“Nestes seios brancos que minhas mãos onipresentes acariciam, é da civilização branca, da dignidade branca que me aproprio.” — Frantz Fanon
Impossível encarar com naturalidade a opinião de algumas pessoas negras e brancas de que “o amor não tem cor”, ainda mais se considerarmos o tamanho da produção intelectual negra revelando os mecanismos racistas presentes na sociedade brasileira. Mas reconheço a força da ideologia dominante na produção e manutenção do racismo fazendo com que acreditássemos que “somos todos iguais”.
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A construção do afeto numa sociedade marcada por múltiplas diferenças (raça, classe e gênero) não escapa da hierarquização de pessoas. O homem e a mulher ideais carregam os atributos elencados pelos que detêm o poder simbólico e concreto. Considerando tal aspecto, o papel da colonização tornou-se fundamental na moldagem do desejo dos colonizados. Como a animalização e a objetificação dos povos escravizados se fizeram presentes desde a formação da sociedade brasileira, o referencial positivo de humanidade tornou-se propriedade da população branca.
Quem ousaria amar um objeto? Essa herança não explícita esconde-se nas consciências e vai além: o corpo negro também pode ser útil como instrumento de prazer. O estereótipo da hipersexualização, o “negrão gostoso” e a “mulata assanhada”, excitou gerações de pessoas.
A intelectual Lélia González nos lembra do estigma das mulheres negras, consideradas especialistas em sexo, e cita o ditado popular que sintetiza essa visão social: “branca para casar, mulata para fornicar, negra para trabalhar”. Daí testemunhamos uma parcela de homens negros em ascensão social entregando-se à intimidade com mulheres brancas; mulheres negras empurradas para o espaço da solidão, por vezes, sem encontrar saída que não as condicione ao universo branco. E, somadas a todas essas complexidades, outras formas de amar encontram resistência no afeto dentro da própria comunidade.
Ao longo da vida, ouvi casos de pais negros cobrando dos filhos que se relacionassem com pessoas brancas, no intuito de embranquecer a família. Nisso incluía-se a suposição de uma vida objetivamente menos sofrida: o branco consegue melhores oportunidades profissionais, não é perseguido pela polícia e tem menor risco de morrer por violência, além de poder abrir espaços de acesso para o negro. No livro de Neusa Santos Souza, uma entrevistada disse que a avó falava que a negra deveria transar com “o branco para limpar o útero”. Nem há como medirmos o grau desse tipo de violência.
Mas esses conselhos não contavam que a relação inter-racial resultaria num ônus pesado para a saúde mental dos negros — o racismo estaria presente a todo instante, dentro da própria família. Nas famílias brancas, a educação para o afeto tinha como foco o que não é novidade: a manutenção da herança colonial, o fortalecimento da branquitude.
No entanto, a comunidade negra segue resistindo. O resgate da humanidade negra, colocado dentro da luta antirracista, trouxe a subversão até do que sugere o próprio título deste texto. As lutas dos movimentos negros abriram importantes caminhos na maneira de olharmos para dentro de nós e para o povo negro. A identidade negra e a produção de espaços para a manifestação da nossa cultura nos aproximam mais. Amamo-nos. Criamos resistência psíquica para não nos deixarmos seduzir pelo discurso da branquitude.
Eu sei que a hipocrisia e a alienação dificilmente irão acabar, mas podemos afirmar, sem meias palavras, que “o amor tem cor”. Hoje estamos conscientes de quem somos. Ainda bem!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FANON, Frantz. Peles negras, máscaras brancas. Tradução de Sebastião Nascimento. 1. Ed. São Paulo: Ubu Editora, 2020.
GONZÁLEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização de Flavia Rios e Márcia Lima. 1. Ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. 2. Ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
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