Gláucia Batista conta por meio desse artigo, sua experiência criando dois meninos negros com transtornos mentais diferentes, mas ambos, muito desafiadores. Ela está fora do perfil “esperado” das mães negras e tem usado seu conhecimento e competência como mãe e profissional para ajudar mães e pais quem têm filhos com perfis similares ao dela por meio do perfil Humaninhos TDL. 

“Sempre deixo claro que sou não sou da área da saúde. Sou licenciada em história pela UERJ e depois fiz economia pela UFF. Hoje eu sou servidora federal e trabalho na área de economia. Apesar de não ter seguido com o magistério, sempre tive afinidade com o universo infantil e sempre li muito sobre desenvolvimento infantil.

Quando meu filho mais velho fez pouco mais 1 ano, percebemos que ele estava falando cada vez menos, apesar do desenvolvimento adequado em outras áreas. De lá para cá, passamos por muitos especialistas e chegamos a pensar em autismo. Iniciamos tratamentos terapêuticos até que, aos 5 anos, fechamos o diagnóstico do Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem.

Foi muito angustiante porque não é um diagnóstico conhecido, apesar de bastante comum. A criança apresenta uma dificuldade persistente para adquirir a fala, mesmo não tendo doença ou síndromes relacionadas. A criança que não fala conforme o esperado para a idade acaba sendo julgada como menos esperta, estranha, inacessível. Por vezes ela começa a se isolar e se comportar mal. Eu, como mãe, sofria muito com os olhares, o julgamento, a frustração de me sentir impotente para ajudar meu filho.

Depois de anos em tratamento com fonoaudióloga, muito apoio da escola e da família, Thales começou a se desenvolver muito bem e hoje consegue se expressar claramente. Quando tudo estava caminhando, o meu segundo filho também começou a ter atraso na fala. Com quase 3 anos ele quase não falava. Eu via um filme repetido e chorei muito. Mas fui buscar ajuda para trata-lo e recebemos o diagnóstico de autismo. A verdade é que estamos esgotados de uma rotina cheia de leva e trás e salas de espera de terapeuta. Minha única escolha foi buscar luz pelas brechas. Abri meu coração e um pouco das nossas vidas para trocar acolhimento, experiências, conhecimento com outras famílias que passam por situações parecidas.

Tento manter o bom humor e mostrar a nossa verdade. Uma maternidade atípica de crianças pretas. Criei o @humaninhosTDl para me enxergar nas minhas falas e me ajudar a seguir em frente. Me fortaleci e aprendi muito. Conheci pessoas que me inspiram e pessoas que saíram do virtual para me ajudar aqui do lado real. Gosto de mostrar que a família precisa se envolver no tratamento e que os profissionais de saúde precisam entender as dificuldades que passamos em casa, na escola, na rua para nos apoiar, orientar e até cobrar participação.

Não tenho muitos parâmetros para avaliar o quanto a nossa cor influencia a popularidade do IG. Não somos a família branca padrão, de olhos azuis e sei que não chamamos atenção tão fácil. Ofereço conteúdo criativo e informativo para ajudar quem precisa. E o ponto em comum dos seguidores é a dor e o amor. Sinto que quem participa do IG se identifica e cria simpatia pelos meus filhos porque eles realmente são divertidos. São crianças simples e felizes tentando superar dificuldades comuns a muitas crianças. Como crianças pretas, acho que podem despertar a curiosidade de quem não convive com outras crianças pretas.

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Meus seguidores são pessoas que passam por algo parecido ou têm empatia com nossas lutas. Não tenho falado diretamente de negritude, mas mostro o que somos e isso é significativo. Muita gente se impressiona porque eu (mulher preta) sei escrever bem e mostro familiaridade com assuntos fora da minha área profissional. Eu estudo os temas, leio publicações internacionais, faço traduções e compartilho numa linguagem que leigos entendem. Muitos terapeutas me seguem e indicam o blog para seus pacientes. Recebo muitas mensagens de carinho de quem está num momento de incertezas e ansiedade sobre a saúde mental do filho. Mostrar nossa história e como já superamos tantas dificuldades é inspirador. Sinto o peso dessa responsabilidade e tenho me comprometido cada vez mais com essa missão. Tenho prazer em ajudar outras crianças como posso.”

 

 

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