Para Denis Tassitano, CEO da Swile Brasil, sucesso profissional não se resume somente à competência. Em uma carreira de mais de 15 anos no mercado de tecnologia, o empresário aprendeu que talento, sozinho, nem sempre é suficiente para abrir portas, especialmente quando se fala em profissionais negros ocupando espaços de liderança.
“Na maioria das trajetórias de sucesso existe uma combinação entre repertório e conexões: o que você sabe e quem tem a oportunidade de saber o que você sabe”, afirma Tassitano. “Em determinadas fases da vida, precisamos alargar o foco para aquilo que exige mais de nós naquele momento”.
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O executivo chegou à Swile Brasil após mais de uma década à frente da SAP, onde construiu uma trajetória em posições estratégicas e de negócios. Formado em Marketing pelo Mackenzie, com pós-graduação pela ESPM e extensão em Marketing pela Universidade de Nova York, sendo um dos poucos profissionais negros em cargo de liderança no Brasil, ele também se dedica a iniciativas de diversidade e inclusão voltadas à presença de grupos minoritários em cargos de destaque. Ele é co-fundador do Pacto A, organização que conecta profissionais negros a executivos experientes. Também criou o Best In Black, um programa de networking voltado a executivos e empreendedores negros.
Mas, para Tassitano, construir uma carreira não significa estar permanentemente conectado ao trabalho, nem tentar acompanhar todas as novidades que surgem em um mercado cada vez mais acelerado pela tecnologia e pela inteligência artificial. Ele defende que o equilíbrio pode ser construído ao longo do tempo, e não necessariamente todos os dias.
“Hoje, para mim, estar em movimento importa mais do que buscar performance”, diz. A mesma lógica se aplica à vida pessoal: entre caminhadas, viagens, museus e encontros com amigos e familiares, ele busca preservar relações que, segundo ele, permanecem mesmo quando empresas, cargos e ciclos profissionais terminam.
Ao Mundo Negro, entrevista concedida à Editora-Chefe do Mundo Negro Silvia Nascimento , Tassitano fala sobre os desafios de sua trajetória como profissional negro em posição de liderança, a relação entre carreira e vida pessoal, como mantém o repertório em um mundo em constante transformação e por que considera as conexões humanas tão importantes quanto o sucesso profissional.
Para você ainda vale a premissa de que temos que ser duas vezes melhores que os brancos para se destacar?
Eu não acredito que precisamos ser duas vezes melhores. O problema nunca foi falta de talento. Muitas vezes, o talento simplesmente não chega aos lugares onde as oportunidades são decididas. E é aí que entra um ponto no qual eu bato constantemente: acesso, conexões. Muita gente acredita que repertório, conhecimento e competência, sozinhos, serão suficientes para abrir todas as portas. São fundamentais, claro, mas não bastam. Na maioria das trajetórias de sucesso existe uma combinação entre repertório e conexões: o que você sabe e quem tem a oportunidade de saber o que você sabe.
Por isso, para mim, a discussão não deveria ser sobre negros precisarem ser melhores. Precisamos ampliar o acesso aos espaços, às conversas, às pessoas e às oportunidades onde o talento possa ser reconhecido.
Obama já disse em entrevista que é impossível equilibrar carreira com vida pessoal. Você concorda? Como você sabe em que momento o que deve ser priorizado?
Eu concordo que existem momentos em que o equilíbrio simplesmente não vai existir e não vejo necessariamente isso como um problema. Em determinadas fases da vida, precisamos alargar o foco para aquilo que exige mais de nós naquele momento.
Pode ser a busca por uma promoção, a adaptação a um novo cargo ou empresa, ou a preparação para um objetivo específico de carreira. Mas também pode acontecer exatamente o contrário: uma doença nossa ou de alguém próximo, o nascimento de um filho ou qualquer situação que faça a vida pessoal exigir muito mais atenção.
Quando falamos em falta de equilíbrio, quase sempre imaginamos o trabalho invadindo a vida pessoal, mas nem sempre é assim. Eu gosto de pensar na vida como uma prova de longa distância. Um corredor pode dar tudo de si em determinado trecho, sabendo que depois precisará recuperar o fôlego e administrar melhor o ritmo. Acho que a vida funciona um pouco assim. O equilíbrio não precisa existir todos os dias, mas precisa existir ao longo do percurso.
Vivemos em uma época em que ferramentas de trabalho ligadas à tecnologia são atualizadas semanalmente, entre outros aspectos profissionais afetados pela IA. Como você se organiza para acompanhar essa atualização? Cursos, leituras, podcasts? Pode indicar para a gente o que você consome?
Eu desisti há algum tempo de tentar acompanhar tudo. Isso já era impossível e a IA só deixou essa impossibilidade mais evidente. Minha preocupação hoje é outra: manter a curiosidade e ampliar a minha visão de mundo.
Leio menos livros do que gostaria, é uma batalha constante, mas consumo muitos artigos, podcasts e audiobooks. Faço cursos, converso com pessoas de áreas e gerações diferentes e estudo temas que, muitas vezes, parecem não ter nenhuma relação com o meu trabalho. Uma dica prática é treinar o seu feed. Se não dá para vencer o algoritmo, junte-se a ele! Navegue menos, mas faça com que o tempo gasto ali também alimente seus interesses.
Quando quero aprender sobre algo, uso uma regra simples: três livros, três podcasts, três audiobooks e bons perfis sobre o tema. Isso me ajuda a criar repertório sem a pretensão de dominar tudo.
A atividade física é algo quase inegociável para grandes líderes. Você treina ou tem alguma atividade física regular?
Por incrível que pareça, não tenho uma atividade física regular há algum tempo, mas estou sempre em movimento. Ando muito pela cidade, gosto especialmente de caminhadas noturnas e, quando viajo, caminho por todos os lados. Para mim, é uma das melhores formas de conhecer um lugar, inclusive São Paulo, que é a cidade onde vivo.
No escritório, prefiro as escadas ao elevador e tenho o privilégio de morar em um bairro onde grande parte da vida acontece a uma distância agradavelmente caminhável.
Agora estou retomando a academia à noite, com exercícios leves e sauna. Meu objetivo mudou: não quero bater recordes. Quero manter a forma, preservar a memória muscular que construí desde a adolescência e envelhecer bem.
Hoje, para mim, estar em movimento importa mais do que buscar performance.
Socializar e ter amigos é cada vez mais fundamental em um mundo acelerado. Como você inclui a convivência com amigos e também família na sua rotina?
No livro “Os 5 principais arrependimentos que as pessoas têm antes de morrer”, de Bronnie Ware, que trabalhou durante anos com pacientes em cuidados paliativos, identificou cinco arrependimentos recorrentes no fim da vida. Um deles é muito simples e poderoso: “Eu gostaria de ter mantido contato com meus amigos”. Definitivamente, esse não será um arrependimento meu. Falamos muito de saúde física e mental, mas ainda pouco de saúde social. Eu acredito profundamente no poder das relações. Networking nunca foi colecionar contatos; é construir relações genuínas, no trabalho, nas amizades e, principalmente, na família.
Por isso, eu produzo encontros, viajo, vou a museus, encontro amigos, converso sem pauta. Nem todo encontro precisa produzir alguma coisa, mas precisamos produzir o encontro. Falta de tempo não pode ser sempre a justificativa para deixarmos as relações para depois. Talvez um dos riscos desta época seja transformar tudo em produtividade. Até o descanso virou performance. Eu preservo espaços de conexão como fundamentais na minha rotina, seja presencial ou virtual.
Cargos mudam, empresas mudam, ciclos terminam. Relações permanecem.
No final, não quero construir uma carreira extraordinária às custas de uma vida medíocre sem conexão com pessoas.
*Entrevista concedida à Editora-Chefe do Mundo Negro Silvia Nascimento
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