Por: Rachel Maia
O Brasil é um país majoritariamente negro (56%), mas essa maioria ainda é minoria nos espaços de poder, prestígio e decisão — e isso inclui hospitais, cursos de medicina e consultórios. A população negra enfrenta os piores indicadores de acesso à saúde e segue sub-representada entre os profissionais que ocupam a linha de frente do cuidado: os médicos.
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Pessoas negras e indígenas vivem em maior vulnerabilidade social, enfrentam dificuldade de acesso a tratamentos, diagnósticos tardios e índices alarmantes de mortalidade materna e de doenças crônicas. E isso se deve ao fato de que a medicina ainda é um espaço historicamente elitizado, branco e distante da realidade da maioria da população brasileira, principalmente quando o assunto é prevenção e estética.
Estar nesses espaços e discutir o tema é um passo importante para compreender que a presença de médicos negros possui um significado que vai além da ocupação profissional. Ela ajuda a construir vínculos mais humanizados dentro do sistema de saúde, pois, para muitos pacientes, enxergar-se representado no atendimento gera acolhimento, confiança e pertencimento — algo fundamental em qualquer processo de cuidado.
Doutor Lucas Diniz é cirurgião plástico facial e doutorando em Ciências Cirúrgicas pela USP, com experiência internacional em Stanford, na Weill Cornell University (EUA) e na Mannheim Universität (Alemanha). Atualmente atende em consultório particular e realiza cirurgias em hospitais de renome em São Paulo. É cirurgião voluntário em projeto social do Barco Papa Francisco, na Amazônia, e compreende as dores da limitação de acesso na pele. Ao comemorar sua aprovação em primeiro lugar para Membro Titular da Academia Brasileira de Cirurgia Plástica da Face, ele nos oportuniza, mais uma vez, sonhar e agir.
“Minha trajetória foi lapidada em casa. Filho de um eletricista e de uma agente de saúde, aprendi cedo que a educação é a maior ferramenta de transformação. Foi com essa perseverança que cheguei em primeiro lugar no ingresso em Medicina, na residência e no fellowship de Cirurgia Plástica da Face da USP. Neste mês, recebi a notícia de que fui aprovado em primeiro lugar na prova para Membro Titular da Academia Brasileira de Cirurgia Plástica da Face. Sou o primeiro homem negro a conquistar esse título. Porém, a pergunta que faço é: por que demorou tanto e o que faremos para que não demore de novo?”, questiona o Dr. Diniz.
O ingresso nas faculdades de Medicina continua sendo uma das maiores expressões da desigualdade racial no Brasil. Cursos caros e obstáculos educacionais históricos afastaram gerações de jovens negros desse espaço. O avanço das políticas de cotas é notório e nos levará a novos índices, mas os desafios para estudantes negros são muitos, e é preciso olhar para esse ponto para que a equidade seja aplicada. Combater o racismo acadêmico, a pressão psicológica e as dificuldades financeiras — fatores que ampliam essa desigualdade — é fundamental para que os alunos permaneçam nos cursos e tenham a oportunidade de competir em igualdade de condições.
“Estudo é tão essencial quanto oportunidade; afinal, ninguém se lapida sozinho. O Dr. Carlos Caropreso, chefe do serviço da USP, me viu e me estimulou. No exterior, abriram-se portas: Stanford, pelas mãos dos Drs. Thomaz Fleury e Robson Capasso; a Weill Cornell, com o Dr. Michael Stewart. Vale registrar: todos que me formaram no Brasil, inclusive meu orientador de doutorado na USP, Dr. Nivaldo Alonso, são aliados não-negros. Sou profundamente grato a cada um deles”, enfatiza o médico.
Intencionalidade e políticas públicas são a soma do investimento inicial no combate à desigualdade social e racial na saúde. Contribuir para mudar culturas institucionais, ampliar perspectivas e humanizar o cuidado é uma responsabilidade que precisa fazer parte das decisões e das pautas institucionais. Sabemos que ampliar o número de médicos negros não resolve sozinho o problema do racismo estrutural na saúde, mas é mais uma ação de transformação fundamental para essa mudança que segue atrasada, mas em curso.
“Em toda a trajetória escolar, tive um único professor negro, Estéfani Martins, que me deixou um ensinamento que carrego até hoje: ‘O que te define é como você se apresenta para o desafio no seu pior dia.’ Na faculdade, ouvia histórias do professor Odo Adão, primeiro cirurgião plástico negro do Brasil. Mas, em toda a minha formação médica, não tive um único professor negro. Precisei sair do país para ver cirurgiões negros em posição de destaque”, informa o doutor.
A presença de médicos negros tem contribuído para transformar a forma como pacientes negros se relacionam com o autocuidado, com os serviços de saúde e com a própria confiança nas instituições médicas. Essa representatividade amplia perspectivas, fortalece vínculos e traz para o centro do debate questões fundamentais para o aprimoramento das políticas públicas de saúde. A tecnologia e a produção de conhecimento baseada em dados são ferramentas indispensáveis para compreender desigualdades, desenvolver soluções e ampliar o acesso a cuidados mais equitativos.
Para o Dr. Lucas, a experiência de mentoria com o Dr. Kofi Boahene, cirurgião plástico da Johns Hopkins, o fez refletir sobre outra perspectiva, mesmo quando as estatísticas diziam o contrário. Todo profissional precisa ter acesso ao conhecimento pleno para atender às demandas tecnológicas que estão em curso. Precisamos de mais mentores médicos negros e nos preparar para plantar as tamareiras para as próximas gerações colherem os frutos.
“Dominar a inteligência artificial é a tecnologia do agora. Um estudo da IDC com a Microsoft, apresentado pela presidente da Microsoft Brasil, Priscyla Laham, mostra que 90% dos executivos C-level brasileiros veem a IA como diferencial-chave de competitividade em seus setores, e 88% a consideram o principal motor de competitividade até 2030. Se as portas do passado foram abertas por pessoas, as do futuro serão abertas por quem dominar as ferramentas”, ressalta o médico.
O Dr. Lucas faz uso de IA desde 2022 e aprendeu diretamente na fonte, no Vale do Silício, a testar diversas ferramentas para aprimorar suas técnicas e conhecimentos. Ele afirma que existe um mundo além do ChatGPT e que as habilidades do futuro, como a IA agêntica, precisam ter a nossa cor. Ao propor que nossas instituições, ABCPF e ABORL-CCF, realizem o censo — quem somos, por raça e cor —, ele reafirma a urgência dos dados para que possamos corrigir as estruturas históricas que, consequentemente, atrasam nossa evolução social e econômica.
“Quem chega primeiro deixa a porta aberta. Como nos mostrou a genial Rachel Maia em seu livro Meu Caminho até a Cadeira Número 1, levar a próxima geração mais longe é o meu, o seu, o nosso dever”, acrescenta o especialista.
A busca por uma sociedade mais inclusiva dialoga com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente o ODS 3, voltado à saúde e ao bem-estar, e com as metas brasileiras de promoção da igualdade étnico-racial, ODS 18. Construir uma medicina mais diversa significa oportunizar esperança aos jovens estudantes negros que desejam seguir a carreira e aos pacientes negros que têm direito ao cuidado e a se verem representados.
