“A Tábua de Esmeralda”: análise sobre o mais famoso álbum de Jorge Ben Jor

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Análise do álbum A TÁBUA DE ESMERALDA, 1974, de Jorge Ben Jor

Jorge Ben Jor, o ícone e a história

Jorge Duílio Lima Menezes ou simplesmente Jorge Ben Jor! Aos 22 de março de 1945 nasce o grande carioca, em Madureira  –  criado em Rio Comprido –  negro e apaixonado por futebol e pelo Flamengo; características essenciais para conhecer um pouco mais do artista. É cantor e compositor, além de multi instrumentista cujo instrumentos são o violão, guitarra e pandeiro. Um gênio da MPB!

Jorge já foi seminarista (jovem que estuda no Seminário de formação para padres – Igreja Católica) e já quis ser jogador de futebol. Mas, para a sorte da MPB, Jorge percebeu que gostava mesmo de música! É um ícone brasileiro cuja musicalidade transcende o espaço e abraça vários ritmos e históricos. Antes da carreira solo, no final dos anos 50, o cantor nutria amizade com outros aspirantes a cantor, na época, Erasmo Carlos, Tim Maia e Roberto Carlos, que fizeram parte do The Sputniks, banda de 1957. Viu, ali, na quebra do grupo musical, nascer a Jovem Guarda e o sucesso de Tim Maia. Com o início da carreira, nos anos 60, o artista de ritmo híbrido participou de movimentos clássicos da música nacional.

As raízes musicais

No primeiro momento, no cenário da Bossa Nova, teve fortes influências de João Gilberto, no entanto, criou seu próprio estilo. Perto da criação da Jovem Guarda, Ben surge com um novo ritmo, que agradava a Bossa Nova e a Jovem Guarda, todavia diferente dos mesmos: o samba rock! Símbolo desse marco é sua canção “Mas Que Nada”. Jorge Ben Jor se consagra em um estilo musical que une o melhor do samba, do rock e da Bossa, com forte influência africana, promovendo, assim, um novo momento da música. Também esteve presente em outro grande manifesto musical: o tropicalismo, ao lado de seus amigos Caetano Veloso e Gilberto Gil. Não à toa o grupo “os mutantes”, da mesma época, gravaram sucessos de Ben Jor, como “Minha Menina” e “País Tropical”. Jorge bebeu de vários espaços musicais, do samba, passando pela Bossa Nova, Jovem Guarda e Tropicalismo, teve sua fase pop, tem seu pé no rock e é eclético como um todo. Fez consideráveis parcerias musicais, por meio de composições compartilhadas, participação na música e shows. Revolucionando o cenário da MPB em todos os sentidos e âmbitos. O mestre do samba-rock mostra a “razão da simpatia, do poder do algo a mais e da alegria”[1].

A representatividade e resistência

Com letras profundas, muito carisma e história para contar, no auge dos anos 60 e 70, Jorge Ben promove reflexões imersas na representatividade racial. As letras com uma política leve, trazem nas entrelinhas a história do negro no país. A hipervalorização racial de Jorge Ben, em meio a uma época de segregação e racismo escancarado, mostra o conteúdo, genialidade e pioneirismo. Em meio ao Regime Militar, lança, em 1971, o álbum de estúdio Negro É Lindo. Neste momento se torna uma grande referência para o movimento negro nacional. Com a faixa homônimo ao álbum, ele diz: “Negro é lindo / Negro é amor, negro é amigo / Negro também é filho de Deus” em um enaltecimento racial que é marco. Além das inúmeras menções raciais na mística das religiões de matrizes africanas, sincretismo com sua religião católica e orgulho negro como em “África Brasil”, “Mama África”, “Criola” e tantas outras.

A Tábua da Esmeralda

O álbum de 1974, ainda no período da ditadura militar, foi lançado com a chamada: “é verdade, sem mentira. Certo, muito verdadeiro”.O nome faz alusão ao Tratado Hermético homônimo escrito pelo Faraó Egípicio Hermes Trismegisto e é o 11º disco de sua carreira sendo considerado o principais de sua carreira, abrindo sua fase de “alquimia musical”. Ganhou o título de 6º melhor disco, na  Lista dos 100 maiores discos da música brasileira pela Rolling Stone Brasil. As referências aos alquimistas[2] tornam as faixas complexas, pois muitas delas usufruem de trechos dos textos dos mesmos. Não à toa a canção “Os Alquimistas Estão Chegando Os Alquimistas” abre o disco e os descreve: “Eles são discretos e silenciosos (…) / São pacientes,assíduos e perseverantes / executam segundo as regras herméticas / desde a trituração, a fixação, a destilação e a coagulação /”

A Tábua de Esmeralda – ritmos e sensações

Contendo 12 músicas e 40 minutos de duração, o disco traz a uma batida alegre em todas as faixas. A presença de pandeiro, violão, baixo e bateria simboliza o ritmo híbrido do artista e do álbum. A sensação de paz, me remete a um ambiente agradável, alegre e de companheirismo. O samba-rock do álbum o torna diferente tanto do samba, quanto do rock. É extremamente agradável e facilmente poderia se tornar música ambiente.

A Tábua de Esmeralda – o enaltecimento feminino

As faixas “O Namorado da Viúva”, “Minha Teimosia, Uma Arma Pra Te Conquistar”, “Menina Mulher da Pele Preta” e “Magnólia” fazem menção à mulheres. Jorge Ben tem o costume de enaltecer as mulheres – sobretudo as negras – em suas canções. Com respeito e delicadeza, o compositor e cantor versa as características da amada como um homem apaixonado, sempre colocando a mulher com poder e carinho.

Em “Minha Teimosia, Uma Arma Pra Te Conquistar”, se declara e coloca a mulher em um pedestal: “Mulher graciosa alcança a honra / Você alcançou, mulher / Minha amada, minha querida, minha formosa”. E assim, as outras músicas também demonstram o amor pelo feminino de forma apaixonada.

A Tábua de Esmeralda –  as referências

A faixa “O Namorado da Viúva” faz referência ao alquimista do século 15,  Nicolas Flamel e sua esposa, a viúva riquíssima e desejada, mas temida. Já “O Homem da Gravata Florida” era o alquimista Paracelso. Bem como as canções “Errare Humanum Est”, “Hermes Trismegisto e Sua Celeste Tábua De Esmeralda”

A tábua de Esmeralda – híbrido musical 

O disco também traz a tona o hibridismo musical de Jorge Ben, seja pelo ritmo ou pela diversidade de assunto. A música “Zumbi”, também presente, conta a história de Zumbi dos Palmares, grande ícone da consciência negra. A faixa “Brother” é cantada toda na língua inglesa” e “Eu Vou Torcer” promove a paz e o positivismo do cantor. “Cinco Minutos”, por sua vez, fecha o álbum e retorna ao romantismo de Ben.

O público

Por mais que a MPB tenha título Música Popular Brasileira, o gênero musical não é o mais popular e é, de certa forma, voltado para a classe média. No entanto, Jorge Ben Jor consegue, através do samba-rock, se tornar mais acessível ao público, promovendo um MPB mais próxima do lado popular. Seu público é singelo, não é voltado para a juventude, no entanto se faz moderna.

Considerações finais

Jorge Ben Jor é o mestre do samba-rock e grande ícone da música brasileira. Meu artista favorito[3], é completo e fiel a sua essência. Nunca manchou sua imagem, nem se envolveu em grandes polêmicas, todavia jamais foi omisso. Sua política e resistência é leve e seu recado é contínuo. Salve Jorge Ben Jor!

Referências:

SANCHES, Pedro Alexandre. O Homem Patropi. Revista TRIP, 2009. Disponível em: <https://revistatrip.uol.com.br/trip/o-homem-patropi>

MILLARCH, Aramis. Disco – Jorge Ben e a sua Tábua de Esmeralda. 1974.  Disponível em:

<http://www.millarch.org/artigo/disco-jorge-ben-sua-tabua-de-esmeralda>

“Os 100 maiores discos da Música Brasileira” – Rolling Stone Brasil, outubro de 2007, edição nº 13, página 109.


[1] Trecho da canção “País Tropical”, de Jorge Ben Jor

[2] Alquimia é uma protociência cuja prática une elementos da Química, Física, Biologia, Medicina, Semiótica, Misticismo, Espiritualismo, Arte, Antropologia, Astrologia, Filosofia, Metalurgia e Matemática.

[3] Dedico este trabalho ao meu amado pai, Paulo Roberto Ferreira, cuja paixão por Jorge Ben foi passado para mim. Sua ajuda foi essencial para a realização dessa crítica.

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