Doutor em Bioquímica Luiz Cantú explica como acontece o envelhecimento da pele negra
“Mas pele negra não envelhece”. Taí uma frase que ouvimos com certa frequência. Assim como “Pele negra não precisa de protetor solar”. E, embora os fototipos mais altos tenham sim um fator natural de proteção solar por conta da eumelanina (FPS13 x FPS3,3 de uma pele mais clara) e isso diminua o estresse oxidativo, isso não torna nenhuma das duas frases totalmente verdadeira.
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Quanto ao FPS, acho que já entendemos que o aumento da radiação UV aliado à falta de diagnóstico soma um cenário letal para muitas pessoas tardiamente diagnosticadas. Mas hoje vamos focar em envelhecimento. E sim. A pele negra passa pelo processo de envelhecimento. Mas de forma diferente. E eu vou te explicar tudo.
Quando pensamos em envelhecimento, pensamos imediatamente em rugas. Mas existem outros sinais que são tão importantes quanto e, na pele negra, eles surgem nessa faixa 45+: manchas, discromias, tom desigual, perda de sustentação… Embora a proteção gerada pela melanina seja considerável, o colágeno e as fibras elásticas se desorganizam com o tempo, assim como em qualquer fototipo de pele. A melanina segura essa barreira um pouco mais. Um pouco.
Um outro fator se soma à equação quando consideramos essa faixa etária: a menopausa. A perimenopausa já inicia uma queda hormonal que afeta diretamente a pele, que é um dos órgãos que mais sente essa mudança, pois ela tem receptores de estrogênio e responde diretamente à essa queda. Os números são bem sólidos, inclusive: existe uma queda de cerca de 30% do colágeno nos primeiros 5 anos após a menopausa. E não para. A queda segue anualmente.
Por outro lado, a gente ainda passa por uma queda de produção de ceramidas, o que interfere na saúde da barreira cutânea, diminuindo a hidratação, a firmeza e o viço. Para a pele negra, essa conta fica um pouco mais salgada, porque a união desses fatores pode desencadear ou agravar a hiperpigmentação, uma questão que sofremos naturalmente ao longo da vida.
Parece um texto pessimista, não? Mas não é. É o incômodo do rompimento de um estigma e de um equívoco de comunicação que faz com que as pessoas não olhem para si próprias ao não entenderem o que está acontecendo com elas. E agora segura na minha mão, que eu vou te dar o manual de como cuidar de si mesma nessa fase que pode, sim, ser desafiadora.
Vamos focar em 4 pilares para nos cuidarmos: barreira, fotoproteção, despigmentação e nutrição. Pra cuidarmos da barreira, precisamos entender o que ela é pra nós: nossa muralha de defesa contra as agressões do mundo. E como a regeneramos e a mantemos íntegra? Com ceramidas e lipídeos para que não percamos mais água. Em uma pele que está perdendo ceramidas pela queda hormonal, é essencial aumentar a hidratação com hidratantes que aumentem a saúde dessa barreira. Óleos na rotina noturna, hidratação corporal com hidratantes com ceramidas, regeneradores cutâneos. Estamos dizendo pra nossa pele: “Tá tudo bem. Eu sei o que está acontecendo e eu estou aqui”.
Agora vamos falar de um dos fatores mais importantes: a fotoproteção. Ela evita o dano à pele, diminui o estresse oxidativo, protege do câncer de pele e da geração de manchas. E não estou falando apenas da luz solar. A luz azul é uma grande estimuladora do aumento de manchas, e a proteção contra ela é essencial. Os produtos? Protetores solares todos os dias e, para a luz azul, bases ou protetores com cor trazem essa camada de proteção extra que você vai perceber que compensa e muito.
Mas e as manchas? Sim, em pele negra elas podem ser um grande incômodo. E, pra isso, temos muitas opções de uniformizadores de pele. Mas atenção. A pele negra precisa ser cuidada com mais cuidado e parcimônia. Um passo em falto e você desperta as três letras mais temidas: HPI. Hiperpigmentação Pós-Inflamatória. O ideal é ir aos poucos, evitar procedimentos e tratamentos agressivos demais para não passar do ponto e ir para o outro extremo. Para isso, produtos como o Mela B3, o MelanoControl e procedimentos em clínicas confiáveis e, principalmente, especializadas em peles negras, fazem toda a diferença.
E a nutrição? A pele é o nosso maior órgão e você tá aí deixando ela passar fome. Uma pele madura requer mais que uma hidratação superficial. Ela requer ingredientes que acolham a nova fisiologia, cuidem da microbiota da pele e entreguem os efeitos que nossa pele realmente precisa: antioxidantes, agentes que apoiem a síntese de colágeno e evitem a degradação do que já existe e texturas que nutram sem sufocar a pele.
E, pra isso tudo acontecer, vem o elemento mais difícil: ir a um dermatologista. Ainda temos na dermatologia um espaço muito agressivo e atravessador para os pacientes negros. E isso vem mudando. Vemos horizontes com o crescimento da voz de dermatologistas como a Dra. Kathleen Conceição e a Dra. Nandara Paiva, que vêm criando em seus espaços portos de acolhimento para essa população tão negligenciada e até mesmo mal diagnosticada. É um resgate de pessoas que voltam a ver possível uma relação com a sua autoestima. E isso transforma tudo ao redor delas.
Uma mulher negra de 45 anos se cuidar é mais que apenas uma rotina. É um ato de acolhimento de si própria e de gerações anteriores. É o rompimento de estigmas e o começo de um ciclo que se propaga para as gerações seguintes. É se enxergar importante, central e digna de todo o cuidado que ela merece. A pele madura não é um problema. As rugas não são um peso. São o retrato de uma vida vivida. Se temos rugas, é porque sorrimos, choramos, sentimos e, mais importante: contra todas as expectativas, vivemos. Hoje a ciência já fornece soluções em todas as faixas de preço e possibilidades para que nos cuidemos. E é nessas possibilidades que eu te convido a encontrar, a partir dos seus 45 anos, a sua fase da vida mais plena e radiante.
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