Por Hédio Silva – Advogado e presidente do Idafro e JusRacial
O vodu, religião de matriz africana, foi o estopim da revolta de escravizados que, a partir de 23 de agosto de 1791, enfrentou o domínio colonial francês em São Domingos e deu início ao processo revolucionário que culminaria na fundação da República do Haiti, primeiro país independente da América Latina e do Caribe a abolir definitivamente a escravidão.
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O vodu foi essencial para cimentar uma identidade comum e agregar diferentes grupos étnicos, lideranças e revoltosos. Foi durante uma cerimônia conhecida como Bwa Kayiman (ou Bois Caïman), liderada pelo sacerdote Dutty Boukman, que milhares de revoltosos se mobilizaram para iniciar ataques, incendiar plantações, libertar escravizados e enfrentar os senhores de engenho.
Morto em combate, Dutty Boukman, o Feiticeiro Negro, tornou-se um dos primeiros grandes líderes da Revolução Haitiana. Depois dele, ganharam protagonismo nomes como Toussaint Louverture, um dos maiores revolucionários das Américas, e, posteriormente, o lendário Jean-Jacques Dessalines.
Juntos, os chamados jacobinos negros enfrentaram e derrotaram o poderio militar francês. Em 1º de janeiro de 1804, consolidava-se a independência do Haiti, resultado da primeira revolução vitoriosa da história moderna conduzida por pessoas escravizadas contra o sistema colonial e escravista.
A independência haitiana, que completa 222 anos em 2026, não pode ser compreendida sem reconhecer o poder agregador, a resistência e a capacidade transformadora das religiões de matriz africana.
Na década de 1990, o dia 23 de agosto foi instituído pela Unesco como Dia Internacional em Memória do Tráfico de Escravos e sua Abolição, em referência ao início da insurreição de 1791 e em memória das milhões de pessoas vitimadas pelo tráfico transatlântico de africanos escravizados.
A história da Revolução Haitiana ajuda a compreender por que racistas e genocidas temem tanto nossas religiões: elas carregam autonomia de pensamento, altivez, insubmissão, resistência e libertação.
E, parafraseando Gilberto Gil e Caetano Veloso: “E todos sabem como se tratam os pretos (…) “O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui.”
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