Trinta reais no chão da sala, trezentos mil na conta do hospital

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Trinta reais no chão da sala, trezentos mil na conta do hospital
Foto: Canva

Tem uma Dona Sônia na sua família.

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Setenta e dois anos, ri alto, faz bolo no domingo, cria neto, toma remédio de pressão há quinze anos e jura que está ótima. E tem um tapete solto no meio da sala dela, sem antiderrapante, com a ponta levantada perto da porta, que custou trinta reais na feira e é o objeto mais perigoso daquela casa. Pode causar uma queda da própria altura, que pode quebrar um osso.

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Acompanhe o que vem depois da queda, porque é aí que está o assunto de hoje. Ela quebra o fêmur, fica quase duas semanas internada, opera, recebe alta e começa a peregrinação: ortopedista num lugar, fisioterapia em outro, cardiologista num terceiro, e em boa parte do país isso significa estrada, barco, diária de acompanhante e um dia inteiro de trabalho perdido a cada consulta. Cada profissional fica com um pedaço da história, os exames não circulam, a receita muda sem que se confira a anterior, e quem acaba coordenando o caso é a filha, que aprende a carregar pasta de exame e a remarcar consulta no WhatsApp.

Eu já quebrei o meu fêmur. Foram duas cirurgias, a primeira com fixador externo, a famosa gaiola, e outra com uma haste de metal por dentro do osso. Passei dias internado em UTI cardiológica com suspeita de embolia gordurosa, que acontece quando o osso longo fraturado libera gordura da medula na circulação e essa gordura chega ao pulmão e obstrui vaso. Um terror. A conta hospitalar passou de trezentos mil reais, e depois vieram meses de fisioterapia.

Deu tudo certo e eu fiquei ótimo, com uma vantagem que é preciso dizer em voz alta: eu era jovem e tinha reserva muscular e funcional alta, construída em esporte desde a infância. Com setenta e dois anos a história costuma ser outra, e para quem não tem recurso ela também costuma ser outra.

A peregrinação que descrevi tem nome e se chama fragmentação do cuidado. O dinheiro se perde menos no preço de cada consulta e mais nos buracos entre uma e outra, e quem trata a própria doença em pedaços separados interna mais, coisa que estudo de vários países vem mostrando na mesma direção. Aqui a conta chega dividida em três: a que o SUS ou o plano paga, a do trabalho que se perde, e a que a família banca em transporte, tempo e desgaste.

Eu opero face e faço doutorado na Faculdade de Medicina da USP pesquisando inteligência artificial. O que mais me intriga é o que a máquina vai deixar de enxergar, tendo aprendido com poucos rostos como o meu. Um exemplo do meu campo: criança com síndrome craniofacial rara costuma receber diagnóstico tarde no Brasil, e a triagem por imagem pode levantar a suspeita mais cedo, inclusive em região onde o especialista mais próximo está a horas de viagem. Isso funciona melhor com o rosto negro dentro do banco de imagens desde o começo.

Há também o risco de a conta ser feita contra nós. Até 2021, a fórmula mais usada no mundo para estimar como o rim está funcionando entregava um resultado diferente quando o paciente era negro, o que fazia o rim parecer melhor do que estava e atrasava o encaminhamento para o especialista e para a fila de transplante, prática que as sociedades médicas de nefrologia recomendaram abandonar naquele ano. Um médico revisa uma conta dessas numa consulta. Um algoritmo treinado com ela repete o mesmo atraso milhões de vezes por dia, em silêncio, e a responsabilidade se dilui pelo caminho.

Então, antes de virar o sistema de ponta-cabeça, que tal começarmos pela prevenção das quedas?

Dá para medir sua reserva hoje, de graça, em menos de um minuto. Fique de pé numa área livre, com alguém por perto, sente no chão e levante usando o mínimo de apoio que conseguir, sem pressa. São dez pontos, cinco para sentar e cinco para levantar, e você desconta um ponto a cada apoio que usar, mão, joelho, antebraço ou lateral da perna, mais meio ponto se perder o equilíbrio.

Salve o resultado com a data no bloco de notas do celular ou mande para o seu próprio e-mail, porque assim você acha na hora da consulta e consegue comparar daqui a seis meses.

O teste é brasileiro, criado no fim dos anos 1990 pelo professor Claudio Gil Araújo, e o que ele mostrou não é pouco: em mais de dois mil adultos entre 51 e 80 anos, acompanhados por cerca de seis anos, quem pontuou de 0 a 3 morreu cerca de cinco vezes mais, por todas as causas, do que quem pontuou de 8 a 10. Se você tem prótese de quadril, joelho operado, osteoporose ou dor, não force nada e leve a pergunta ao seu médico. Nota baixa hoje é endereço de treino.

Esse número sozinho não resolve o caso, porque orientação vira ação dentro de uma relação de cuidado, com alguém que conheça a história inteira. Ele serve para começar a conversa, e começar conversa é mais antigo do que parece. O Papiro Edwin Smith, escrito no norte da África há mais de três mil e seiscentos anos, descreve 48 casos cirúrgicos em ordem, um a um, e cada caso termina com o veredito do cirurgião sobre o que ele vai tratar, com o que ele vai lutar e o que está fora do alcance. Registro, ordem, plano e responsabilidade declarada. É o que o sistema de hoje se esforça para reaprender, agora com computador no meio.

A Dona Sônia da sua casa continua rindo alto na sala. O tapete continua lá.

Às vezes a gente procura solução complicada para problema de saúde, quando o que resolve é usar de um jeito novo a ferramenta que já está na mão. Isso tem nome: inovação, e é por isso que eu insisto.

Hoje, antes de dormir: tire o tapete e faça o seu teste, salvando o número com a data. Depois mande esta coluna para quem cuida de alguém em casa.

Eu sou Dr. Lucas Diniz, cirurgião plástico facial pela USP, CRM-SP 194459, RQE 111712, pesquisador de Inteligência Artificial para Cirurgias Craniofaciais da perspectiva da população negra.

Texto de caráter estritamente informativo e educativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico formal.

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