Os modelos Rita Carreira e Mohamed Deme utilizaram as redes sociais para denunciar um episódio de racismo ocorrido durante um voo da Air France que partia de Paris com destino a São Paulo. Segundo o casal, o caso envolveu a hostilidade de um passageiro e uma postura negligente por parte da tripulação.
De acordo com o modelo senegalês, a situação começou logo após o embarque. Ao ocupar seu assento designado, o passageiro ao lado passou a encará-lo com hostilidade e a demonstrar incômodo físico com sua presença, evitando qualquer contato de forma brusca. O homem chegou a declarar: “Você pode sentar aí, mas não pode encostar em mim porque eu não gosto que me toquem”.
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Ao ser questionado sobre a inviabilidade de evitar qualquer contato físico no assento do meio, o passageiro solicitou a uma comissária a troca de lugar. Mohamed relatou o constrangimento ao ver o homem retornar para buscar seus pertences debochando e rindo da situação. Nesse momento, o modelo começou a gravá-lo. “Eu disse a ele: ‘Você é muito racista’. Ele apenas respondeu: ‘E daí?'”, relembrou.
Abordagem da companhia
Para o casal, a conduta da Air France foi ainda mais desrespeitosa. Rita descreve que três funcionários cercaram Mohamed, exigindo que ele desligasse o aparelho e parasse de falar em “racismo”, sob a alegação de que ele estaria incomodando os demais passageiros. “Tentaram de todas as formas diminuir a dor dele”, afirmou a modelo em entrevista ao portal Mundo Negro, destacando que a empresa tentou fazer o marido acreditar que estava “imaginando coisas”.
“Ele estava chorando, agachado; foi muito triste. Estavam acuando ele, querendo abafar o caso. Em nenhum momento o acolheram. Só deram atenção ao outro passageiro, oferecendo-lhe um novo lugar”, completou Rita.
O casal relata ainda que, após o pouso, houve contradições entre a equipe. Ao ser procurada por Rita, uma comissária afirmou estar ciente do caso, mas disse que não poderia fornecer o nome do outro passageiro e que chamaria o comandante. No entanto, o comandante declarou não saber de nada. Posteriormente, a mesma comissária mudou sua versão, afirmando que nada havia acontecido. “Começaram a se proteger entre eles”, criticou a modelo.
Obstáculos na delegacia
Na última quinta-feira (12), o casal tentou registrar um boletim de ocorrência na delegacia do Aeroporto de Guarulhos, mas enfrentou novos obstáculos. Segundo Rita, eles precisaram repetir o depoimento três vezes para policiais diferentes — todos brancos —, que alegaram que o caso não configurava crime de racismo ou injúria racial, pois o agressor não utilizou xingamentos ou gestos específicos.
“Eles nunca vão entender o que passamos. Eu tentei explicar ao policial que, diante de todo o contexto, aquilo é racismo para nós. Mas, para a lei, eles precisam de algo mais”, desabafou. “Quanto mais ensinamos sobre o racismo, mais essas pessoas aprendem a se blindar. O agressor sabia onde ferir meu marido. Nada apaga o que vivemos; ver o sofrimento dele é uma dor irreparável”, lamentou.
Mesmo com o apoio de uma testemunha que se prontificou a depor, Rita e Mohamed sentem-se desamparados pelas autoridades devido à alegada falta de provas. O casal, que retornava de uma semana de trabalho na Paris Fashion Week, reforçou que as passagens foram custeadas com recursos próprios e que a companhia aérea não ofereceu suporte diante do ocorrido.
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