No Brasil, onde mais de 56% da população se autodeclara negra, a desigualdade racial e de gênero no mercado de trabalho ainda é alarmante. Dados recentes mostram que apenas 3% da população negra ocupa cargos de alta liderança no país, e o percentual de mulheres negras em posições executivas é ainda menor. Essa discrepância reflete uma estrutura corporativa que, historicamente, exclui e invisibiliza corpos negros, especialmente os femininos, dos espaços de decisão. Nesse contexto, a jornada de uma mulher negra até o topo é marcada por desafios desproporcionais, mas também por um poder transformador que transcende o individual.
É comum ouvirmos no meio corporativo que a liderança é uma jornada solitária. No entanto, quando essa trajetória é atravessada pela interseccionalidade de raça e gênero, essa afirmação deixa de ser um mero clichê de gestão para se tornar uma realidade concreta, dura e diária. Para a maioria das executivas negras que alcançam o topo, a experiência de ser a única presença negra em salas de reunião, conselhos e diretorias não é uma exceção, mas, na maioria das vezes, a regra do cotidiano.
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Costumamos idealizar mentalmente a figura da liderança perfeita: um time diverso, empoderado e conduzido por uma pessoa “super-heroína” capaz de equilibrar todos os pratos. Contudo, no cotidiano, a solidão da mulher negra na gestão se manifesta de forma sutil e profunda. A ausência de pares na alta liderança que compartilhem das mesmas vivências faz com que conselhos e modelos tradicionais de gestão precisem ser constantemente filtrados e adaptados para fazerem sentido dentro da nossa própria realidade e essência.
Essa sensação de isolamento reflete diretamente a estrutura do mercado de trabalho brasileiro. Trata-se de uma discrepância alarmante em uma nação onde mais de metade da população é negra, evidenciando como o acesso ao topo exige um esforço desproporcional, acompanhado por inseguranças e pela enorme responsabilidade de inspirar e puxar aqueles que o sistema insiste em deixar à margem.
A complexidade dessa jornada se intensifica quando inserimos o recorte da maternidade. O mercado corporativo tradicional historicamente pregou o mito de que a maternidade colocaria um fim na carreira de uma executiva. A prática cotidiana, no entanto, demonstra o exato oposto: a maternidade possui o potencial de transformar a mulher em uma líder incomparavelmente melhor, mais empática, estratégica e resiliente.
O desafio, no entanto, reside na falta de estruturas acolhedoras que compreendam a integração entre a vida pessoal e a profissional sem tabus ou penalizações veladas. Políticas corporativas que promovam a equidade de gênero e a inclusão de mães no mercado de trabalho são essenciais para que essas mulheres possam exercer todo o seu potencial.
Lidando com esses cenários há mais de 25 anos e hoje como presidente da Fundação 1bi, atuando com a melhoria da educação pública por meio da tecnologia, reflito que:
“O cargo e o título, para mim e de onde eu venho, fazem toda a diferença. Não porque o título sirva para autoafirmação, mas porque, ao verem uma mulher negra ocupar uma diretoria executiva e, na sequência, uma presidência, outras pessoas entendem que também podem chegar lá. O título visibiliza a conquista e abre caminhos para que a jornada das próximas gerações seja um pouco mais leve.”
Quando uma mulher negra ocupa uma posição de liderança, ela não apenas quebra barreiras para si mesma, mas também inspira e pavimenta o caminho para outras mulheres negras que vêm depois.
Apesar dos avanços pontuais e do boom de compromissos públicos e vagas afirmativas registrado por volta de 2020, o cenário atual exige alerta. Percebe-se um movimento de recuo nas organizações, com a diminuição de programas afirmativos e a descontinuidade de comitês de diversidade.
Promover a transformação social e alterar a cultura corporativa é uma tarefa diária e exaustiva. Não basta apenas abrir portas de entrada em cargos de base; é urgente garantir o desenvolvimento, a retenção e a ascensão real dessas profissionais a posições decisórias. Empresas precisam ir além de discursos e compromissos superficiais, implementando políticas estruturais que garantam a equidade de forma sustentável.