Por Laíse Brito
Psicóloga 03/19361
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O abandono promove um dos sentimentos mais ameaçadores da existência humana, a solidão. Princípios básicos na condição de sermos bichos humanos nos insere no arranjo social, enquanto mamíferos precisamos de um bando, outros alguéns que nos cuide e nos ampare no desenvolvimento de uma vida inteira, não haverá fase existencial que seremos inteiramente autônomos, a ponto de dispensarmos o contato com outro Ser da mesma espécie, se assim acontecer, a sentença de aniquilação está posta, nem que seja da consciência de si.
Na tradição Iorubá narra-se a história de Omolu ou Obaluaê, que ao nascer com o corpo coberto de chagas, foi abandonado junto ao mar por sua mãe Nanã, Orixá mais velha que rege os manguezais, encontrado por Iemanjá, que ao vê-lo desprotegido e bastante machucado pelos caranguejos, o lavou com suas águas salgadas e folhas. O menino foi crescendo e escondia-se por ter o corpo cheio de marcas e cicatrizes, até que uma festividade estava para acontecer e então Ogun teve a brilhante ideia de cobrir o corpo de Omolu com palhas, pois isso o ajudaria com a vergonha que sentia de se expor e garantiria a sua ida a festa, chegando lá, um tão constrangido com tantas pessoas ficou reservado, vendo aquela cena, Iansã soprou seu vento sobre ele, e ao dançar, pipocas foram saindo das palhas e todos celebraram, pois muitos alcançaram curas.
A cosmo visão africana nos convida a entender diversos aspectos da importância da comunidade a sobrevivência, pois mesmo que o abandono nos atravesse, e nesse caso, podemos pontuar que a mãe Nanã possivelmente não tinha condições emocionais de cuidar do filho com aquela aparência, se atualizarmos para contemporaneidade, seria sugestivo dizer que ela pode ter vivido o que chamamos de depressão pós parto, assim como temos margem para falarmos do desamparo que bebês com má formação costumam viver, assim como se constrói a masculinidade hegemônica, que aos homens não é dado o cuidado e a permissão de viver plenamente suas emoções e desenvolver uma relação saudável com seus corpos.
Enfim, temos múltiplos caminhos e neles também nos encontramos com a organização coletiva que as tecnologias ancestrais indígenas traz sobre ser necessário uma Aldeia para cuidar de uma criança, Iemanjá que é conhecida por ser mãe de todas as cabeças, Orí, na tradição africana, ela assume o papel que uma outra mãe não pôde desempenhar e aqui podemos simbolizar a função do maternar, que pode ser exercida por qualquer adulto disponível ao cuidado e garantias de sobrevivência de uma criança.
É sensato dizer que arranjos sociais desarticulados do cumprimento genuíno desse cuidado, deixam marcas profundas na personalidade de uma pessoa, e o Itan é honesto em trazer como é a postura de Obaluaê na vida, mais retraído, fechado, sem interações espalhafatosas, o que me faz lembrar da descrição que aparece em Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon, que descreve assim:
”Ah! Essas lágrimas de criança que não tem ninguém para a consolar… Ele não esquecerá jamais que o colocaram desde cedo no aprendizado da solidão… Existência enclausurada, existência voltada para si mesmo e reclusa, em que aprendi cedo demais a meditar e a refletir. Vida solitária que, ao longo do tempo, se emociona demais por qualquer coisinha…Sensível interiormente por causa de vocês, incapaz de exteriorizar minha alegria ou minha dor, rejeito tudo que amo e me desvio, apesar de mim, de o tudo que me atrai.”
Fanon cunha a Neurose de Abandono como uma condição existência que gera sofrimento psíquico e produz um impacto relacional importante, pois o abandônico, como ele chama, é aquele que precisa de provas reinteradas de afeto e sempre desconfia que será deixado novamente. Apesar disso, o autor nos faz esperançar ao dizer que há outras formas possíveis e nelas implicam uma recriação de mundo e penso que nele precisaremos de coragem para quebrar o cárcere de uma vida solitária, a qual a solidão nos enjaulou na tentativa de roubar a nossa humanidade, se tornou a vivência que a nossa neurofisiologia ficou acostumada a reconhecer como forma de estar na vida.
Pensando nisso, desenvolvi um trabalho para falar sobre Abandono fundamentado no Itan africano e na Neurose de Abandono de Frantz Fanon, com base no cuidado clínico que desenvolvo nesses 7 anos como psicóloga, acredito que o bom cumprir do cuidado, independente de quem tenha sido a figura social a desempenhar, restabelece a pele que faltou no desamparo.
Laíse Brito é psicóloga (CRP 03/19361) e publica em @psilaisebrito. O trabalho descrito neste texto é conduzido por ela em encontro online no dia 29 de agosto, das 9h às 12h. As inscrições são feitas pelo telefone (71) 98866-7887, e a participação custa R$ 113.
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