Mundo Negro

Por que africanos torceram contra a África do Sul na copa? Pesquisador angolano explica

Foto: reprodução / @weloveghana042 / X

Por que africanos de vários países torceram contra a África do Sul na Copa 2026? O pesquisador angolano Geovany Cattuco explica a onda de xenofobia por trás do boicote.

O México venceu a partida por 2 a 0, no Estádio Azteca, na Cidade do México, em 11 de junho. Segundo Cattuco, nigerianos, senegaleses, ganeses, moçambicanos, congoleses, camaroneses, zambianos e angolanos estiveram entre os que declararam apoio ao adversário da seleção sul-africana. A razão, diz ele, não tem nada a ver com futebol.

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O pesquisador e criador de conteúdo angolano Geovany Fernandes-Cattuco, que acompanha cultura, história e língua do continente africano e tem 222 mil seguidores no Instagram, publicou um vídeo após a estreia da Copa do Mundo 2026 chamando atenção para um fenômeno que passou despercebido na cobertura esportiva brasileira: vídeos circularam nas redes sociais mostrando africanos de diferentes países vestindo as cores do México e declarando abertamente que torciam contra a África do Sul. Cattuco contextualiza o que estava em jogo: “quando existe uma competição internacional, normalmente nós, africanos, apoiamos outros africanos. Já que somos tão poucos, torcemos sempre uns pelos outros.” E completa: “no jogo de ontem, a maioria dos africanos torceu pelo México.”

Foto: reprodução/instagram

Cattuco explica que, para quem não está acompanhando as notícias do continente, a África do Sul vive uma escalada de ataques xenófobos organizados contra cidadãos de outros países africanos. O pesquisador descreve cenas que se tornaram recorrentes: “cidadãos sul-africanos organizados saem pelas ruas pedindo documentos a pessoas estrangeiras. Acontece com pessoas ilegais, mas também acontece com pessoas que vivem legalmente dentro do país. Quem não tiver documento é espancado com socos e pontapés.” Segundo ele, os grupos “vão até hospitais, ficam à porta dos hospitais para não deixar estrangeiros indocumentados receberem atendimento” e “fazem visitas em lojas de estrangeiros e mandam fechar.”

Os relatos correspondem à atuação documentada de dois movimentos organizados: a Operation Dudula e o March and March. A Operation Dudula surgiu em 2020 com o objetivo declarado de expulsar migrantes de outras partes do continente. A Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos registrou que o grupo bloqueou sistematicamente o acesso de migrantes a unidades de saúde públicas em Gauteng e KwaZulu-Natal em 2025. Em novembro do mesmo ano, o Tribunal Superior de Gauteng interditou o movimento, proibindo seus membros de exigir documentos de pessoas em espaços públicos e de praticar discurso de ódio. A violência, no entanto, continuou.

O prazo mais recente e mais concreto é o que Cattuco menciona diretamente: “esse grupo deu um prazo aos estrangeiros ilegais e irregulares: até o dia 30 de junho de 2026, todos eles devem deixar o país. Caso não saiam, eles não se responsabilizam pelo que vai acontecer depois dessa data.” A Human Rights Watch registrou em maio de 2026 que as demonstrações violentas do March and March se intensificaram nas semanas anteriores à essa data, com pouca resposta das autoridades.

O presidente Cyril Ramaphosa discursou em 7 de junho de 2026, anunciando o que chamou de Abordagem Abrangente para a Gestão da Migração, com criação de tribunais de imigração dedicados, dez mil novos inspetores de trabalho e penalidades maiores para empregadores que contratem trabalhadores indocumentados. Pela primeira vez, segundo a transcrição oficial da Presidência sul-africana, Ramaphosa usou a palavra “afrofobia” em um pronunciamento público. Ainda assim, ele não citou a Operation Dudula ou o March and March pelo nome e não fez referência ao prazo de 30 de junho.

Foto: Mike Hutchings/Reuters

A central sindical moçambicana OTM-CS, em nota divulgada em maio, afirmou que “a xenofobia dos sul-africanos é alimentada por narrativas políticas oportunistas, culpando o trabalhador estrangeiro pelas falhas estruturais de emprego”, e classificou a violência como “o assassinato simbólico do espírito pan-africanista.” Pesquisadores da Universidade de Joanesburgo e da Universidade de Cornell, em artigo publicado recentemente, apontam que grupos como a Operation Dudula canalizam a frustração gerada por desigualdade, má governança e estagnação econômica contra os aproximadamente 3 milhões de migrantes presentes no país, que representam cerca de 5% da população sul-africana.

Cattuco situa o episódio atual em perspectiva histórica ao lembrar a Copa de 2010, sediada na África do Sul: “muitos africanos sentiram um pouquinho de orgulho pela competição ser sediada no nosso continente. Vibraram muito com aquele golo do Tshabalala.” Em 2019, após uma onda anterior de ataques xenófobos no país, Zâmbia e Madagascar cancelaram amistosos confirmados contra a seleção sul-africana em boicote explícito. Dezesseis anos após 2010, no mesmo confronto de estreia contra o México, a posição do continente se inverteu.

Cattuco menciona que Marrocos também não conta com a torcida de boa parte dos africanos subsaarianos, mas que essa tensão é mais antiga. A partir de 2023, grupos e páginas com conteúdo racista contra migrantes subsaarianos se multiplicaram nas redes sociais marroquinas, com denominações como “Marroquinos contra o estabelecimento de subsaarianos no Marrocos”, reunindo milhares de membros. O governo marroquino, questionado por jornalistas sobre a proliferação desse conteúdo, declarou que o país é signatário de todas as convenções internacionais de direitos humanos e convocou os marroquinos a se distanciar dessas “vozes minoritárias.”

oto: Divulgação/África do Sul

O contexto regional mais amplo inclui a Tunísia, onde em fevereiro de 2023 o presidente Kaïs Saïed descreveu migrantes subsaarianos como parte de um “plano criminoso” para transformar o país em “uma nação puramente africana.” Segundo o Wilson Center, a repressão que se seguiu às declarações incluiu migrantes barrados do transporte público, demitidos, despejados de suas casas e agredidos. Um relatório da Carnegie Endowment for International Peace publicado em janeiro de 2026 aponta que, no Marrocos, o racismo faz parte da experiência cotidiana de migrantes subsaarianos, com discriminação frequentemente associada à cor da pele, e que mulheres migrantes estão especialmente expostas a violência e exploração sexual.

O vídeo de Cattuco parte de uma observação simples sobre o comportamento de africanos durante um jogo de futebol e chega a uma questão estrutural sobre os limites da solidariedade pan-africana. “Obviamente que não são todos os sul-africanos que se reveem nesse comportamento e também não acontece em todas as cidades do país”, pondera o pesquisador. “Mas tudo isso foi o suficiente para que outros países africanos se revoltassem e passassem a boicotar a África do Sul durante este Mundial.”

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