Mundo Negro

O que podemos aprender com Ludmilla sobre estratégias de enfrentamento ao racismo?

Foto: Reprodução/Instagram

Texto: Shenia Karlsson

Recentemente, foi revelado que a artista Ludmilla decidiu não aceitar um convite para participar de um programa bastante famoso atualmente, chamado “De frente com Blogueirinha”, apresentado por Bruno Matos, o criador da mencionada personagem. A justificativa para essa recusa foram os comentários inapropriados feitos pelo apresentador sobre a cantora em um momento em que ele ainda era uma figura em ascensão nas redes sociais. 

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Notícias Relacionadas


Em 2019, Ludmilla foi agraciada com o Prêmio MultiShow na categoria de ‘Melhor Cantora do Ano’ e, ao subir ao palco, foi recebida com gritos, vaias e assédios de diversas formas, com ênfase em manifestações racistas. No dia seguinte, nas redes sociais, a Blogueirinha postou um vídeo afirmando que Ludmilla “deveria ser grata pelas vaias; caso contrário, nem seria lembrada”. Naquele momento, Ludmilla assistiu ao vídeo, respirou fundo e permaneceu em silêncio. 

O artista se manifestou nas redes sociais pedindo desculpas, embora tenha minimizado o episódio como uma simples “discussão” entre fãs na época, e alegou não ter percebido a gravidade de suas ações. A humilhação que Ludmilla enfrentou publicamente durante o evento, somada à desumanização provocada pela Blogueirinha através do vídeo que foi divulgado horas após aquela noite infeliz resultou em uma experiência extremamente dolorosa para a cantora. Nesta semana, ela compartilhou seus sentimentos, os gatilhos e a tristeza que esse episódio traumático lhe trouxe. Embora a Blogueirinha tenha esquecido, Ludmilla não se esqueceu.

Frequentemente, escuto de meus clientes em meu consultório relatos sobre experiências traumáticas que vivenciaram anteriormente e o reencontro com aqueles que as provocaram. No que diz respeito ao racismo, há inúmeras narrativas de constrangimento público, assédios, agressões psicológicas e físicas desde a infância, e todas essas vivências dolorosas permanecem armazenadas e são reativadas em situações análogas. Quando se trata de racismo e como nos faz sofrer, temos o compromisso ético de estar com a memória em punho. Perdoar se quiser, esquecer nunca.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

A intelectual e multiartista Grada Kilomba, em sua obra “Memórias da Plantação”, enfatiza a relevância de praticarmos a descrição de nosso dia a dia e das violências que nos afetam, utilizando a primeira pessoa do singular. Falar sobre nossas dores de forma clara e audível é um ato político. Em outras palavras, quebra o silêncio que nos envolve.

Ela nos instiga ao afirmar que “no universo conceitual branco, parece que o inconsciente coletivo das pessoas negras está programado para a alienação, a desilusão e o trauma psicológico”, sendo assim, é nosso dever subverter tudo isto.

É nesse pacto compartilhado, sustentado não apenas por brancos, mas também por negros e racializados, que se encontra a autorização para desmerecer publicamente uma jovem negra, transformar seu momento de alegria em uma cena de miséria e considerar tudo isso aceitável. E sabemos que negros que ascendem economicamente não estão isentos de sofrer racismo como a própria Neusa Santos salientou em seu livro Tornar-se negro, não é?! Muito pelo contrário, a experiência pode até intensificar-se, no caso da cantora, submetida ao escárnio sistematicamente.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

A cantora Ludmilla tem se destacado não apenas por seu talento musical, mas também por sua postura firme e corajosa diante do racismo. Em situações dolorosas, ela utiliza estratégias de enfrentamento que servem de exemplo para muitos. A memória é um componente crucial nesse processo. Ao lembrar e honrar as histórias e experiências passadas, Ludmilla reforça a importância de reconhecer e aprender com o passado para que erros semelhantes não se repitam e dores não sejam revividas. Rejeitar um convite para uma entrevista com quem um dia te desumanizou é um direito. É legítimo!

Essa prática de rememoração ajuda a estabelecer os limites do que podemos ou não aceitar e consequentemente, construir uma identidade coletiva mais forte e resiliente, capacitando indivíduos e comunidades a se oporem a injustiças de maneira informada e consciente. A denúncia, por sua vez, é uma ferramenta poderosa para expor e combater o racismo.  Sendo assim, a memória e a denúncia são componentes fundamentais para o processo de cura de pessoas negras.

Ludmilla tem utilizado sua plataforma para trazer à tona situações de discriminação que muitas vezes passam despercebidas ou são silenciadas. Ao chamar a atenção do público e da mídia, ela exerce uma pressão necessária para que mudanças sociais sejam implementadas e para que os perpetradores sejam responsabilizados por seus atos.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Esses componentes, a memória e a denúncia, são fundamentais não apenas para a resistência, mas também para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Através de seu exemplo, Ludmilla inspira outros a também se posicionarem, mostrando que a luta contra o racismo é um esforço coletivo que requer coragem, persistência e solidariedade.  

Nunca negocie sua existência, nossa saúde mental agradece!

Shenia Karlsson é Psicóloga Clínica, Especialista em Diversidade, Negritudes e Racialidades, Colunista, Escritora e Palestrante. Mediadora de conflitos raciais, consultora em DI&E e contenção de crise em situação de racismo nas empresas. É Mediadora Familiar no reality “Ilhados com a Sogra” na Netflix.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Notícias Recentes

Participe de nosso grupo no Telegram

Receba notícias quentinhas do site pelo nosso Telegram, clique no
botão abaixo para acessar as novidades.

Comments

Sair da versão mobile