Aline Chermoula transforma a gastronomia afrodiaspórica em ferramenta de memória e valorização da cultura negra

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Aline Chermoula transforma a gastronomia afrodiaspórica em ferramenta de memória e valorização da cultura negra
Chef, pesquisadora e empreendedora, baiana radicada em São Paulo defende o reconhecimento dos saberes ancestrais, a formação de profissionais negros e o fortalecimento de negócios gastronômicos/Foto: Reprodução/Redes sociais

A gastronomia pode ser uma ferramenta de preservação da memória e transformação social. É a partir dessa perspectiva que a chef de cozinha, professora, pesquisadora e empreendedora Aline Chermoula, quem também é consultora do Prêmio Black Chefs em São Paulo, constrói sua trajetória profissional, dedicada à pesquisa e à divulgação da cozinha afrodiaspórica. Por meio de receitas, pesquisas e educação, ela busca ampliar o reconhecimento da contribuição dos povos africanos e afrodescendentes para a formação da culinária brasileira.

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Nascida em Feira de Santana, na Bahia, Aline é fundadora da Chermoula Cultura Culinária, empreendimento voltado à gastronomia afrocontemporânea, que combina pesquisa, ancestralidade e afeto. Seu trabalho também passa pela comunicação e pela educação, com o objetivo de compartilhar conhecimentos sobre os ingredientes, as técnicas e as histórias que atravessam as cozinhas africanas e afrodescendentes nas Américas.

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“A minha cozinha começa muito antes de acender o fogo. Ela começa na escuta, na observação, na memória e na investigação das histórias que atravessam os alimentos”, afirma Aline.

Para ela, a pesquisa e o ensino não são atividades complementares à profissão, mas elementos centrais de sua atuação. Ao investigar a origem dos ingredientes e os contextos sociais em que determinadas práticas culinárias se desenvolveram, ela procura compreender a gastronomia como um campo de conhecimento que dialoga com a história, a antropologia, a geografia e a educação.

“Quando ensino, também aprendo. Quando pesquiso, amplio as possibilidades da minha cozinha. E quando cozinho, materializo conhecimentos que muitas vezes foram transmitidos por gerações de mulheres que sequer tiveram seus saberes reconhecidos como ciência ou patrimônio”, diz.

Entre a Bahia, São Paulo e a diáspora africana

A trajetória de Aline também é marcada pelo encontro entre diferentes territórios e referências culturais. Embora tenha nascido na Bahia, ela se mudou ainda criança para São Paulo, onde construiu sua carreira profissional. A experiência entre os dois estados contribuiu para a formação de seu repertório sobre a alimentação como expressão e pertencimento.

Segundo a chef, a Bahia foi fundamental para sua formação cultural e gastronômica, especialmente pela relação entre comida, ancestralidade, religiosidade e celebração. Já São Paulo ampliou suas possibilidades profissionais, permitindo o contato com diferentes ingredientes, culturas e profissionais.

Um dos desafios foi conquistar espaço no mercado sem abrir mão de sua identidade, segundo a chef. Para Aline, a valorização da gastronomia afrodiaspórica também exige questionar hierarquias históricas que reconhecem determinadas cozinhas como sofisticadas, enquanto classificam outras, especialmente aquelas associadas às populações negras, como populares ou domésticas.

“Construir uma carreira a partir da gastronomia afrodiaspórica também significa enfrentar essas hierarquias e demonstrar que existe técnica, pesquisa, complexidade e sofisticação nesses repertórios culinários”, afirma.

A chef destaca que não precisou escolher entre suas referências baianas e as oportunidades encontradas em São Paulo. “A Bahia me deu raízes, São Paulo ampliou meus caminhos, e a diáspora africana me ofereceu um universo de possibilidades para pesquisar e criar.”

Gastronomia afrodiaspórica como reconhecimento histórico

As pesquisas desenvolvidas por Aline e os ingredientes e técnicas utilizados em sua cozinha busca evidenciar como conhecimentos, ingredientes e técnicas culinárias atravessaram o Atlântico, foram preservados e transformados por diferentes comunidades e passaram a integrar a alimentação nas Américas.

A proposta também procura dar visibilidade às pessoas responsáveis pela transmissão desses saberes, frequentemente mantidos por gerações por meio da oralidade e das práticas cotidianas. Em entrevista, a chef ressalta que a presença africana na culinária brasileira nem sempre recebe o reconhecimento correspondente à sua importância histórica.

“Não quero apenas apresentar uma comida bonita ou saborosa. Quero que as pessoas compreendam as histórias que estão sendo servidas”, explica.

Para ela, a cozinha afrodiaspórica não deve ficar restrita a pratos tradicionais ou a uma estética específica. Trata-se de um repertório diverso, contemporâneo e inventivo, que continua em transformação.

“Não se trata apenas de ocupar um lugar na gastronomia, mas de ampliar as referências sobre quais conhecimentos, pessoas e cozinhas merecem reconhecimento”, acrescenta.

Conhecimento repassado

Além de desenvolver sua própria carreira, Aline considera que um dos principais impactos de sua atuação está em incentivar outros profissionais a reconhecerem o valor de suas histórias e experiências familiares.

Em aulas, oficinas, palestras e experiências gastronômicas, ela encontra pessoas que passam a compreender os conhecimentos adquiridos com mães, avós e comunidades como repertórios legítimos para a atuação profissional.

A questão é especialmente relevante para profissionais negros, que historicamente tiveram menos referências de protagonismo e reconhecimento no setor.

“Uma cozinha realmente transformadora é aquela que também abre caminhos para outras pessoas”, afirma.

A chef também defende a ampliação das possibilidades de atuação na gastronomia. Para ela, a profissão não se limita ao trabalho em restaurantes e pode envolver educação, pesquisa, produção cultural, consultoria, comunicação e empreendedorismo.

Na estruturação de seu negócio, Aline destaca ainda a importância da formação de equipes, da presença de trabalhadores negros e do diálogo com pequenos produtores. O impacto de uma cozinha, segundo ela, não deve ser medido apenas pela repercussão de um prato ou pelo reconhecimento individual, mas também pelas oportunidades que consegue gerar.

Prêmio Black Chefs e o fortalecimento do empreendedorismo negro

Como consultora do Prêmio Black Chefs em São Paulo, Aline pretende contribuir para o reconhecimento da diversidade de iniciativas conduzidas por empreendedores negros na gastronomia.

A chef defende que a categoria seja compreendida de maneira ampla, contemplando restaurantes, bares, cafeterias, confeitarias, cozinhas comunitárias, serviços de catering, produtores artesanais e empreendimentos periféricos.

Ela também destaca a importância de reconhecer negócios que, apesar de terem estruturas menores ou pouca visibilidade, desenvolvem propostas próprias e mantêm vínculos com seus territórios.

“Talento e competência nem sempre caminham acompanhados das mesmas oportunidades de acesso a investimento, formação, redes de relacionamento e reconhecimento”, diz ela.

A expectativa de Aline é que a premiação não se limite à homenagem aos empreendedores, mas contribua para fortalecer conexões, ampliar a visibilidade dos negócios e estimular o desenvolvimento de empresas sustentáveis e economicamente consistentes.

“Quero encontrar negócios que tenham histórias para contar, identidades para afirmar e futuros para construir”, afirma.

Para a chef, o reconhecimento da gastronomia negra precisa ultrapassar o interesse momentâneo por determinados ingredientes, pratos ou tendências culinárias. O desafio é consolidar o entendimento de que os conhecimentos e as práticas desenvolvidos pelas populações negras integram a história e a economia do país e continuam contribuindo para o futuro da gastronomia brasileira.

“E, sobretudo, espero que essa jornada ajude a consolidar uma compreensão cada vez mais ampla de que a gastronomia negra não é uma tendência ou um segmento passageiro. Ela é parte fundamental da história, da cultura, da economia e do futuro da gastronomia brasileira”, conclui.

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