Aprendendo a ser preto

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Felizardo Tchiengo Bartolomeu Costa*
Eu cresci em um lugar onde não falamos muito sobre racismo, pois é um assunto quase proibido.  Sempre que o mesmo surge, as pessoas tratam de mudar de tópico, agitando-se desconfortavelmente nas cadeiras, ou tratando de desmoralizar e “descategorizar” a discussão.
– Deixa disso rapaz, aqui não tem racismo, tem diferença social. Pessoas que têm e que não têm, apenas isso. Racismo é coisa dos países europeus.  Por isso aprendi desde cedo, que não interessava falar sobre discriminação racial e acabei assim, perdendo uma grande oportunidade de saber quando se estavam a referir à mim de forma preconceituosa e racista.
Vim para o Brasil, estudar e continuei a dizer sempre que me perguntavam que ainda não tinha sido discriminado, pois na minha cabeça, discriminação era ser chamado de crioulo, ser associado à escravatura ou qualquer coisa parecida, ou ainda ouvir aquelas frases travestidas de sabedoria popular, do tipo: “Preto quando não suja na entrada, suja na saída”, ” Preto é como carvão, se não queima, suja” etc., porém, tinha-me passado despercebido um pormenor importante: a discriminação feita às claras era crime e por isso jamais alguém faria abertamente alguma brincadeira pretensamente racista. Por isso, era fácil ter a falsa impressão de que não havia discriminação.
Além disso, meus supostos novos amigos eram muito atenciosos comigo e por isso, jamais tomei como ofensa certas piadas. Aventei mesmo que podiam ser apenas resultado do à-vontade com que se acostumaram a tratar-me, de tal modo, que já não me questionava sobre aquela piadinha que faziam das fotos:
– Meu! Se não fosse pelo sorriso, não saberíamos onde você está;
Ou do folclore envolvendo uma espécie de virilidade bestializada, criando-se mitos de uma dotação masculina quase sobre-humana.
 – Oh negão, se você entrar de sunga na piscina eu saio!
Como eu gostava de roupa branca, também não eram raros aqueles piadistas que me perguntavam como eu fazia para manter minhas roupas tão brancas? Normalmente todo mundo achava graça dessas piadas e às vezes eu mesmo chegava a cair também na risada, por que na minha cabeça de recém-chegado, desacostumado às minúcias desses movimentos discriminatórios, aquelas piadas eram brincadeiras inocentes.
não_há_racismo(1)
Não demorou e comecei inclusive a comprar o discurso de que aqui não tem preconceito, que o que existe é nada mais do que um complexo de inferioridade introjetada pelos “morenos” (morenos como um eufemismo pobre, diga-se de passagem, para preto ou negro). Ou seja, o preconceito, estava na cabeça dos pretos, que tinham complexo de inferioridade e outros problemas de aceitação. Entretanto, ninguém parecia muito preocupado em questionar como estes supostos “problemas de aceitação” se criam, afinal, ser preto pode ser uma questão genética, mas o sofrimento que advém disso, com certeza está muito além do genético.
* Angolano,natural do Bié, reside atualmente em São Paulo. Doutorando do curso de Psicologia pela Unesp/ Assis

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