-block-heading"><strong>Geni, a pioneira</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Entre tantas audácias para o Brasil sob a Ditadura Militar, Chico guardava uma surpresa que só seria revelada na estreia: a travesti Geni &#8211; personagem com nome feminino para uma voz tida como “masculina”. Mais: memórias de Madame Satã (1900–1976) também inspiraram Chico, o que nos ajuda a compreender a personagem como travesti, à luz da iconografia da época.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Geni não é uma personagem pequena; ela é amiga do “mocinho” e convive com o “vilão”, tendo função dramática fundamental para a resolução da trama principal. Mais: Geni tem um momento só seu, um à parte de toda estrutura da história de amor protagonista, para narrar seu passado: “Geni e o Zepelim”, outra música que atravessou o teatro para gravações da MPB.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O refrão, “joga pedra na Geni”, sintetiza a voz da sociedade moralista e hipócrita que hostiliza a personagem até ser ameaçada pelo comandante de um zepelim que escolhe justamente Geni. Ela se torna a salvação de todos, mas depois da partida do veículo prateado, volta a ser violentada, apedrejada. Uma analogia sobre como boa parte do mundo ainda trata pessoas à margem de uma dita “normatividade”. Uma das primeiras representações trans na dramaturgia brasileira, Geni ainda hoje é poderosa e muito necessária.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O anúncio de uma nova montagem do clássico, dessa vez pelas mãos de Jorge Farjalla, despertou frisson com a pergunta “Quem será Geni?”. Sabendo do bom senso dos envolvidos, pela primeira vez, não veríamos um “transfake” (quando um ator cisgnênero interpreta uma personagem trans). E de fato, é impressionante e emocionante a generosa quantidade de excelentes atrizes e cantoras trans no Brasil hoje, aumentando a dúvida.</p>



<h2 id="h-o-encontro-de-valeria" class="wp-block-heading"><strong>O encontro de Valéria</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo a atriz e cantora gaúcha Valéria Barcellos, ela própria procurou o diretor se apresentando como alguém que se preparou durante toda vida para viver a personagem. O movimento assertivo é digno de uma Geni! Mas acho que esse encontro já estava predestinado: na internet, há uma emocionante gravação ao vivo, de 2022, mostra Valéria, acompanhada pelo violão de Rafael Erê, construindo toda história de Geni só com sua voz teatral e suas emoções mais sinceras. <br><br>Anos depois, no palco, Valéria é senhora como Geni. Confortável, flui com graça pelo texto e joga de igual para igual com os parceiros de cena como Totia Meireles e José Loreto (Vitória Régia e Max). Valéria tem frescor próprio em uma encenação de tons circenses. É aquela que deixa entrever a melancolia do palhaço. Uma atuação e voz maduras que a posicionam como uma das grandes atrizes dos musicais brasileiros. Na bem sucedida encenação de Farjalla &#8211; que mescla elementos da farsa e da religiosidade afro -, Valéria Barcellos é o maior destaque. </p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="853" height="1024" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/03Geni_Divulgacao_GattuFilmes-1-853x1024.png" alt="" class="wp-image-98218" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/03Geni_Divulgacao_GattuFilmes-1-853x1024.png 853w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/03Geni_Divulgacao_GattuFilmes-1-250x300.png 250w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/03Geni_Divulgacao_GattuFilmes-1-125x150.png 125w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/03Geni_Divulgacao_GattuFilmes-1-768x922.png 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/03Geni_Divulgacao_GattuFilmes-1-350x420.png 350w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/03Geni_Divulgacao_GattuFilmes-1-150x180.png 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/03Geni_Divulgacao_GattuFilmes-1-300x360.png 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/03Geni_Divulgacao_GattuFilmes-1-696x836.png 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/03Geni_Divulgacao_GattuFilmes-1.png 1000w" sizes="(max-width: 853px) 100vw, 853px" /><figcaption class="wp-element-caption">Fotos: Divulgação/Gattu Filmes</figcaption></figure>



<h2 id="h-uma-geni-historica" class="wp-block-heading"><strong>Uma Geni histórica</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">E o diretor demonstra consciência política de seu tempo, dando uma dimensão ainda maior a presença de Geni, tornando seu número o ponto mais alto da jornada do espetáculo. Se, em diferentes momentos, Farjalla baseia sua estrutura num número de canção em paralelo à representação cênica do que é cantado, em “Geni e o Zepelim” essa linguagem alcança a apoteose.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Valéria surge altiva e vulnerável com uma qualidade vocal irrepreensível. O excelente arranjo de Gui Leal segue o original, mas o adapta com precisão à voz de Valéria, mantendo a clareza na comunicação de cada palavra &#8211; algo fundamental para o teatro musical. Também é belo o trabalho com a percussão mais ao final e o coro a capella. “Geni e o Zepelim”, com uma rasgante Valéria Barcellos, merece uma gravação &#8211; na verdade toda esta Ópera do Malandro.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chegando mesmo a tremular a bandeira trans em cena como ao fim de uma guerra, a cena causa tamanha catarse que, no dia que assisti, algumas pessoas &#8211; eu me incluo &#8211; aplaudiram de pé o número protagonizado por Valéria e seu duplo, a Geni jovem que representa a canção com a trupe, Marina Mathey. Aqui também é preciso destacá-la: sua máscara facial e partitura física expressam toda ingenuidade, medo, dor e resignação. Marina também é a eventual substituta de Valéria como Geni e tem um humor cheio de picardia em sua cena como Dorinha Tubão.&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/04Geni_Divulgacao_GattuFilmes-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-98217" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/04Geni_Divulgacao_GattuFilmes-1024x684.jpg 1024w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/04Geni_Divulgacao_GattuFilmes-300x200.jpg 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/04Geni_Divulgacao_GattuFilmes-150x100.jpg 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/04Geni_Divulgacao_GattuFilmes-768x513.jpg 768w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/04Geni_Divulgacao_GattuFilmes-629x420.jpg 629w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/04Geni_Divulgacao_GattuFilmes-696x465.jpg 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/04Geni_Divulgacao_GattuFilmes-1068x713.jpg 1068w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2026/08/04Geni_Divulgacao_GattuFilmes.jpg 1536w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Fotos: Divulgação/Gattu Filmes</figcaption></figure>



<h2 id="h-mais-por-ai" class="wp-block-heading"><strong>Mais por aí</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Outra presença recentes da personagem foi na Mini Ball da Geni (dirigida por esta autora) onde, interpretada Olívia Lopes, Geni se tornou Mestre de Cerimônias de um concurso da cultura Ballroom na Biblioteca Mário de Andrade e no CPT &#8211; Centro de Pesquisa Teatral do Sesc, em São Paulo. E vem mais por aí: o aguardado filme Geni e o Zepelim (dirigido por Anna Muylaert), após polêmicas, traz a atriz trans e negra Ayla Gabriela como Geni, ao lado do Comandante, vivido por Seu Jorge. </p>



<h2 id="h-servico-nbsp" class="wp-block-heading"><strong>Serviço&nbsp;</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ópera do Malandro</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quinta, Sexta e Sábado às 20h00, Sábado às 16h00, Domingo às 15h30 e 19h30<br>Teatro Multiplan &#8211; VillageMall &#8211; Av. das Américas, 3900 &#8211; Barra da Tijuca &#8211; Rio de Janeiro/RJ<br>Ingressos entre R$ 25 e R$ 350<br>Sympla:<a href="https://bileto.sympla.com.br/event/122813/d/394821"> https://bileto.sympla.com.br/event/122813/d/394821</a><br>Até 30/08<br><br><em>* Luh Maza é dramaturga e cineasta. Escreveu críticas de arte entre 2009 e 2012 para veículos como o Caderno Teatral e o portal Yahoo! Brasil. Integra a dissertação de mestrado da UFRGS: “Aspectos da crítica teatral brasileira na era digital”, de Helena Maria Mello. Também foi jurada do Prêmio Shell de Teatro no biênio 2022-2023, como primeira pessoa trans no Brasil e primeira pessoa negra em São Paulo. Foi curadora nas secretarias de cultura de São Paulo e Curitiba, no SESI, na MIT-SP, entre outras instituições, mostras e festivais de teatro e audiovisual. <strong><br></strong></em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<item>
		<title>Caso de Jason Arday nos lembra que entrar não significa pertencer</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/caso-jason-arday-racismo-institucional-universidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[(MN) Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 19 Aug 2026 13:45:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[cambridge]]></category>
		<category><![CDATA[diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[instagram]]></category>
		<category><![CDATA[jason arday]]></category>
		<category><![CDATA[pertencimento]]></category>
		<category><![CDATA[racismo institucional]]></category>
		<category><![CDATA[universidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://mundonegro.inf.br/?p=98191</guid>

					<description><![CDATA[<p>O caso de Jason Arday em Cambridge revela como o racismo institucional atua na universidade. Entrar em um espaço histórico não garante o pertencimento.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Por: Rodrigo França</strong></em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://mundonegro.inf.br/jason-arday-professor-negro-cambridge-morre-investigacao-plagio/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Jason Arday</a></strong> chegou a Cambridge carregando uma biografia que contrariava a paisagem histórica de uma instituição fundada há mais de oito séculos. Homem negro, autista, professor de Sociologia da Educação, tornou-se, aos 37 anos, o professor negro mais jovem da história da universidade. Sua nomeação foi celebrada como sinal de transformação. Cambridge podia olhar para Arday e apresentar ao mundo uma fotografia conveniente de si mesma: uma universidade secular finalmente capaz de reconhecer que inteligência, produção de conhecimento e excelência também têm outros rostos. A fotografia funcionou enquanto produziu prestígio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando surgiram acusações de plágio e questionamentos sobre aspectos de sua trajetória acadêmica e pessoal, Arday deixou rapidamente de representar apenas a diversidade que Cambridge parecia orgulhosa de anunciar. Sua história passou a alimentar uma disputa maior sobre mérito, inclusão e políticas de igualdade. O professor foi investigado, sua produção foi examinada, suas qualificações foram questionadas e episódios de sua vida foram submetidos a um escrutínio público que ultrapassou a discussão sobre eventuais irregularidades acadêmicas. A lupa deixou de procurar somente o erro e começou a percorrer o homem inteiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dias depois de renunciar ao cargo, Jason Arday morreu aos 41 anos. A polícia britânica informou que sua morte era inesperada e não estava sendo tratada como suspeita. Sua família denunciou uma campanha de assédio e desinformação. O próprio Arday havia relatado o peso de viver sob escrutínio constante. Seria irresponsável estabelecer uma relação causal entre esse processo e sua morte sem evidências que a sustentem. Seria igualmente irresponsável observar tudo o que aconteceu antes dela e reduzir o episódio a uma controvérsia sobre integridade acadêmica.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Integridade acadêmica deve ser cobrada de qualquer pesquisador. Plágio é grave, currículos podem ser verificados e nenhum enfrentamento ao racismo exige que pessoas negras sejam poupadas da responsabilidade por seus atos. A questão que seu caso impõe está em outro lugar: em que momento a responsabilização deixa de examinar aquilo que alguém fez e passa a investigar se aquela pessoa deveria ter chegado onde chegou?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa fronteira é conhecida por pessoas negras que ocupam espaços historicamente brancos. Há uma espécie de credencial provisória que acompanha muitas dessas trajetórias. O diploma não encerra a suspeita, o mestrado não encerra, o doutorado tampouco. O cargo, a publicação de livros e o reconhecimento profissional podem aumentar a vigilância em vez de eliminá-la. Existe uma banca invisível funcionando depois da banca oficial, examinando competência, comportamento, linguagem, temperamento, aparência e pertencimento. A pessoa chega, mas continua precisando demonstrar que sua chegada não foi um equívoco.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa é uma das perversidades mais sofisticadas do racismo institucional: exigir excelência de quem já precisou ser extraordinário para atravessar a porta. A pessoa negra aprende que não lhe basta realizar o trabalho. Precisa conhecer os códigos que ninguém explicou, saber mais para que sua inteligência seja reconhecida, errar menos para que sua competência não seja questionada e administrar cuidadosamente a reação diante da violência para que sua resposta não se transforme numa acusação contra ela própria. O desgaste não nasce apenas do grande episódio racista. Nasce também da repetição cotidiana da suspeita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pessoas brancas podem fracassar individualmente sem que seu fracasso convoque a branquitude inteira para o julgamento. Um professor branco pode cometer uma irregularidade acadêmica e continuar sendo um professor que cometeu uma irregularidade. Sua conduta pode ser investigada, sua carreira pode sofrer consequências e sua reputação pode ser atingida sem que alguém utilize seu caso para perguntar se pessoas brancas deveriam ocupar universidades. A racialização do erro acontece quando a falha de uma pessoa negra começa a ser utilizada como evidência contra a presença negra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É nesse ponto que o caso Arday se torna maior do que Arday. Sua ascensão havia sido transformada em símbolo. Depois, sua queda também foi. Setores contrários às políticas de diversidade encontraram no episódio matéria para discutir se sua contratação teria sido favorecida pela busca institucional por representatividade. O homem que antes funcionava como demonstração do avanço de Cambridge passou a servir, para seus adversários, como demonstração dos supostos perigos desse avanço. A mesma raça que ajudara a transformar sua nomeação em notícia passou a participar da narrativa construída sobre sua deslegitimação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não precisamos fabricar inocentes para reconhecer essa violência. Esse ponto é fundamental porque o antirracismo perde força quando acredita que só consegue defender pessoas negras perfeitas. A dignidade não pode ser prêmio concedido àqueles que jamais erraram. Arday podia ser contraditório, podia ter cometido falhas e deveria responder por irregularidades que fossem comprovadas. Humanidade significa também possuir o direito de ser responsabilizado na proporção dos próprios atos, sem que um erro autorize a sociedade a reexaminar toda a sua existência em busca da fraude original que supostamente explicaria como aquele homem negro conseguiu chegar tão longe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O racismo contemporâneo tornou-se competente em utilizar palavras aparentemente neutras. Mérito, excelência, preparo, qualidade e critérios podem expressar preocupações legítimas. Também podem funcionar como instrumentos de conservação quando são acionados seletivamente. É curioso observar como determinadas instituições descobrem uma devoção quase religiosa pela meritocracia justamente quando pessoas que historicamente permaneceram do lado de fora começam a atravessar seus portões. A pergunta relevante não é se o mérito deve existir, e sim quem historicamente teve o poder de defini-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Universidades antigas foram construídas por redes de pertencimento que atravessam gerações. Sobrenomes, escolas frequentadas, relações familiares, indicações, amizades, repertórios culturais e condições materiais de estudo sempre participaram da formação das elites intelectuais. Quando esses privilégios se repetem durante séculos, deixam de parecer privilégios. Ganham aparência de normalidade. O estudante negro ou o professor negro chega depois e encontra uma instituição que chama de mérito aquilo que, muitas vezes, também foi produzido por acesso acumulado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Brasil conhece profundamente essa engrenagem. As políticas de cotas alteraram a composição das universidades e produziram uma das transformações sociais mais relevantes das últimas décadas. Pessoas que durante gerações tiveram sua inteligência mantida do lado de fora começaram a ocupar salas de aula, laboratórios, programas de pós-graduação e espaços de pesquisa. A presença aumentou, mas a cultura institucional não se transforma na mesma velocidade de uma política pública. É possível modificar quem entra sem modificar completamente as relações de poder encontradas por quem chegou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, a experiência brasileira não está distante de Cambridge. A universidade pode celebrar a diversidade em campanhas institucionais enquanto mantém bibliografias onde intelectuais negros aparecem como exceção. Pode receber estudantes negros e continuar oferecendo poucas referências negras entre seus professores. Pode defender igualdade racial publicamente e conservar formas de reconhecimento intelectual nas quais determinados saberes, sotaques, repertórios e trajetórias continuam sendo tratados como naturalmente superiores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A violência acadêmica possui uma particularidade: aprendeu a vestir formalidade. Nem toda exclusão precisa chegar acompanhada de uma ofensa racial. Ela pode estar na ideia ignorada numa reunião e valorizada quando reaparece na voz de outra pessoa, na surpresa diante de uma argumentação sofisticada, na cobrança desproporcional, na orientação que desencoraja, na banca que muda a régua conforme quem está sentado diante dela, na suspeita sobre a contratação e na necessidade permanente de explicar como alguém conseguiu chegar ali. Nenhum desses acontecimentos isolados parece suficiente para descrever uma estrutura. A repetição deles durante anos é capaz de produzir uma existência profissional inteira sob vigilância.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E isso adoece. Existe um custo psíquico em trabalhar enquanto se administra a própria legitimidade. Há diferença entre dedicar energia intelectual a uma pesquisa e precisar reservar parte dessa energia para interpretar o ambiente, antecipar preconceitos, escolher quando reagir, calcular as consequências de uma denúncia e decidir quais violências serão enfrentadas e quais precisarão ser engolidas para que seja possível continuar. O racismo acadêmico não precisa expulsar alguém fisicamente da universidade para cumprir sua função. Pode mantê lo dentro dela e consumir silenciosamente uma parcela de sua inteligência apenas para sobreviver ao lugar onde deveria ter liberdade para pensar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa violência ganha outra dimensão quando a pessoa negra se torna excepcionalmente visível. Quanto maior a ascensão, maior pode ser a expectativa de exemplaridade. Surge a obrigação de representar uma coletividade inteira. O sucesso deixa de ser somente individual e o erro também. Poucas experiências são tão desumanizadoras quanto perceber que outras pessoas têm direito à banalidade enquanto você precisa transformar a própria vida numa demonstração permanente de competência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cambridge celebrou Jason Arday como o professor negro mais jovem de sua história. Essa formulação importa. A universidade não apresentou somente um professor. Sua negritude fazia parte do acontecimento institucional. Ela produzia significado, prestígio e uma narrativa de transformação. Por isso, existe uma questão ética incontornável quando instituições utilizam pessoas negras como símbolos de avanço: a responsabilidade não pode terminar na fotografia da contratação. Diversidade sem pertencimento corre o risco de transformar pessoas em peças de comunicação de estruturas que continuam despreparadas para protege-las quando a celebração termina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O caso de Jason Arday não oferece uma história simples, e é justamente por isso que merece reflexão. Houve, segundo acadêmicos de Cambridge e familiares, ataques racistas e uma campanha de hostilidade que ultrapassou a crítica acadêmica.&nbsp; Há uma perversidade histórica em permitir que pessoas negras atravessem portas que permaneceram fechadas durante séculos e, depois da entrada, submetê-las a um regime permanente de comprovação. Primeiro se exige que sejamos excepcionais para chegar. Depois, exige se que continuemos excepcionais para permanecer. Finalmente, quando erramos, o erro é utilizado para confirmar a suspeita que existia antes mesmo de nossa chegada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É por isso que a história de Jason Arday atravessa o oceano e encontra o Brasil com tanta facilidade. Ela nos obriga a abandonar a celebração confortável do acesso e observar aquilo que acontece depois. Uma universidade não se torna democrática porque pessoas negras conseguiram entrar. A transformação começa quando elas podem permanecer, produzir conhecimento, discordar, ensinar, ocupar poder, cometer erros, responder por eles e continuar sendo reconhecidas em sua humanidade sem enfrentar diariamente um exame secreto de merecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante muito tempo, a pergunta brasileira foi como colocar pessoas negras dentro da universidade. Conseguimos produzir respostas importantes para isso. O nosso desafio agora é mais profundo: construir instituições nas quais atravessar o portão não signifique passar o restante da vida provando que tínhamos o direito de atravessá-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jason Arday chegou a Cambridge. Sua história expõe a distância brutal que ainda pode existir entre ser admitido e ser reconhecido como pertencente. O racismo institucional habita justamente essa distância. Ele já não precisa manter todas as portas fechadas. Em muitos casos, aprendeu a permitir a entrada e transferir a violência para aquilo que acontece depois dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Treinar junto é aquilombar: os coletivos negros e a ciência explicam a importância do exercício em grupo</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/treinar-junto-e-aquilombar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[(MN) Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 19 Aug 2026 09:50:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[aquilombamento]]></category>
		<category><![CDATA[coletivos negros]]></category>
		<category><![CDATA[exercício físico]]></category>
		<category><![CDATA[hhwc]]></category>
		<category><![CDATA[hip hop workout collective]]></category>
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		<category><![CDATA[saude negra]]></category>
		<category><![CDATA[treino em grupo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entenda por que treinar em coletivos negros aumenta a adesão aos exercícios e como o aquilombamento transforma a prática de atividades físicas em saúde.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Por Caroline Araujo Amorim</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A ciência do exercício mostra que grupo de verdade sustenta a prática melhor do que aula de academia. Os coletivos negros já sabiam disso sem precisar de metanálise.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A pergunta que eu mais escuto de quem quer começar a treinar em grupo é se pode ir sozinha. Vem quase sempre meio sem jeito, como quem pede licença: “eu vou sozinha mesmo, tudo bem?”&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo bem, e a minha resposta é sempre a mesma. Ir sozinha não é a mesma coisa que ficar sozinha depois que chega, e essa distância entre uma coisa e outra é justamente o que muda quando o coletivo foi pensado para a população negra. A pessoa atravessa a porta sem conhecer ninguém e, no fim do treino, já tem gente sabendo o nome dela e perguntando se ela volta na semana seguinte.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas me contaram depois, quando já estavam à vontade, que tinham tentado academia antes e não conseguiram continuar. Os motivos que aparecem nessas conversas costumam ser bem concretos: mensalidade que pesa no orçamento, horário que não cabe na jornada, o trajeto de volta para casa no escuro, a sensação de estar num lugar onde não conhece ninguém e onde o corpo anunciado na parede não se parece com o seu. Nada disso é falta de disciplina, é a soma de coisas que tornam a permanência mais cara para umas pessoas do que para outras.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu venho defendendo há tempos que treino de força não é luxo estético, e sim construção de autonomia para os próximos trinta anos. Só que descobrir isso não resolve nada se a pessoa não conseguir permanecer, e é aí que essa conversa precisa mudar de lugar. O nosso problema com o exercício raramente é começar. É continuar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ciência do exercício tem uma resposta para isso, e ela é mais interessante do que parece. Uma metanálise clássica da área, feita por <strong>Burke </strong>e colegas, reuniu 44 estudos com mais de 4.500 participantes para comparar contextos de prática, e o resultado não foi simplesmente que em grupo é melhor do que sozinho. Foi mais fino: exercitar-se num grupo de verdade foi superior a fazer aula estruturada de academia, e a aula estruturada não se diferenciou de treinar em casa com algum contato. A adesão foi o desfecho mais beneficiado de todos. </p>



<p class="wp-block-paragraph">A diferença está aí, nesse detalhe. Estar numa sala com trinta pessoas não é a mesma coisa que pertencer a um grupo, e uma aula em que as pessoas mal se conhecem tende a não entregar esse efeito. O que entrega é coesão, vínculo, gente que percebe quando você falta. A literatura da minha área chegou, por caminho técnico, numa coisa que a população negra pratica neste país há mais de quatrocentos anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O quilombo nunca foi só esconderijo. Em 1985, num texto publicado na revista <em>Afrodiáspora</em>, a historiadora<strong> Beatriz Nascimento</strong> fez um movimento que mudou o jeito de olhar para o tema: ela mostrou como o quilombo deixa de ser apenas uma instituição do período colonial e vira princípio ideológico, uma forma de resistência cultural que reaparece ao longo do século XX sempre que pessoas negras se organizam para construir junto o que não recebem separadas. Ela seguiu esse fio no documentário <em>Ôrí</em>, de 1989, dirigido por <strong>Raquel Gerber</strong>, em que narra e assina o roteiro, e onde trabalha também a ideia de corpo como território para quem teve a terra tirada. Alguns anos antes, em 1980,<strong> Abdias Nascimento</strong> já havia proposto o quilombismo como projeto político, e não como lembrança de museu. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Aquilombar-se, nessa leitura, é reunir-se para existir com mais folga do que se existiria sozinho. E é exatamente o que os coletivos negros de atividade física estão fazendo hoje.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E não sou eu quem está inventando essa ponte entre quilombo e saúde. Pesquisadoras e pesquisadores ligados à Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz publicaram, em 2023, uma revisão sobre o aquilombamento como ferramenta de resistência e de promoção de saúde da população negra. Eles partem do quilombismo de Abdias Nascimento e da leitura de Beatriz Nascimento para descrever o aquilombamento como um movimento que resgata saberes ancestrais, coletiviza dores e enfrenta o racismo estrutural, que a própria revisão trata como o principal determinante social de saúde da população negra. A conclusão vai além do que se costuma imaginar: além do aquilombamento que as pessoas negras já praticam como modo de vida, é preciso aquilombar também os currículos, as epistemologias científicas, os espaços e as políticas de atendimento à saúde.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se dá para aquilombar um currículo e um serviço de saúde, dá para aquilombar um treino.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong><a href="https://mundonegro.inf.br/mulher-negra-musculacao-cansaco-trabalho-forca/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Hip Hop Workout Collective</a> </strong>nasceu em 2025, criado por mim, pela <strong>Juliana Oliveira </strong>e pela<strong> Juliane Daianny</strong>. Começou com uma caixa de som e um sonho, numa salinha pequena, e foi virando espaço de acolhimento para mulheres negras e para pessoas LGBTQIAPN+. Não montamos aquilo lendo metanálise, montamos porque fazia falta. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Preciso ser honesta sobre o tamanho da evidência que estou usando. A metanálise que citei é de 2006, junta estudos bem diferentes entre si, e os próprios autores reconhecem essa limitação. Ela mostra adesão maior em grupos coesos, o que não é a mesma coisa que provar que qualquer coletivo funciona melhor que qualquer outro formato e, até onde eu sei, ninguém testou em ensaio clínico coletivos negros brasileiros. O que existe é convergência entre o achado da adesão, o que a gente observa na prática e o que a pesquisa qualitativa vem descrevendo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Preciso abrir aqui um parêntese sobre as mulheres, porque tem uma camada que só aparece quando a gente separa. Uma revisão sistemática recente do Howard e do Bartholomew, publicada na <em>PLOS Global Public Health</em>, sintetizou dezoito estudos sobre barreiras e facilitadores à atividade física especificamente entre mulheres negras. É uma pesquisa americana, com pouco mais de 400 mulheres, e por isso não dá para transportar ao Brasil sem cuidado, mas os temas que aparecem são reconhecíveis demais para nós ignorarmos: motivação, suporte estruturado, saúde geral, ambiente, ideal de corpo e cabelo. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Numa revisão científica internacional, o cabelo aparece como barreira concreta à prática de exercício entre mulheres negras, porque o tempo e o dinheiro investidos nele são muito maiores do que os de outros grupos de mulheres. Suar significa refazer, e refazer custa hora e custa salário. Isso não é vaidade, é economia doméstica, e é o tipo de barreira que nenhum treino individualizado resolve, mas que um grupo de mulheres negras desata em cinco minutos de conversa, trocando o que funciona e normalizando chegar de trança, de turbante, de cabelo preso, do jeito que der. Por isso eu insisto que coletivo não é enfeite do treino, é parte do método.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Lélia Gonzalez</strong> escreveu, ainda nos anos 1980, sobre os lugares muito específicos que a cultura brasileira construiu para o corpo negro: o corpo que serve, que trabalha, que é consumido em determinadas datas do ano, sempre em função de outra pessoa. Quando a gente se reúne para treinar, o que está em disputa é justamente isso, o corpo negro deixando de ser instrumento e virando destinatário do próprio cuidado. E tem <strong>bell hooks</strong>, que em 1993 escreveu <em>Irmãs do inhame</em>, publicado no Brasil só em 2023. O detalhe que quase ninguém conta é que o livro não saiu da cabeça dela sozinha: nasceu de um grupo de apoio de mulheres negras que se reunia de fato e que dava nome à obra. O inhame do título vem de Toni Cade Bambara e carrega a ideia de sustentação da vida e de conexão diaspórica. Ou seja, o livro mais conhecido sobre autorrecuperação de mulheres negras foi ele próprio produzido dentro de um coletivo. Ela estava falando de saúde mental e de cura, não de agachamento, mas o princípio atravessa, já que é muito difícil se cuidar sozinho num mundo organizado para que você cuide de todo mundo menos de você. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando alguém me pergunta por que investir em coletivo em vez de simplesmente dar mais treino individual de graça, minha resposta é técnica antes de ser política. Adesão é o que determina resultado, e um treino excelente que a pessoa abandona em três semanas entrega menos do que um treino simples que ela mantém por três anos. O que segura alguém treinando não é a periodização perfeita, é ter gente esperando por ela.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se você é negro e já desistiu de treinar mais de uma vez, eu queria que você considerasse a possibilidade de que o problema nunca foi você, e sim que você tentou sozinho uma coisa que funciona melhor acompanhado. Procura um coletivo em que você se reconheça, onde as pessoas se pareçam com você e a sua presença não precise ser justificada. Existem mais do que a gente imagina, e vale perguntar, pesquisar, ir uma vez só para sentir. E se não houver nenhum por perto, chama alguém para treinar com você, porque duas pessoas com dia marcado já mudam bastante a chance de continuar. Nós aprendemos há séculos que sozinho ninguém aguenta muito tempo, e isso nunca foi discurso bonito, foi estratégia de sobrevivência. Continua sendo, inclusive no treino. </p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Caroline Araujo Amorim é formada em Educação Física há oito anos, com pós graduação em ortopedia e reabilitação pelo Hospital Albert Einstein. Atleta de powerlifting, é cofundadora do Hip Hop Workout Collective e criadora do aplicativo APPCAH. Instagram: @carolinepersonall&nbsp;</em></p>



<h2 id="h-referencias-nbsp" class="wp-block-heading"><strong>Referências&nbsp;</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BURKE, S. M.; CARRON, A. V.; EYS, M. A.; NTOUMANIS, N.; ESTABROOKS, P. A. Group versus individual approach? A meta-analysis of the effectiveness of interventions to promote physical activity. <em>Sport and Exercise Psychology Review</em>, v. 2, n. 1, p. 19-35, 2006.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOWARD, S. L.; BARTHOLOMEW, J. B. Barriers and facilitators to physical activity among Black women: a qualitative systematic review and thematic synthesis. <em>PLOS Global Public Health</em>, v. 4, n. 12, e0003202, 2024. DOI: 10.1371/journal.pgph.0003202&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">MIRANDA, A. A. M. et al. Social inequalities in leisure-time and transport-related physical activity through the lens of intersectionality: 10-year longitudinal study in Brazil. <em>International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity</em>, v. 23, art. 64, 2026. DOI: 10.1186/s12966-026-01900-5&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">RIMOLI, T. M.; SANTOS, A. P. M. B.; PIRES, L. J. A.; MENDES, E. C. Aquilombamento como ferramenta de resistência e promoção de saúde da população negra. <em>Revista de Saúde Coletiva da UEFS</em>, v. 13, n. 2, e9284, 2023. DOI: 10.13102/rscdauefs.v13i2.9284&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">NASCIMENTO, Maria Beatriz. O conceito de quilombo e a resistência cultural negra. <em>Afrodiáspora: Revista do Mundo Negro</em>, Rio de Janeiro: IPEAFRO, n. 6-7, p. 41-49, 1985.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ÔRÍ. Direção: Raquel Gerber. Roteiro e narração: Beatriz Nascimento. Brasil, 1989. Documentário, 131 min.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">NASCIMENTO, Abdias do. <em>O Quilombismo: documentos de uma militância pan africanista</em>. Petrópolis: Vozes, 1980.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: SILVA, Luiz Antônio Machado da (Org.). <em>Movimentos sociais urbanos, minorias étnicas e outros estudos</em>. Brasília: ANPOCS, 1984. (Ciências Sociais Hoje, 2), p. 223-244.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOOKS, bell. <em>Irmãs do inhame: mulheres negras e autorrecuperação</em>. Tradução de floresta. Prefácio de Ynaê Lopes dos Santos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2023. [Original: <em>Sisters of the Yam: Black Women and Self-Recovery</em>. Boston: South End Press, 1993.]u</p>



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