Por Ricardo Corrêa
A vida me ensinou que não posso aceitar qualquer discurso sem que eu tenha clareza do que se trata fundamentalmente. E tem uma razão: sou um homem preto em uma sociedade racista, o cuidado é redobrado para não pisar em falso. E assim, o adensamento de complexidades que atinge a população negra é infindável, tanto que se passaram mais de quinhentos anos de Brasil e os negros seguem lutando pelo reconhecimento da própria humanidade. E as políticas públicas conquistadas até o presente momento surgiram por mobilizações e tensionamentos dos movimentos negros, políticos e intelectuais negros.
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Contudo, esses enfrentamentos também nos trouxeram aprendizados que deixaram uma coisa muito clara sobre os espectros políticos nos quais os partidos se situam: enquanto a direita se esconde na meritocracia e nega a dívida histórica com os descendentes de africanos, a esquerda muitas vezes reduz o racismo à luta de classes, empurrando as nossas pautas para a fila de espera. Daí muitas pessoas negras se revoltam e recuperam a célebre frase de Sueli Carneiro: “Entre a direita e a esquerda sei que eu continuo preta”.
Essa frase surgiu em sua entrevista para a Revista Caros Amigos (2002), no entanto o perigo está no uso distorcido dessa máxima nas redes sociais para sugerir que os negros não devam aliar-se a ninguém externo à comunidade.
É aí que mora o engano ou a manipulação interessada. Sueli Carneiro estava defendendo a autonomia negra; não o isolamento político. Afinal, não importa quem governe, as questões raciais estarão sempre presentes. Porém, o papel histórico do movimento negro é a mobilização e a pressão sobre a política institucional para a conquista de direitos. A frase não é um chamado à abstenção.
Em 2022, também era um ano eleitoral como este que estamos vivendo. Sueli Carneiro deu uma entrevista visceral no podcast “Mano a Mano”, programa conduzido pelo rapper Mano Brown e pela jornalista Semayat Oliveira. A intelectual foi enfática na advertência em relação à frase em questão, e não deixou dúvidas: “Não manipule o que eu disse: ‘entre a esquerda e a direita continuo preto… continuo preta’ (…) nós temos lado, e a nossa função é empurrar a esquerda para a esquerda.”
Ter lado, portanto, não é trair a autonomia: é exercê-la. A luta negra exige combate na mesma arena onde os privilegiados fortalecem seus poderes. Isolar-se em hipótese alguma será a solução dos nossos problemas.
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