Fare Network, parceira da Fifa no combate à discriminação, exigiu que o australiano Shaun Evans seja retirado do torneio; Fifa abriu investigação, mas não anunciou punição
A Fare Network, organização internacional que atua em parceria com a Fifa no monitoramento de discriminação em competições de futebol, pediu nesta segunda-feira, 15, o afastamento imediato do árbitro de vídeo australiano Shaun Evans da Copa do Mundo de 2026, depois que imagens captadas durante a transmissão oficial do jogo entre Alemanha e Curaçao mostraram o profissional fazendo um gesto com a mão direita associado por especialistas a grupos supremacistas brancos. O episódio ocorreu no domingo, 14, antes do início da partida disputada em Houston, quando as câmeras do torneio exibiram por alguns segundos a equipe do VAR trabalhando no centro de operações instalado em Dallas.
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Nas imagens que viralizaram nas redes sociais, Evans aparece com as pontas do polegar e do indicador unidas, formando um círculo, enquanto os outros três dedos permanecem estendidos. O gesto, historicamente associado ao sinal de “ok”, foi ressignificado em 2017, quando usuários do fórum americano 4chan lançaram uma campanha falsa afirmando que a configuração de mão formava as letras “w” e “p”, iniciais de “white power” em inglês. Com o tempo, grupos de extrema direita passaram a adotar o símbolo como código de reconhecimento mútuo, justamente porque ele pode passar despercebido por quem desconhece o contexto, confundido com um simples gesto de aprovação.
A Fare Network se pronunciou após submeter as imagens à análise de seus especialistas. “O sentimento dos nossos especialistas é que o gesto usado é claramente um ‘ok’ invertido, usado como o símbolo de poder branco nos círculos de extrema-direita internacional”, declarou a organização, segundo O Globo. A entidade foi além da denúncia e cobrou providências diretas da Fifa: “Este árbitro não deve ter mais nenhum papel neste Mundial”, acrescentou, conforme o Jornal Record.
A Fifa abriu uma investigação sobre o episódio, de acordo com informações publicadas nesta segunda-feira pelo jornal espanhol Democrata. Até o momento, porém, a entidade não anunciou a abertura de processo disciplinar formal nem comunicou qualquer decisão sobre a permanência de Evans no torneio. Procurada pela Folha de S.Paulo e por outros veículos, a Fifa não havia respondido até a publicação das primeiras matérias sobre o caso.
A Liga Antidifamação, organismo americano especializado no monitoramento de crimes de ódio, ponderou que nem toda pessoa que faz esse gesto está necessariamente fazendo referência à supremacia branca, uma vez que o sinal de “ok” segue em uso corrente em contextos alheios a qualquer conotação política. A ressalva é relevante para a avaliação do episódio, já que Evans não se manifestou publicamente sobre o caso até o fechamento desta reportagem, e tampouco a federação australiana emitiu qualquer nota a respeito.
Shaun Evans tem 38 anos e mais de duas décadas de carreira na arbitragem. Começou como assistente na A-League, a liga nacional australiana, foi promovido a árbitro principal em 2012 e passou a integrar o quadro internacional da Fifa em 2017. Foi eleito árbitro revelação do ano pela Federação Australiana de Futebol em 2007 e árbitro do ano pela mesma entidade em 2010. Sua primeira participação em Copas do Mundo como árbitro de vídeo ocorreu no Qatar, em 2022.
A Fare Network existe desde fevereiro de 1999, quando grupos de torcedores, sindicatos de jogadores e associações de futebol se reuniram em Viena para fundar uma rede dedicada ao combate à discriminação no esporte. Ao longo dos anos, a organização estabeleceu parcerias formais com a Fifa e a Uefa, e mantém equipes de monitoramento ativas durante grandes torneios internacionais. O fato de a Fare ter parceria oficial com a Fifa confere peso institucional ao pedido de afastamento, diferente de uma cobrança vinda apenas de torcedores nas redes sociais.
O caso ganhou dimensão adicional pelo contexto esportivo em que ocorreu: a seleção de Curaçao, adversária da Alemanha na partida em questão, é composta majoritariamente por jogadores negros, originários de uma ilha caribenha com população predominantemente afrodescendente. A Alemanha venceu o jogo por 7 a 1, mas o placar ficou em segundo plano nas redes sociais, superado pela repercussão das imagens do árbitro. Os desdobramentos do caso dependem agora do resultado da investigação aberta pela Fifa, que precisará se posicionar publicamente antes da próxima rodada do torneio.
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