Por Liliane Rocha
Ao assistir ao primeiro debate presidencial da Band TV e da TV Cultura, uma constatação se impôs de forma incontornável: a democracia brasileira continua sendo disputada, majoritariamente, por homens brancos. Distante da diversidade racial e de gênero que caracteriza a população brasileira. Podemos chamar de apartheid de gênero e raça, ou seja, uma estrutura política que, eleição após eleição, naturaliza a presença masculina e branca no centro da disputa pelo poder, enquanto mantém mulheres, especialmente mulheres negras, distantes dos espaços de maior decisão. Em um país de maioria negra e no qual as mulheres representam mais da metade da população, quem disputa o poder máximo da República continua longe de refletir quem é o Brasil. Essa tônica inclusiva se repete ao longo de toda a Campanha.
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A palavra apartheid, de origem africâner, significa literalmente “separação” ou “estado de estar separado” e ficou historicamente associada ao regime institucional de segregação racial imposto pela minoria branca na África do Sul entre 1948 e o início da década de 1990. Evidentemente, não se trata aqui de equiparar a sub-representação política dos negros e das mulheres brasileiras à violência e às características específicas daquele regime. O termo é utilizado como uma analogia deliberadamente provocativa para evidenciar uma separação persistente entre quem compõe a sociedade e quem efetivamente ocupa os espaços de poder. E essa lente se torna ainda mais pertinente quando gênero e raça se cruzam: se as mulheres já enfrentam barreiras para chegar ao centro das decisões políticas, para as mulheres negras essa distância é ainda maior. O poder brasileiro continua tendo gênero e raça.
Entre os candidatos presentes no primeiro debate estavam Renan Santos, Ronaldo Caiado e Augusto Cury. Entre os ausentes, Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema. Diferentes partidos, trajetórias e posições políticas, mas algo salta aos olhos antes mesmo de qualquer proposta ser apresentada. São todos homens brancos. E talvez seja justamente essa imagem, tão familiar que quase já não nos causa estranhamento, que deveria nos incomodar. A única candidata negra a presidência, Samara Martins, não chega a 1% das intenções de voto e, portanto, não podem compor os debates eleitorais.
A filósofa política Carole Pateman nos ajuda a compreender que essa ausência não é apenas uma fotografia circunstancial das eleições de 2026. Em O Contrato Sexual, ela expõe uma contradição fundadora das democracias modernas: a promessa de liberdade e igualdade conviveu historicamente com estruturas que subordinavam as mulheres e restringiam sua cidadania. Mais de três décadas depois, sua reflexão permanece desconfortavelmente atual. Se as mulheres, e ressalto, as mulheres negras que são 29% da população brasileira, podem votar, mas quase não aparecem entre aquelas consideradas aptas a governar, precisamos perguntar até que ponto realizamos, de fato, a promessa democrática de igualdade.
Mas o problema é ainda maior do que a ausência das negros, mulheres, mulheres negras, entre os homens presentes a falta de profundidade nas questões referentes a raça e gênero é notável. Não há profundidade alguma no debate de raça e gênero em nenhumas das conversas, desde a debates a entrevistas individuais.
É justamente diante desse cenário que iniciativas de educação política ganham ainda mais relevância. Em 2026, a Gestão Kairós lançou a terceira edição da Cartilha Voto Inclusivo, uma ferramenta criada para estimular uma escolha eleitoral mais consciente e ampliar o olhar sobre representatividade, diversidade e inclusão na política
Democracia não se resume ao direito de votar, mas também à possibilidade real de diferentes pessoas participarem da construção do poder e influenciarem as decisões que moldam o país. Quando negros, mulheres, e na intersecção mulheres negras, são maioria do eleitorado, mas seguem sub-representados nos principais espaços de decisão política, não estamos diante apenas de um problema de representatividade, mas de um déficit democrático. Uma democracia em que negros e mulheres votam, mas raramente são vistos como opção para ocupar os postos mais altos de poder, ainda precisa percorrer um longo caminho para que igualdade política deixe de ser princípio e se torne prática.
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