Mundo Negro

A velha política encontra um novo palanque nas redes sociais, e negros seguem fora de cena

Foto: magnific

Por Liliane Rocha

Desde as últimas eleições municipais, temos observado um movimento crescente que se consolida também nas eleições gerais. Políticos de diferentes espectros, inclusive os mais tradicionais e com longas carreiras construídas fora do ambiente digital, parecem priorizar cada vez mais o posicionamento e a comunicação por meio das redes sociais. Essa mudança, no entanto, não ocorre em um ambiente neutro. Para pessoas negras, historicamente sub-representadas nos espaços de poder, a transferência crescente do debate político para plataformas digitais acrescenta outra camada de desigualdade. O racismo algorítmico, capaz de reproduzir e amplificar vieses presentes na sociedade. Se negros já encontram barreiras para acessar e disputar o poder político, o que acontece quando parte cada vez maior dessa disputa passa a ser mediada por algoritmos?

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As redes sociais se tornaram especialmente atraentes para a política porque funcionam sob regras e mecanismos de controle distintos daqueles presentes nos espaços tradicionais de comunicação. O primeiro motivo é que as redes sociais ainda funcionam como um ambiente mais informal, com regras e mecanismos de controle distintos daqueles presentes nos espaços tradicionais de comunicação. Em uma entrevista ou debate, o político é confrontado por jornalistas, adversários e perguntas que não controla. Nas redes, ele consegue definir com total autonomia o tema, o momento, o formato e a narrativa que deseja apresentar.

O segundo fator talvez seja ainda mais relevante. Nas redes sociais, o político não precisa necessariamente falar com toda a sociedade. Pode falar prioritariamente com o seu próprio público.Os algoritmos favorecem a formação de comunidades de interesse e ambientes nos quais determinadas visões de mundo circulam e são constantemente reforçadas. Esse funcionamento também exige uma perspectiva racial. Se a visibilidade nas redes é mediada por algoritmos e pesquisas já apontam desigualdades no alcance de conteúdos produzidos por pessoas negras, não podemos pressupor que todos partam das mesmas condições para transformar presença digital em influência e, posteriormente, influência em capital político.

E por fim, a desregulamentação desse espaço, que torna possível, ainda que com sanções posteriores, a divulgação de inverdades, as agressões mais contundentes e até mesmo, falas, que seriam imediatamente proibidas e execradas em debates ou entrevistas, tais como “sim, eu sou machista”.

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O grande risco é de que em um cenário no qual, o campo político migra cada vez mais para informalidade, e a fuga do rito democrático, na mesma intensidade e sentido contrário, cada vez personalidades notórias nas redes sociais, em sua maioria pessoas brancas, sem experiência política, se tornem possíveis candidatos (as), aos mais variados pleitos.

Historicamente, vemos este fenômeno ocorrer no Brasil, sobretudo em cargos de vereadores, deputados estaduais e federais. Vimos, casos como o do comediante, Francisco Everardo Oliveira Silva, mais conhecido como Tiririca eleito deputado federal. A lista de influenciadores(as) e comediantes eleitos democraticamente para liderar nas esferas municipais e estaduais ao longo dos últimos anos não tem fim.

Há dois anos vimos o mesmo fenômeno, ocorrer nas eleições municipais. Alguns dos candidatos mais bem cotados a posição de prefeitos, não tinham nenhuma experiência prévia no campo político, porém fizeram uma campanha expressiva, que gerou crescimento estrondoso nas redes sociais.

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Profetizo aqui neste artigo do site Mundo Negro que se seguirmos no rumo atual em alguns anos veremos um influenciador comediante, possivelmente homem e branco,  sem nenhuma experiência prévia na política se tornar presidente da república apenas com base em uma forte campanha nas redes sociais. Se você acha que é impossível, lembro que em 2019, a Ucrânia ofereceu um dos exemplos mais emblemáticos dessa transformação. Volodymyr Zelensky, um comediante sem experiência política anterior, chegou à Presidência com 73,22% dos votos no segundo turno. Sua campanha rompeu com parte da lógica tradicional da disputa eleitoral e apostou fortemente na comunicação direta com o eleitor pelas redes sociais.

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