Tia Ciata, Madrinha Eunice e outras mulheres de terreiro protegeram o samba da perseguição policial no início do século 20, no Rio e em São Paulo.
Quem canta “Pelo Telefone” hoje dificilmente sabe que a canção considerada o primeiro samba registrado no Brasil nasceu no quintal de uma casa de candomblé, no centro do Rio de Janeiro, comandada por uma mulher negra baiana chamada Hilária Batista de Almeida. Ela ficou conhecida como Tia Ciata e, ao lado de outras sacerdotisas vindas da Bahia, transformou seu terreiro em abrigo para uma manifestação musical que a polícia da Primeira República perseguia como crime.
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Nascida em 1854, com fontes divergindo entre Salvador e Santo Amaro da Purificação como sua cidade natal, Hilária foi iniciada no candomblé da nação Ketu ainda jovem, consagrada filha de Oxum. Aos 22 anos, ainda no período da escravidão, deixou a Bahia rumo ao Rio de Janeiro, então capital do país, integrando o fluxo migratório que ficou conhecido como diáspora baiana. Famílias inteiras de escravizados e libertos se deslocaram naquele período para os bairros da Saúde, da Gamboa, do Santo Cristo, da Praça Onze e da Cidade Nova, formando a região que passaria à história como Pequena África.
Antes de virar samba carioca, o gênero já existia como tradição no Recôncavo Baiano, onde o samba de roda reúne música, dança e poesia desde pelo menos a década de 1860, associado a festas de terreiro e a celebrações como as de São Cosme e Damião. Historiadores da música popular apontam essa manifestação, reconhecida em 2004 pelo Iphan e em 2008 pela Unesco como patrimônio imaterial da humanidade, como uma das principais fontes do samba urbano que se consolidaria no Rio de Janeiro décadas depois. O que Tia Ciata e outras baianas levaram para a Pequena África, portanto, não era uma novidade cultural, mas a continuidade de um saber que suas famílias já cultivavam em terreiros e casas de santo na própria Bahia.
Em solo carioca, Tia Ciata se estabeleceu inicialmente na Rua da Alfândega e, tempos depois, na Rua Visconde de Itaúna, próxima à Praça Onze. Foi lá que consolidou sua posição como mãe de santo respeitada, mantendo os preceitos religiosos aprendidos na casa de João Alabá e recebendo o título de Mãe Pequena dentro da hierarquia do terreiro. O casamento com o médico negro João Batista da Silva, que chegou a atuar no gabinete do chefe de polícia durante o governo de Wenceslau Brás, deu à casa uma camada extra de proteção em um contexto de vigilância constante sobre as religiões de matriz africana.

A residência de Tia Ciata funcionava em duas frentes que dividiam o espaço físico e também a tolerância da polícia. Na sala de visitas, aconteciam bailes com músicas mais aceitas pela sociedade da época, como o choro e as modinhas, recebendo inclusive gente da alta sociedade da zona sul, que frequentava as festas atraída pela fama de curandeira e pelos doces vendidos pela anfitriã. No terreiro, nos fundos, formavam-se as rodas de samba, com batuques e partido alto entre sambistas mais jovens, entre eles nomes que se tornariam centrais na música popular brasileira, como Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Heitor dos Prazeres, Sinhô, Caninha e o jornalista Mauro de Almeida.
A separação entre a sala e o terreiro foi resultado direto da legislação penal do início do século 20, que tipificava como crimes a vadiagem, a capoeiragem e o curandeirismo, categorias usadas pela polícia para criminalizar de forma discricionária a circulação de pessoas negras pelas ruas e a prática de manifestações culturais associadas a elas. A capoeira e gêneros musicais próximos ao samba eram enquadrados como capoeiragem, enquanto terreiros de candomblé e macumba sofriam batidas policiais sob a acusação de curandeirismo, com instrumentos apreendidos, sacerdotes presos e templos invadidos.
Casas como a de Tia Ciata funcionavam como um ponto de equilíbrio dentro desse quadro de perseguição, negociando espaço e proteção com as próprias autoridades que reprimiam outras rodas pela cidade. Relatos históricos registram que, em uma das batidas policiais, um investigador conhecido pela alcunha de Bispo aproveitou a fama de curandeira de Ciata para pedir ajuda contra uma ferida do então presidente Wenceslau Brás, considerada incurável pelos médicos da época. “Quem precisa de caridade que venha cá”, teria respondido a baiana, episódio que ilustra como sua autoridade espiritual também servia de moeda de negociação com o poder público. Durante o mandato de Wenceslau Brás, entre 1914 e 1918, as festas em sua casa chegaram a contar com a presença de dois soldados enviados para fazer a segurança, sinal de que a proteção conquistada por Ciata alcançava também suas festividades profanas.
Tia Ciata não estava sozinha nessa função, dividida com outras tias baianas que mantinham casas semelhantes espalhadas pela Cidade Nova e pela Praça Onze. Amélia Silvana de Araújo, a Tia Amélia, era mãe de santo e cantadeira de modinhas, promovia festas e encontros musicais em sua própria residência e criou o filho Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o futuro Donga, dentro desse ambiente de candomblé e samba. Preciliana Maria Constança, a Tia Preciliana, natural de Santo Amaro, era mãe de João da Baiana e liderava uma casa igualmente frequentada pelos jovens músicos da região. Veridiana, mãe de Chico da Bahiana, além de Bebiana, Mônica, Carmem, Gracinda, Josefa Rica, Tomásia e Dadá completavam essa rede de mulheres que reuniam comunidades inteiras em torno de festas religiosas, como as de São Cosme e São Damião, e de encontros musicais que misturavam sagrado e profano. Pesquisas mais recentes, como as do musicólogo Alberto Tsuyoshi Ikeda, levantam a hipótese de que a própria Tia Ciata não se limitava ao papel de anfitriã e chegava a tocar violão e improvisar como partideira nas rodas, o que sugere uma participação musical direta ainda pouco documentada.

Foi em uma dessas rodas, no quintal da casa de Tia Ciata, que a melodia de “Pelo Telefone” tomou forma ao longo de 1916. Donga registrou a partitura no Departamento de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional em 27 de novembro daquele ano, sob o número 3.295, incluindo posteriormente o jornalista Mauro de Almeida como coautor da letra. A canção foi lançada em disco pela Casa Edison em janeiro de 1917 e se tornou o grande sucesso do carnaval carioca daquele ano, consagrada pela historiografia musical como o primeiro samba registrado e gravado no país, ainda que pesquisas posteriores tenham identificado gravações anteriores, como “Em Casa da Bahiana”, de 1913, que não alcançaram a mesma repercussão popular.
A autoria individual atribuída a Donga gerou controvérsia entre os frequentadores da própria roda que deu origem à composição. Em fevereiro de 1917, o Jornal do Brasil publicou uma nota do Grêmio Fala Gente afirmando que o “verdadeiro tango Pelo Telefone” pertencia aos “inspirados carnavalescos João da Mata, o mestre Germano, a nossa velha amiguinha Ciata e o bom Hilário”, em uma disputa pública que nunca chegou a uma reconciliação entre os envolvidos. O episódio expõe um traço recorrente da formação do samba carioca, construído de forma coletiva nas rodas dos terreiros e, depois, registrado e comercializado em nome de compositores individuais, quase sempre homens.
Tia Ciata também sustentava sua casa com o comércio de doces vendidos pelas ruas e com o aluguel de roupas de baiana, confeccionadas com esmero, usadas em teatros e nos desfiles de carnaval por foliões de diferentes classes sociais. Esse figurino, hoje reproduzido pela ala das baianas nas escolas de samba, carrega até os dias atuais a memória direta dessas mulheres que sustentaram estruturalmente a formação do gênero.
O mesmo padrão de mulheres negras de terreiro sustentando a formação de escolas de samba se repetiu em São Paulo, com Deolinda Madre, mais conhecida como Madrinha Eunice. Nascida em Piracicaba em 14 de outubro de 1909, filha de pais que haviam sido escravizados e alcançado a liberdade por cartas de alforria, ela se mudou ainda criança para a capital paulista e cresceu no Bairro da Liberdade, região que concentrava famílias negras antes da chegada da imigração japonesa. Deolinda vendia frutas nas ruas do centro, chegou a manter quatro barracas na região e mantinha um terreiro de quimbanda, tradição religiosa afro-brasileira distinta do candomblé mas igualmente perseguida pela polícia no mesmo período.

Em 1936, uma viagem ao carnaval carioca da Praça Onze a aproximou do desfile da Unidos de São Carlos, hoje Estácio de Sá, e a inspirou a criar sua própria agremiação de volta a São Paulo. Fundou, em 9 de fevereiro de 1937, a Sociedade Recreativa Beneficente Esportiva Escola de Samba Lavapés, a mais antiga escola de samba paulistana ainda em atividade, embora o primeiro desfile oficial só tenha ocorrido dezoito anos depois, em 1955, no Parque Ibirapuera. Madrinha Eunice foi por muitos anos a única mulher a presidir uma escola de samba na cidade e também compôs sambas-enredo, entre eles “São Paulo Antiga”, em parceria com Chico Pinga, Popó e Doca. Ela morreu em abril, com fontes divergindo entre 1995 e 1996 como o ano exato. “Foi um dos baluartes do samba, a primeira mulher negra, independente, avante do seu tempo”, disse a neta Rosemeire Marcondes, em entrevista ao portal Terra. Em 2022, uma escultura em sua homenagem foi inaugurada na Praça da Liberdade, em São Paulo.
Tia Ciata morreu em 1924, aos 70 anos, mas o espaço que ocupou na história do samba carioca segue sendo disputado e recontado. A Nova Casa da Tia Ciata, reinaugurada em 2025 como sede da Organização dos Remanescentes da Tia Ciata, funciona hoje como centro de referência da memória negra no Rio de Janeiro, com exposições permanentes que conectam o território da antiga Pequena África à produção musical que ali nasceu. Roteiros culturais pela região, incluindo visitas à Pedra do Sal e aos arredores da Praça Onze, seguem sendo oferecidos como forma de manter viva a ligação entre o candomblé, a resistência negra e a origem do samba. Em São Paulo, a estátua de Madrinha Eunice na Praça da Liberdade cumpre função semelhante, mantendo visível, no espaço urbano, o nome de uma mulher negra que também colocou o terreiro no centro da formação do samba brasileiro.
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