Ele entrou no mercado aos 16 anos, como menor aprendiz numa empresa de obras públicas. Trinta anos depois, volta de quase uma década no Peru, onde liderou a integração tecnológica da Avon com a transferência de 100 mil consultoras.
“Em outra experiência, houve um gestor que me falou assim: você pode chegar a gerente, mas a diretor você não vai chegar não. Aquilo me marcou.”
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Quem lembra a cena é Renato Sppozido, 45 anos, gerente de Tecnologia América Latina da Natura e, até junho de 2025, responsável pela área de tecnologia digital e dados da companhia no Peru. A frase foi dita em outra empresa, em outro momento da carreira. Ele repete hoje com a serenidade de quem já respondeu na prática: “Você pode ocupar o espaço que quiser ocupar. Claro que alinhado às competências. Mas a cor da pele não vai ser o fator que te elimina de chegar naquele lugar.” Em tempo, o compromisso da Natura é ter no quadro de colaboradores administrativos a mesma proporção de grupos subrepresentados que existe na sociedade (em cada país)
Em 2016, Renato embarcou para Lima com um filho de 3 anos e uma tese silenciosa: a de que carreira internacional não precisa passar pelos Estados Unidos. Ficou nove anos. Quatro deles em uma empresa de óleo e gás, e depois cinco na Operação da Natura do Peru, onde co-liderou a integração dos sistemas da Avon e a migração de mais de 100 mil consultoras de beleza. Sob sua gestão, a operação peruana ficou em primeiro lugar no Ranking de Inovação Brinca C3 Peru 2022, como a empresa mais inovadora do país. Voltou ao Brasil com uma filha peruana, espanhol fluente e a experiência rara de ter comandado tecnologia num país que a companhia usou como campo de provas para a maior integração de sistemas de sua história.
Conversamos sobre trajetória, inovação e o que faz um profissional negro não apenas chegar, mas permanecer.
De onde você é, quantos anos tem e como a tecnologia entrou na sua vida?
Eu sou Renato, tenho 45 anos, tenho quatro filhos, sendo dois do coração. Moro no Rio e faço bate-volta semanal para São Paulo. Comecei a trabalhar bem jovem, com 16 anos, como jovem aprendiz numa empresa de obras. Depois fui para uma empresa que prestava serviços para órgão público, e ali trabalhei em um laboratório de informática, onde a gente consertava computador, na época em que ainda se consertava, porque hoje em dia se troca a peça. E fui galgando outras posições até chegar na Natura. Junto com a carreira, segui o conselho do meu pai de fazer curso técnico em eletrônica. Eu já trabalhava e fazia o curso ao mesmo tempo. O técnico foi a porta de entrada para eu ingressar na área de tecnologia.
Como você equilibra se divertir, descansar e ainda se manter atualizado sobre a sua área? O que você gosta de fazer no tempo livre?
Atividade física é inegociável. Vou à academia de cinco a seis vezes por semana com a minha parceira de vida e maior incentivadora, a Luciana, sempre que os horários batem. Foi por influência dela que passei a me olhar com mais cuidado, a me alimentar melhor e a levar a musculação a sério. No fim de semana pedalamos juntos na orla. E tem outro ritual: tiro uma hora e meia do domingo para estudar algo que eu não sei. Porque as coisas mudam numa velocidade tão rápida que o conhecimento que você adquiriu um mês atrás fica obsoleto. Faço cursos online, assisto videocasts e tenho mergulhado bastante em vibe coding. Antes eu lia 15 livros por ano; agora vão uns três, quatro, e consumo outros formatos. E o mais legal é conseguir influenciar: meu filho me viu e disse “pai, quero malhar”. Peguei o benefício que temos aqui na Natura do Wellhub, e o inscrevi , e ele está indo super feliz.

O setor de tecnologia historicamente lida com a falta de diversidade em cargos de liderança. Como tem sido a sua trajetória até ocupar uma posição estratégica na Natura?
Na Natura, a diversidade é tratada como estratégia de negócio. A companhia tem um compromisso público que envolve a empresa inteira. Eu não entrei por programa de diversidade, mas a Natura criou um programa de aceleração de carreira para pessoas negras que já estão em liderança. E, no meu caso, a bagagem internacional pesou. Foram nove anos fora, cinco deles à frente da tecnologia da Natura no Peru, gerindo equipes multiculturais num cenário de altíssima complexidade. É isso que me solidificou para assumir a cadeira que eu ocupo hoje.
Na Natura, a diversidade é tratada como estratégia de negócio. A companhia tem um compromisso público que envolve a empresa inteira.
De que forma a sua atuação na Natura ajuda a desconstruir a ideia do “preto único” nos cargos de liderança em tecnologia?
Sendo honesto, é muito difícil ver profissionais negros ocupando determinados espaços.. Tenho pares negros na diretoria. Isso importa porque você vê que pode ocupar aquele espaço. Quando você olha para o lado e olha para cima e vê, você pensa “eu posso ocupar aquele lugar também”. Eu participo de mesas de tomada de decisão em que a minha opinião é validada. Ontem mesmo eu estava discutindo um orçamento relativamente grande com o diretor de finanças, e o que eu disse tinha peso. Não é só pelo fato de ser negro que você vai chegar, porque tem as competências. Mas a cor da pele não pode ser o fator que te elimina.
Qual a importância de ter outros talentos negros na transformação digital da Natura? De que forma a empresa reforça que é um lugar seguro e de alto impacto para a evolução de talentos negros em carreiras ágeis?
Transformação digital e dados não são só sobre sistema, nuvem ou código. São sobre pessoas. É entender a pluralidade das consumidoras e das consultoras, entender os perfis delas. O Brasil tem uma grande parte da população negra, então nossos produtos e serviços precisam falar com ela, e para isso precisamos de talentos negros construindo essas soluções. Na nossa diretoria temos várias pessoas negras, inclusive em dados e inteligência artificial. A gente olha em volta e vê gente parecida conosco, que é o reflexo do país. Como comunidade negra tivemos uma grande evolução, mas ainda falta uma evolução nacional de se abraçar como uma nação negra em maioria.

A Natura é uma referência em Tech Beauty. De que maneira as áreas de inteligência artificial, ciência de dados e biotecnologia estão transformando o modelo de negócios e a experiência do consumidor na prática?
Conectamos tecnologia, beleza e bem-estar para criar experiências únicas e inovadoras. A convergência entre tecnologia e beleza foi redefinida na nossa atuação. No Peru, num projeto conjunto com a área de Dados & IA ,entregamos ferramentas preditivas e modelos de inteligência artificial generativa para a força de vendas, para as consultoras e para os consumidores. E fizemos o letramento de dados junto, porque não adianta entregar a ferramenta e não preparar quem vai usar. O mais legal foi ver o público administrativo interagindo com aquilo. No fim do dia, é entender comportamento e traduzir em resultado real de negócio.
O debate sobre racismo algorítmico na inteligência artificial ainda é muito presente quando falamos de ética e inclusão. Quais práticas a equipe da Natura adota para combater esse tipo de viés no desenvolvimento das soluções tecnológicas?
O algoritmo tem viés, isso acontece muito. Mas o combate à ele começa na governança e na curadoria dos dados, e em quem desenvolve a tecnologia. Se o time que construiu esses modelos foi homogêneo, o algoritmo fatalmente vai herdar uma visão limitada. Aqui a gente adota diretrizes rígidas de ética em inteligência artificial, audita bases de dados e faz treinamento para evitar discriminações, com equipes multidisciplinares olhando para isso durante todo o ciclo de vida do produto. O ponto principal é que isso não é feito depois do produto pronto: faz parte da arquitetura desde a concepção.
Que mensagem ou conselho você gostaria de deixar para os novos e futuros profissionais negros da área de tecnologia que desejam construir uma carreira de impacto?
Eu sigo dois dos três conselhos que o meu pai me deu na juventude, e eles mudaram a minha história. O primeiro foi aprender inglês, que abriu a porta para a carreira internacional. O segundo foi fazer o curso técnico em eletrônica, que me colocou dentro da tecnologia. Então diria para investir numa base técnica e estar sempre aprendendo idioma. Buscar o espaço dele. Ter capacidade de resolver problemas reais, porque é disso que a gente precisa: tem um monte de dores para resolver. Construir redes de apoio. E pertencer ao lugar que ele quer estar. Eu continuo mentorando gente da minha equipe anterior do Peru até hoje, e é uma troca: você ensina e você aprende. Mas se for para guardar uma coisa só, é esta: a capacidade de aprender é tão importante quanto os títulos. As ferramentas mudam o tempo todo. Quando eu comecei, trabalhava com uma tecnologia que já ficou para trás. Mas a mentalidade e os fundamentos que construí naquela época foram o verdadeiro alicerce para quem eu me tornei.”
Você passou nove anos no Peru. Como esse capítulo entrou na sua história?
Eu tinha feito uma temporada curta na Espanha, cinco meses, num projeto. Ficou aquele bichinho dentro de mim: eu queria viver uma cultura de verdade. Ficou no meu plano de desenvolvimento até aparecer o Peru. Foram quatro anos em óleo e gás e cinco na operação da Natura no Peru, de fevereiro de 2020 a junho de 2025. Entrei bem no início da pandemia. Foi um período de transformação digital enorme. A Natura fez várias aquisições, e o Peru foi o país-laboratório para preparar os sistemas e receber a Avon. Como era uma operação menor, todo o teste e erro era feito lá antes de escalar.
Tem alguma entrega que, quando você viu funcionando, fez você pensar: aqui é um novo momento?
Teve a Maia, um modelo avançado de inteligência artificial entregue à força de vendas. O cenário no Peru era o seguinte: a maior parte dessa força de vendas não era digital, e a gente tem uma complexidade importante de sistemas. Para uma gerente de negócio saber dados financeiros da rede dela, e a força de vendas é medida por produtividade, ela precisava cruzar várias fontes. Pegava dado de um sistema, dado de outro, cruzava e chegava no número. Unificamos tudo e deixamos à disposição dela. Com um comando, e até por voz, ela pergunta: “quanto falta para eu bater a meta?”. E vem a resposta. Aquilo virou agilidade e virou resultado financeiro, porque a cobrança passou a ser feita mais perto delas. Foi disruptivo.
Os seus pais tinham formação? De onde vem esse interesse por eletrônica?
A determinação da minha mãe foi a base de tudo. Trabalhando em casa de família e criando a gente após a separação, ela traçava a meta com clareza: ‘estudar é a única saída para ser alguém na vida‘. Ela me dava o que fazer. Meu pai, que sempre acreditou na educação e aos 65 anos soma três graduações, me dava o como por já ter percorrido essa jornada. Essa combinação de valores moldou a minha vida e hoje já alcança a terceira geração, os meus filhos.
Entrevista:
Silvia Nascimento @silvia_nascimentoo
Fotos: Arquivo pessoal
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