Por: Junia Mamedir
Ocupar e permanecer por uma vida possível para lideranças negras
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Durante o Setembro Amarelo, somos convocadas a falar sobre valorização da vida, prevenção do suicídio e cuidado com a saúde mental. Nesse contexto, valorizar a vida precisa significar mais do que impedir que ela termine. Significa também reconhecer as condições em que uma pessoa continua vivendo e perguntar se, nessa continuidade, ainda há espaço para dignidade, pertencimento, liberdade, descanso e sentido.
Para as lideranças negras, essa pergunta é especialmente necessária. Muitas chegam aos espaços de decisão carregando histórias que não começaram nelas: o esforço de gerações, o compromisso com seus territórios, as expectativas da comunidade e a consciência de que sua presença assume
uma dimensão coletiva. Ocupar um lugar historicamente negado é uma conquista profissional, mas também pode significar enfrentar estruturas que questionam sua legitimidade, ampliam a vigilância sobre seus movimentos e exigem uma disponibilidade que ultrapassa os limites do corpo e da vida.
Ocupar importa. Estar nos espaços em que decisões são tomadas, recursos são distribuídos e narrativas são definidas continua sendo necessário. Mas chegar não pode ser o único objetivo. É preciso construir condições para permanecer, sem que isso signifique suportar tudo, funcionar apesar de tudo ou sobreviver às custas de si.
Permanecer não é somente continuar no lugar. É poder continuar existindo dentro dele.
Quando a força deixa de ser escolha
Muitas lideranças negras aprenderam a seguir mesmo quando estavam cansadas. Aprenderam a resolver, proteger, organizar, orientar e responder às necessidades de outras pessoas. São reconhecidas pela força, pela capacidade de trabalho e pela habilidade de sustentar situações difíceis.
Essa força é real, mas não deve ser romantizada. Quando deixa de ser uma possibilidade e se transforma em obrigação, a potência também pode aprisionar. A pessoa passa a ser percebida pelo que entrega, pelo que suporta e pelo que representa. Seus medos, dúvidas, limites e necessidades ficam escondidos atrás da função que desempenha.
A neurociência ajuda a compreender parte desse processo. Sob pressões e ameaças contínuas, o organismo pode permanecer em estado de alerta. Respostas que inicialmente protegem passam a produzir sobrecarga quando não encontram pausa, segurança ou possibilidade de elaboração. O corpo permanece presente, a mente continua produzindo e a liderança segue entregando resultados, enquanto a experiência de viver se reduz, pouco a pouco, ao funcionamento.
Por isso, a saúde emocional não é um complemento da liderança. É uma das condições para que a pessoa permaneça inteira no lugar que ocupa. O cuidado não deve começar somente quando o sofrimento se torna insuportável; precisa integrar a forma como essa vida é sustentada.
Ocupar sem desaparecer de si
A psicologia humanista-existencial contribui para essa reflexão porque não reduz a pessoa ao papel social, ao diagnóstico ou ao desempenho. Carl Rogers compreendeu a saúde psíquica como um processo de tornar-se pessoa, marcado por maior abertura à experiência, autenticidade e congruência. Em termos simples, trata-se de diminuir a distância entre o que sentimos, o que reconhecemos em nós e a maneira como conseguimos estar no mundo.
Para muitas lideranças negras, viver essa congruência pode ser difícil. Há ambientes nos quais precisam parecer disponíveis quando estão exaustas, seguras quando sentem medo e inabaláveis quando necessitam de cuidado. Essa adaptação pode funcionar como estratégia de proteção. Quando se torna permanente, porém, produz fragmentação: a pessoa está presente para todos e ausente de si.
Rollo May, na tradição existencial, relaciona a coragem à afirmação do próprio ser diante da ansiedade e das incertezas da existência. Coragem, nesse sentido, não é ausência de medo nem capacidade de suportar indefinidamente. É reconhecer o que se vive, assumir escolhas possíveis e preservar a relação consigo, mesmo quando o contexto pressiona pela anulação.
Irvin Yalom também mostra que a existência humana é atravessada por questões como liberdade, responsabilidade, isolamento e busca de sentido. Elas não se resolvem com produtividade ou reconhecimento externo. Uma pessoa pode ocupar um lugar de destaque e ainda se sentir distante da própria vida. Pode estar cercada de pessoas e permanecer emocionalmente sozinha. Pode cumprir responsabilidades coletivas e perder o contato com aquilo que deseja para si.
A perspectiva existencial não oferece uma fórmula pronta para viver. Ela devolve perguntas fundamentais: como estou existindo no lugar que ocupo? O que tenho precisado esconder para continuar? Minhas escolhas ainda se aproximam de quem sou? Consigo reconhecer meus limites sem interpretá-los como fracasso? O que, em minha vida, não pode continuar sendo adiado?
Permanecer é mais do que resistir
A resistência faz parte da história das pessoas negras e foi indispensável para que muitas de nós chegássemos até aqui. Entretanto, ela não pode ser o único modo de existir. Quando a vida se organiza em torno da reação à violência, da resposta às urgências e da necessidade de provar capacidade, sobreviver ocupa o espaço que também deveria pertencer ao viver.
Existe uma diferença entre estar viva e sentir-se participante da própria existência. Uma pessoa pode continuar trabalhando, liderando, cuidando e comparecendo enquanto perde o vínculo com o prazer, o descanso, os afetos e os projetos que não precisam servir a nenhuma causa. Pode ser reconhecida publicamente e, ainda assim, não se reconhecer na vida que construiu.
Permanecer, portanto, não é conservar um cargo a qualquer preço. É preservar condições emocionais para pensar, sentir, escolher, criar vínculos, rever caminhos e perceber quando algo já não pode ser sustentado da mesma forma. Em alguns momentos, isso significará seguir. Em outros, estabelecer limites, pedir ajuda, redistribuir responsabilidades ou deixar um ambiente que exige o desaparecimento de si.
Nem toda permanência protege a vida. Permanecer de verdade exige que o eu também permaneça.
O cuidado como encontro consigo
O cuidado possui uma dimensão coletiva. Instituições, equipes, comunidades e movimentos precisam reconhecer desigualdades, distribuir responsabilidades de maneira justa e construir redes de proteção. Representatividade sem pertencimento pode produzir solidão. Visibilidade sem proteção pode ampliar a exposição. Reconhecimento sem sustentação pode se transformar em sobrecarga.
Há também uma dimensão que não pode ser transferida inteiramente ao coletivo: a relação que cada pessoa estabelece consigo. Cuidar de si é perceber o próprio corpo antes que ele precise interromper tudo. É reconhecer emoções sem vergonha, escutar necessidades, permitir-se receber apoio e compreender que o valor da vida não depende do quanto se produz para os outros.
Esse cuidado não é individualismo nem abandono do compromisso coletivo. É a recusa de uma lógica que transforma a pessoa negra em recurso inesgotável. O coletivo pode oferecer sustentação, pertencimento e proteção, mas ninguém deveria desaparecer dentro daquilo que ajuda a construir. Há um eu que precisa respirar, desejar, descansar, criar intimidade, mudar de ideia e viver experiências que não sejam convertidas em trabalho, luta ou legado.
Na abordagem centrada na pessoa, o encontro consigo não é um estado perfeito alcançado de uma vez. É um movimento contínuo de reconhecimento e integração. Quanto mais uma pessoa consegue escutar honestamente a própria experiência, mais liberdade encontra para fazer escolhas coerentes com seus valores e limites. Essa liberdade não elimina a dor nem as estruturas sociais que a atravessam, mas impede que elas definam sozinhas toda a sua existência.
Uma vida possível no Setembro Amarelo
Falar sobre a vida das lideranças negras durante o Setembro Amarelo exige ir além da convocação para que continuem fortes. Precisamos reconhecer o cansaço que não aparece, a solidão escondida pela visibilidade e o custo emocional de ocupar espaços nos quais a competência ainda é questionada.
Também precisamos ampliar a ideia de cuidado. Psicoterapia, supervisão, redes de pares, vínculos afetivos e mudanças institucionais são recursos importantes. Ainda assim, cuidar da vida envolve algo profundamente pessoal: recuperar o direito de habitar a própria existência. Perguntar não só o que ainda precisa ser feito, mas como eu estou; não só quem depende de mim, mas do que eu preciso; não só como continuar, mas em que condições desejo fazê-lo.
Ocupar é necessário. Permanecer também. Mas permanecer viva não pode significar somente resistir até o próximo dia. Precisa incluir o direito de existir sem armadura o tempo inteiro, de cuidar do corpo que sustenta tantas responsabilidades e de reconhecer que a própria vida tem valor mesmo quando não está servindo, produzindo ou representando.
O coletivo importa e pode sustentar essa travessia. No centro do cuidado, porém, existe uma pessoa que não pode ser esquecida. Uma pessoa que merece estar inteira em sua própria vida.
Permanecer viva também é poder dizer: eu existo por inteiro, e a minha vida também precisa de mim.
Referências
MAY, Rollo. A coragem de criar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2009. Obra original publicada em 1961. YALOM, Irvin D. Psicoterapia existencial. Porto Alegre: Artmed, 2006. Obra original publicada em 1980.
Sobre a autora
Júnia Mamedir é psicóloga e psicoterapeuta (CRP 05/48655), neurocientista em aprendizagem e criadora do Método CEA® — Consciência, Escuta e Ação. É fundadora da Mamedir Humanize, empresa que atua junto a organizações na gestão de treinamento e desenvolvimento, com foco em performance humanizada, e do Instituto Maternize Brasil, ONG dedicada ao acolhimento e ao cuidado em saúde mental de mães e mulheres negras em dez favelas do Rio de Janeiro. Há 22 anos, trabalha na promoção da saúde mental, no desenvolvimento de lideranças e na construção de políticas de cuidado. Mulher negra e afroindígena, também desenvolve ações de formação de lideranças comunitárias femininas negras. Foi reconhecida pelo site Mundo Negro como uma das 25 mulheres negras do corporativo, em publicação sobre liderança e a necessidade de ressignificar a liberdade de quem somos.
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