Aprendi com a minha mãe a beijar meu braço

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Crédito: Teddy

Certo dia, em uma palestra para profissionais de educação, eu falava da importância e responsabilidade da escola em trazer em seu conteúdo a valorização das crianças negras, de sua cultura e povo para dentro da sala de aula, assim como rege a lei 10.639/03. 

Em meio à uma sala repleta de educadores e profissionais de educação brancos, um homem negro pediu a palavra e disse: 

-Desde criança eu aprendi a valorizar e amar quem eu sou e a minha cor, através dos ensinamentos e exemplo da minha mãe. Ela fazia o seguinte gesto: beijava o seu braço e falava em seguida “eu amo e honro a minha pele negra”. Logo em seguida, pedia para eu repetir a ação, e assim eu fazia. 

O homem sentado na plateia é funcionário da zeladoria de uma das escolas públicas de uma cidade do interior Paulista. Ele afirmou que esse gesto de sua mãe fez com que ele sempre tivesse orgulho de sua negritude. Ele contínuo seu relato: 

– Eu já passei por diversas situações e episódios racistas, sempre que isso aconteceu, eu me lembrava dos ensinamentos da minha mãe e repetia seu gesto. Hoje, mesmo adulto, ainda faço essa prática de beijar meus braços e dizer eu amo e honro a minha cor negra. Sinto que isso me enche de alegria para enfrentar as adversidades do meu dia. 

Quero alertar, com esse exemplo, que identidade e pertencimento racial é algo que construímos desde pequeninos e a família tem papel fundamental nessa construção, já que alguns padrões de comportamento, apreendidos pelas crianças, introduz características da cultura e do meio em que ela se encontra, ao passo que outros são peculiares à própria família. 

Como a gente muito sabe, a nossa luta é imensa no combate ao racismo, porém, por ainda não ser uma luta aderida por toda a sociedade, infelizmente não podemos garantir que nossas crianças não sofrerão episódios racista, na verdade, temos certo é que sofrerão. Por isso está em nossas mãos trabalhar para quando o racismo as atingir, elas tenham conhecimento para identificar e força interna suficiente para lidar com isso. Esse é o papel da família.  

A criança aprende valores, sentimentos e expectativas de posição, por intermédio de cada membro de sua família e de outras pessoas com que convive. É preciso considerar que a família exerce, desde muito cedo, grande influência na transmissão de valores e crenças a respeito dos grupos raciais. 

Ou seja, por mais que há uma lei que obrigue as escolas a ensinarem a cultura africana e afro-brasileira, além da importância do protagonismo negro para a construção da nossa sociedade, é dever da família introduzir na educação das crianças um aprendizado sobre essa cultura e o pertencimento racial. 

A mãe do funcionário da escola, de forma simples e muito afetuosa, ensinou para ele esse pertencimento e com isso, transmitiu valores que estão presentes na vida dele até hoje. 

Desde dezembro do ano passado, eu venho fazendo um trabalho de conexão ancestral com mulheres negras, o objetivo é trazer algo para a vida delas que deveríamos ter aprendido desde a infância: a valorização de quem somos e o reconhecimento da luta de nossos ancestrais. 

Acredito que não é necessário chegarmos à vida adulta para fazermos essa conexão, podemos proporcionar hoje às crianças essa educação que valoriza: quem somos nossas lutas, a cor da nossa pele, a textura de nossos cabelos, etc. Então, convido você, que faz parte da família de uma criança negra, a introduzir na educação dessa criança esse amor e honra por quem nós somos. 

Eu amo e honro a minha cor presta e eu conto com você! 

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